Cantiga de esponsaes

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Cantiga de esponsais
por Machado de Assis
Originalmente publicado em A Estação no ano de 1883 e posteriormente recompilado em Histórias sem data

Imagine a leitora que está em 1813, na egreja do Carmo, ouvindo uma daquellas boas festas antigas, que eram todo o recreio publico e toda a arte musical. Sabem o que é uma missa cantada; podem imaginar o que seria uma missa cantada daquelles annos remotos. Não lhe chamo a attenção para os padres e os sacristães, nem para o sermão, nem para os olhos das moças cariocas, que já eram bonitos nesse tempo, nem para as mantilhas das senhoras graves, os calções, as cabelleiras, as sanefas, as luzes, os incensos, nada. Não fallo sequer da orchestra, que é excellente; limito-me a mostrar-lhes uma cabeça branca, a cabeça desse velho que rege a orchestra, com alma e devoção.

Chama-se Romão Pires; terá sessenta annos, não menos, nasceu no Vallongo, ou por esses lados. É bom musico e bom homem; todos os musicos gostam delle. Mestre Romão é o nome familiar; e dizer familiar e publico era a mesma cousa em tal materia e naquelle tempo. «Quem rege a missa é mestre Romão,»--equivalia a esta outra forma de annuncio, annos depois: «Entra em scena o actor João Caetano»;--ou então: «O actor Martinho cantará uma de suas melhores arias». Era o tempero certo, o chamariz delicado e popular. Mestre Romão rege a festa! Quem não conhecia mestre Romão, com o seu ar circumspecto, olhos no chão, riso triste, e passo demorado? Tudo isso desapparecia á frente da orchestra; então a vida derramava-se por todo o corpo e todos os gestos do mestre; o olhar accendia-se, o riso illuminava-se: era outro. Não que a missa fosse delle; esta, por exemplo, que elle rege agora no Carmo é de José Mauricio; mas elle rege-a com o mesmo amor que empregaria, se a missa fosse sua.

Acabou a festa; é como se acabasse um clarão intenso, e deixasse o rosto apenas allumiado da luz ordinaria. Eil-o que desce do côro, apoiado na bengala; vae á sacristia beijar a mão aos padres e aceita um logar á mesa do jantar. Tudo isso indifferente e calado. Jantou, saiu, caminhou para a rua da Mãi dos Homens, onde reside, com um preto velho, pae José, que é a sua verdadeira mãe, e que neste momento conversa com uma visinha.

--Mestre Romão lá vem, pae José, disse a visinha.

--Eh! eh! adeus, sinhá, até logo.

Pae José deu um salto, entrou em casa, e esperou o senhor, que d'ahi a pouco entrava com o mesmo ar do costume. A casa não era rica naturalmente; nem alegre. Não tinha o menor vestigio de mulher, velha ou moça, nem passarinhos que cantassem, nem flores, nem cores vivas ou jocundas. Casa sombria e nua. O mais alegre era um cravo, onde o mestre Romão tocava algumas vezes, estudando. Sobre uma cadeira, ao pé, alguns papeis de musica; nenhuma d'elle...

Ah! se mestre Romão podesse seria um grande compositor. Parece que ha duas sortes de vocação, as que tem lingua e as que a não tem. As primeiras realisam-se; as ultimas representam uma luta constante e esteril entre o impulso interior e a ausencia de um modo de communicação com os homens. Romão era d'estas. Tinha a vocação intima da musica; trazia dentro de si muitas operas e missas, um mundo de harmonias novas e originaes, que não alcançava exprimir e pôr no papel. Esta era a causa unica da tristeza de mestre Romão. Naturalmente o vulgo não atinava com ella; uns diziam isto, outros aquillo: doença, falta de dinheiro, algum desgosto antigo; mas a verdade é esta:--a causa da melancholia de mestre Romão era não poder compor, não possuir o meio de traduzir o que sentia. Não é que não rabiscasse muito papel e não interrogasse o cravo, durante horas; mas tudo lhe sahia informe, sem idéa nem harmonia. Nos ultimos tempos tinha até vergonha da visinhança, e não tentava mais nada.

