Cabellos brancos

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Cabellos brancos
por António Feijó


A D. Thomás de Mello Breyner


Não repares na cor dos meus cabellos
Sem ler primeiro Anacreonte;
Verás que os sonhos juvenis, mais bellos,
Tambem se evolam d'enrugada fronte.

O espirito do Poeta é sempre moço;
O Coração nunca envelhece...
Basta um sorriso, um nada, um alvoroço,
E tudo nelle se illumina e aquece.

Deusas d'eterna graça adolescente,
Jamais as Musas desdenharam
Da luz que treme incendiando o poente,
Dos rouxinoes que ao pôr do sol cantaram.

Fina e fragil vergontea melindrosa,
Que foi na ceifa abandonada,
Ruth, apesar de moça e de formosa,
Nos braços de Booz dorme encantada.

Quantas flores d'inédita fragrancia
Em mãos provectas vão abrindo...
Abisag, ao sair quasi da infancia,
No leito de David entrou sorrindo.

E d'esse beijo, inverno e primavera,
D'esse connubio, oh maravilha!
Como se a ruina fecundasse a hera,
Veio á luz uma estrella, que ainda brilha.

Esculpturaes patricias, d'olhos ledos,
Quem as lembrara, se deixassem
Que mãos obscuras, mercenários dedos,
A velhice d'Horacio engrinaldassem?

Quantos nomes illustres! quantos casos!
Mas que direi mais eloquente?
Não ha dias tão pallidos, e occasos
Como explosões d'uma cratera ardente?

Não repares na côr dos meus cabellos;
A branda luz que nelles arde,
Como o poente, das nuvens faz castellos,
Tinge d'alva o crepusculo da tarde...

Muita vez os cabellos embranquecem
Na dor d'horriveis soffrimentos...
Não são os annos que nos envelhecem;
«São certas horas más, certos momentos...»