Caramuru/X

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Caramuru por José de Santa Rita Durão
Canto X


I

Cheia de assombro a turba a dama admira
Tornada a si da suspensão pasmosa;
E da nova visão, que ali sentira,
Prossegue a ouvir-lhe a narração gostosa.
"Mais bela que esse sol que o mundo gira,
E com dor (disse) de purpúrea rosa,
Vi formar-se no céu nuvem serena,
Qual nasce a aurora em madrugada amena.

II

Vi luzeiros de chama rutilante
Sobre a esfera tecer claro diadema
Da matéria mais pura que o diamante,
Que obra parece de invenção suprema;
Luzia cada estrela tão brilhante,
Que parecia um sol, precioso emblema
De admirável, belíssima pessoa,
Que à roda da cabeça cinge a coroa.

III

De ouro fino os cabelos pareciam,
Que uma aura branda aos ares espalhava,
E uns dos outros talvez se dividiam,
E outra vez um com outro se enredava;
Frechas voando, mais não feririam,
Do que um só deles n'alma penetrava;
Cabelos tão gentis, que o esposo amado
Se queixa que de um deles foi chagado.

IV

A fronte bela, cândida, espaçosa,
Cheia de celestial serenidade,
Vislumbres dava pela luz formosa
Da imortal soberana claridade.
Vê-se ali mansidão reinar piedosa,
E envolta na modéstia a suavidade,
Com graça, a quem a olhava tão serena,
Que, excitando prazer, desterra a pena.

V

Dos dois olhos não há na terra idéia,
Que astros, flores, diamantes escurecem,
Ou na beleza de mil graças cheia,
Ou nos agrados, que brilhando of’recem,
Num olhar seu toda dama se encadeia,
E mil votos à roda lhe aparecem
Dos que a seu culto glorioso alista,
Outorgando o remédio numa vista.

VI

Das faces belas, se na terra houvera
Imagem competente que pintara,
As flores mais gentis da primavera
Pelo encarnado e branco eu comparara;
Mas flor não nasce na terrena esfera,
Não há estrela no céu tão bela e clara,
Que não seja, se a opor-se-lhe se arrisca,
Menos que à luz do sol breve faísca.

VII

Da boca formosíssima pendente
Pasma em silêncio todo o céu profundo:
Boca que um Fiat pronunciou, potente,
Com mais efeito que se criasse um mundo.
Odorífero cheiro em todo o ambiente
Do lábio se espalhava rubicundo:
Fragrância celestial, que amante e pia,
No filho com mil ósculos bebia.

VIII

Todos suspende em pasmo respeitoso
O amável formosíssimo semblante,
E mais nele se ostenta poderoso,
O soberano autor do céu brilhante:
Pois quanto tem o Empiro de formoso,
Quanto a angélica luz de rutilante,
Quanto dos serafins o ardente incêndio,
De tudo aquele rosto era um compêndio.

IX

Nas brancas mãos, que angélicas se estendem,
Um desmaiado azul nas veias tinto,
Faz parecer aos olhos, quando atendem,
Alabastros com fundos de jacinto.
Ambas com doce abraço ao seio prendem
Formosura maior, que aqui não pinto;
Porque para pincel me não bastara,
Quando Deus já criou, quanto criara.

X

Mas, se não se dedigna o verbo santo,
Por nosso amor, de um símbolo rasteiro,
Dentro parece do virgíneo manto,
Pascendo em brancos lídios um cordeiro.
Os olhos com suavíssimo quebranto
Lhe ocupa um doce sono lisonjeiro;
À roda os serafins, que o estrondo impedem,
Para o não despertar silêncio pedem.

XI

Aos pés da mãe piedosa superada
Vê-se a antiga serpente insidiosa,
De que a fronte na culpa levantada
Quebra a planta virgínea gloriosa;
E, enroscando os mortais já quebrantada,
Ao céu só da Virgem poderosa,
No mais fundo do abismo se submerge,
E o feral antro do veneno asperge.

XII

Ao ver beleza tanta, o pensamento,
Que a linda imagem surprendia absorto,
Ouve no centro d'alma um doce acento
Que o peito enchia de vital conforto.
E, como infunde às plantas novo alento
O matutino orvalho em fértil horto,
Tal dos doces influxos na abundância
Dentro d'alma eu senti nova constância.

XIII

"Catarina (me diz), verás ditosa
Outra vez do Brasil a terra amada;
Faze que a imagem minha gloriosa
Se restitua de vil mão roubada!"
E assim dizendo, nuvem luminosa,
Como véu, cobre a face desejada,
E faz que na memória firme exista
Entre amor e saudade a doce vista.

XIV

Assim conclui Catarina, enchendo
De duvidoso assombro a companhia.
Que imagem fosse aquela, iam dizendo,
Ou qual deles acaso a roubaria?
Se a Mãe de Deus, mistérios envolvendo,
Doutra cópia interior o entenderia,
Ou queria talvez que em santo trato
Se restitua n'alma o seu retrato?

