Cada raça tem um calino

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Cada raça tem um calino
por Lima Barreto
Crônica publicada em Vida Urbana


O doutor Amaro Cavalcanti que atualmente exerce as funções de prefeito desta cidade, foi, no governo do senhor Prudente de Morais, ministro da Justiça. Como quase todos os ministros do Interior, ele mereceu a honra de ser biografado pelo senhor Pelino Guedes. Por sua vez, a obra deste mereceu comentários de um sábio alemão e de que publicamos abaixo uma síntese.



Convinha, disse ele, que precedendo estes meus comentários justificasse como eu, modesto privat docent de uma universidade alemã, atrevi-me a comentar obras de autor desse longínquo Brasil. Desde moço, pois tenho meus quarenta e cinco anos de idade, dediquei-me ao estudo do grotesco e do ridículo sobretudo, e essa face das coisas humanas levou-me a pesquisas dos seus tipos mais notáveis os quais com consciência observei e analisei.

Num ensaio que publiquei - Do Ridículo,aventei a teoria, que para cada povo e raça havia um Calino especial.

Assim foi que, após ter determinado os tipos de tolice para cada povo europeu, passei a determiná-los para os povos exóticos da América e Ásia.

Os motivos determinantes desse meu atual trabalho não são outros que os que possa ter um interessado nesses abs­trusos estudos.

Aproveito o ensejo para acusar o recebimento de outro "trabalhinho" do doutor Pelino - a biografia do doutor Sabino Barroso, ex-ministro, e essa obra é sobremodo notável, pois encerra nesta modesta frase o maximum da inteligência do seu autor: - "A biografia é a história da vida de um ho­mem".



Comentemos a biografia do senhor Amaro.

A Biografia do senhor Amaro é um grosso volume de 56 páginas, destas, oito em branco ou simplesmente com o título da obra; duas ocupam-se com a dedicatória ao próprio biografado, seis são destinadas a dedicatória (quanta dedica­tória!), à escola - e que escola! - à Escola Nacional do Caráter.... pro pudor!

Das 40 que ficam, temos que subtrair oito destinadas às notas finais (cópia de relatórios, de decretos, etc.); ficaram pois 32 que formam a biografia.

Estas 32 páginas têm 986 linhas, das quais 531 são ou parecem ser da lavra do autor, e as outras 495 são constituí­das por citações do Smiles e de outros autores, apud Smiles.

Desse modo o que nos resta são algumas frases, que recomendam muito o talento do autor.

Vejamos:

"As dívidas oriundas da gratidão devem ser pagas à boca do cofre e eu não disponho de outros recursos para satisfazer a que contraí, senão pelo modo que o fiz."

Singular teoria! De tal modo que se o senhor Pelino fizer justiça (ele diz que foi isso que o senhor Amaro lhe fez) a um negociante de arreios, esse pobre homem não dis­pondo de outros recursos para pagar aquela "dívida oriunda da gratidão" deverá pagar com arreios? Com freios? Não; porque sabemos que tais coisas de nada servem ao senhor Pelino, mas como o negociante não dispõe de outros recursos para pagar tal dívida... naturalmente abrirá falência.

Vejam só o que são teorias!

"A idéia de Deus não é incompatível com o amor da pátria."

O autor desta sentença, além de só "pensar o pensado", tem a singular mania de descobrir verdades profundas como aquela acima e esta:

"Há mais de um exemplo do soçobro dos direitos e prerrogativas do cidadão na vida dos povos."

"É só do povo, diz ele, que depende a sorte dos seus governos."

Será verdade do doutor Pelino?

Adiante:

"Imaginai uma paisagem que, pouco a pouco, vai sendo iluminada pelo Sol. (Bonito) - Estende-se além a vastidão do deserto, (naturalmente atrás da paisagem... Como enxerga o cíclope do Largo do Rossio!) em cujo seio flutua a sombra de um vulto solitário! - É a sombra do meu herói!"...

Naturalmente este trecho poético mede forças com aquele verso "a Polinésia é um coreto onde o mar toca piston..."

Ainda mais:

"Tendo-o diante dos olhos, eu procurarei em largos traços, porém distintos, desenhar-lhe a imagem, sem omitir uma só linha, nem uma sombra; de modo a poder com fidelidade, fotografar-lhe a personalidade não de perfil, mas de fronte voltada para o Céu."

Lendo as obras do senhor Felino observa-se a sua tendência para fotógrafo ao qual, talvez, por essa sua vocação sopeada, atribui gênio; mas o interessante, e que se conclui do trecho acima, é que pretenda fotografar os seus clientes de fronte para o Céu!

Naturalmente, penso eu, é vocação para fotógrafo de necrotério.

Temos ainda: a única omissão que aí noto é a ‘origem genealógica"...

Risum teneatis, amici!

E saibam que a tal "origem genealógica" consta unicamente dos nomes do respeitável pai e da augusta mãe do bio­grafado!

Aprenderam?

Agora esta "amostrazinha":

"O doutor Amaro tem a tez morena e olhar cintilante dos filhos do Norte. (Ex.: os da família Accióli). Dicção correta e voz metálica. E amigo leal e dedicado. Fala francês. Monta cavalo.

"Habitamos, algum tempo, a mesma casa (Notável detalhe). Fez-me lembrar, muitas vezes, os solitários da Tebaida. (Coitado!). Pagava as visitas que lhe faziam. Toma banho frio todos os dias. Parece que tinha lido o conde de Camors.

"Quando estava comigo queixava-se da solidão. (Pudera!)."

Puro estilo telegrama - não há dúvida!

Temos mais:

"As suas ações (as do doutor Amaro) nada têm de he­róicas."

"O meu herói distinguiu-se em outro cenário diverso; na vasta e tempestuosa arena da luta pela existência."

Extraordinário esse senhor Pelino! Descobre aquele "paradoxo": "a biografia", etc. Depois tem "um herói" sem "ações heróicas", que se distingue - não na guerra, não nas artes, não na ciência - mas onde, Santo Deus? - na arena da luta pela existência! Acredita com certeza que possa haver quem se celebrize na arena da luta... pela morte!

Macabra idéia!

"Sei, diz o doutor Pelino, que escrevo esta obra para escola."

Com toda certeza para "sua" Escola Nacional do Caráter...

"O doutor Amaro é a personificação da luta pela exis­tência."

Esta "história" de luta pela existência atrapalha a inteli­gência "paradoxal" do senhor Pelino. "Personificação da luta pela existência!" É demais!

Outrazinha:

"O trabalho e o estudo simbolizam para o doutor Amaro a sua - Delenda Carthago.

Símbolo extraordinário! Vai tal símbolo, naturalmente com vistas aos nossos simbolistas.

Simbolizam delenda Carthago!

Sem comentários. Safa!

Terminando diz o Calinópedes: "Se a intenção foi pura e a obra não sai perfeita, a culpa não é do autor."

Nem minha, senhor Pelino.

Enfim, a obra do senhor Pelino é sem dúvida das mais curiosas e dignas de leitura que conheço. Nela, se não fossem os documentos que possuo da existência do senhor Pelino e outros motivos que saltam aos olhos de todos, poder-se-ia afirmar que haviam colaborado Calino, La Palisse, Acácio, Pa­checo, Prudhomme e mais outros de igual jaez. Feliz país que possui um Pelino!

Adolfo von Schulze.

Da Universidade de Freiburg.

Tradução de Lima Barreto.

A.B.C., Rio, 23-2-1918.