E, entretanto, se pudesse, acabaria ao menos uma certa peça, um canto esponsalicio, começado tres dias depois de casado, em 1779. A mulher, que tinha então vinte e um annos, e morreu com vinte e tres, não era muito bonita, nem pouco, mas extremamente sympathica, e amava-o tanto como elle a ella. Tres dias depois de casado, mestre Romão sentiu em si alguma cousa parecida com inspiração. Ideou então o canto esponsalicio, e quiz compol-o; mas a inspiração não pode sahir. Como um passaro que acaba de ser preso, e forceja por transpor as paredes da gaiola, abaixo, acima, impaciente, aterrado, assim batia a inspiração do nosso musico, encerrada n'elle sem poder sair, sem achar uma porta, nada. Algumas notas chegaram a ligar-se; elle escreveu-as; obra de uma folha de papel, não mais. Teimou no dia seguinte, dez dias depois, vinte vezes durante o tempo de casado. Quando a mulher morreu, elle releu essas primeiras notas conjugaes, e ficou ainda mais triste, por não ter podido fixar no papel a sensação da felicidade extincta.

--Pae José, disse elle ao entrar, sinto-me hoje adoentado.

--Sinhô comeu alguma cousa que fez mal...

--Não; já de manhã não estava bom. Vae á botica...

O boticario mandou alguma cousa, que elle tomou á noite; no dia seguinte mestre Romão não se sentia melhor. É preciso dizer que elle padecia do coração:--molestia grave e chronica. Pae José ficou atterrado, quando viu que o incommodo não cedera ao remedio, nem ao repouso, e quiz chamar o medico.

--Para que? disse o mestre. Isto passa.

O dia não acabou peor; e a noite supportou-a elle bem, não assim o preto, que mal pôde dormir duas horas. A visinhança, apenas soube do incommodo, não quiz outro motivo de palestra; os que entretinham relações com o mestre foram visital-o. E diziam-lhe que não era nada, que eram macacoas do tempo; um accrescentava graciosamente que era manha, para fugir aos capotes que o boticario lhe dava no gamão,--outro que eram amores. Mestre Romão sorria, mas comsigo mesmo dizia que era o final.

--Está acabado, pensava elle.

Um dia de manhã, cinco depois da festa, o medico achou-o realmente mal; e foi isso o que elle lhe viu na physionomia por traz das palavras enganadoras:--Isto não é nada; é preciso não pensar em musicas...

Em musicas! justamente esta palavra do medico deu ao mestre um pensamento. Logo que ficou só, com o escravo, abriu a gaveta onde guardava desde 1779 o canto esponsalicio começado. Releu essas notas arrancadas a custo, e não concluidas. E então teve uma idéa singular:--rematar a obra agora, fosse como fosse; qualquer cousa servia, uma vez que deixasse um pouco de alma na terra.

--Quem sabe? Em 1880, talvez se toque isto, e se conte que um mestre Romão...

O principio do canto rematava em um certo _lá_; este _lá_, que lhe cahia bem no logar, era a nota derradeiramente escripta. Mestre Romão ordenou que lhe levassem o cravo para a sala do fundo, que dava para o quintal: era-lhe preciso ar. Pela janella viu na janella dos fundos de outra casa dous casadinhos de oito dias, debruçados, com os braços por cima dos hombros, e duas mãos presas. Mestre Romão sorriu com tristeza.

--Aquelles chegam, disse elle, eu saio. Comporei ao menos este canto que elles poderão tocar...

Sentou-se ao cravo; reproduziu as notas e chegou ao _la_...

--_Lá, lá, lá..._

Nada, não passava adeante. E comtudo, elle sabia musica como gente.

--_Lá, dó... lá, mi... lá, si, dó, ré... ré... ré..._

Impossivel! nenhuma inspiração. Não exigia uma peça profundamente original, mas emfim alguma cousa, que não fosse de outro e se ligasse ao pensamento começado. Voltava ao principio, repetia as notas, buscava rehaver um retalho da sensação estincta, lembrava-se da mulher, dos primeiros tempos. Para completar a illusão, deitava os olhos pela janella para o lado dos casadinhos. Estes continuavam alli, com as mãos presas e os braços passados nos hombros um do outro; a differença é que se miravam agora, em vez de olhar para baixo. Mestre Romão, offegante da molestia e de impaciencia, tornava ao cravo; mas a vista do casal não lhe supprira a inspiração, e as notas seguintes não soavam.

--_Lá... lá... lá..._

Desesperado, deixou o cravo, pegou do papel escripto e rasgou-o. Nesse momento, a moça embebida no olhar do marido, começou a cantarolar á toa, inconscientemente, uma cousa nunca antes cantada nem sabida, na qual cousa um certo _lá_ trazia apoz si uma linda phrase musical, justamente a que mestre Romão procurára durante annos sem achar nunca. O mestre ouviu-a com tristeza, abanou a cabeça, e á noite expirou.


FIM DA CANTIGA DOS ESPONSAES.