XV

Mas vela em tanto apareceu boiante
Que junto da Bahia o mar cortava,
Onde em bandeira, que lançou flamante,
O leão das Espanhas tremulava.
Vem à fala com salva fulminante,
E a franca nau, que à terra velejava.
Posto à capa o espanhol, cortês visita,
E o claro Diogo a visitá-lo incita.

XVI

E, depois que em festivo amigo abordo
O bom Gonzales o hóspede festeja,
Excitou-se nos dois claro recordo
De quem o hispano foi, quem Diogo seja;
Ambos nos braços, de comum acordo,
Um a outro mil ditas se deseja,
Reconhecendo o luso o nobre hispano,
Por um dos companheiros de Arelhano.

XVII

"Carlos o grande, o imperador famoso,
Grato por mim a saudar-te envia
(Disse a Diogo o hispano generoso,
Socorrido a outro tempo na Bahia).
Ouviu o invicto César, gracioso,
O teu obséquio à espanha monarquia,
E o serviço, que grande considera,
Por mim do seu agrado remunera.

XVII

E por que possa em caso equivalente
Retribuir-te aquela ação piedosa,
Salva aqui te ofereço a infausta gente,
Perdida nessa praia desditosa,
De cativeiro bárbaro e inclemente
Vivia na opressão laboriosa,
Até que destas armas protegida
Remiu na liberdade a infausta vida."

XIX

Garcez então, da gente lusitana
O mais distinto que o discurso ouvia,
Confessa o benefício a força hispana,
E a história de seus casos principia:
"Depois que a gente abandonaste insana,
Com seu aviso, a lusa monarquia
Gente aqui mandou, naus poderosas,
Que as nações sujeitassem belicosas.

XX

Foi Pereira Coutinho o destinado
A fazer da Bahia a grã-conquista,
Herói no índico império celebrado,
Em quem nova esperança o luso avista,
Tudo tinha o bom chefe preparado,
Formosas naus ajunta e gente alista
E à grã-população que meditava
De um sexo e doutro as gentes convidava.

XXI

E, sem demora as praias ocupando,
Foi dos Tupinambás, com teu recordo,
As potentes aldeias visitando,
Com amiga aliança em firme acordo.
Do sertão vasto em numeroso bando
Desciam, festejando o nosso abordo,
Os carijós, tapuias e outras gentes,
Por fama do teu nome obedientes.

XXII

Gupeva e Taparica celebrados
Entre os tupinambás, nação que habita
Os campos da Bahia dilatados,
Antes de outros Coutinho solicita;
E, por vê-los contigo emparentados,
Povoar o Recôncavo medita
Da gente, que o teu nome reconhece,
Onde de dia a dia o povo cresce.

XXIII

Todo o fértil terreno utilizando,
Donde riqueza se oferece tanta,
Engenhos vai de açúcar fabricando,
Aldeias, casas, máquinas levanta.
E as drogas preciosas comutando,
A mandioca, arroz e a cana planta;
Nem dúvida que seja em tempo breve
A colônia melhor que Europa teve.

XXIV

Escolha faz nas tabas numerosas
Dos que acha no trabalho mais ativos;
Mas guarda para empresas belicosas
Os que em ferócia reconhece altivos.
A todos com maneiras amorosas
Propõe da fé cristã claros motivos;
E, a condição notando em cada raça.
Uns doma com terror, outros com graça.

XXV

Sabe que em gente tal nada se colhe,
Depois de endurecer na idade adulta,
Onde na puerícia os mais escolhe,
Por dar-lhe em breve a educação mais culta.
Nem dos pais violento algum recolhe;
Mas do proveito, que de alguns resulta,
Induz a gente bárbara que o segue
Que a prole à educação gostosa entregue.

XXVI

Em cuidadosa escola, o temor santo
Antes das artes a qualquer se ensina;
Dão-lhes lições de ler, contar, de canto,
E o catecismo da cristã doutrina;
Vendo-os o rude pai, concebe espanto,
E pelo filho a mãe à fé se inclina;
Nem de meio entre nós mais apto se usa
Que aquela gente bárbara reduza.

XXVII

E estes serão, se a idéia não me engana,
Meios à grande empresa necessários,
Que em breve a gente rude fora humana,
Com escolas e régios seminários.
Foge, sem se domar, a gente insana,
Se em forças e poder nos vê contrários;
Mas, educada em tenra mocidade,
Dilataria o reino e a cristandade.

XXVIII

Mas no meio das belas esperanças,
Com que a nova colônia florescia,
Move a serpe infernal desconfianças
Entre os tupinambás e os da Bahia:
Foi a causa infeliz destas mudanças
Um interesse vil de gente impia,
Que os povos ofendendo em paz amigos,
Cobriram toda a terra de inimigos.

XXIX

Gupeva foi dos seus abandonado;
Taparica foi mono; a lusa gente
Do gentio nos matos rebelado
Contínua perda nas lavouras sente.
Queimada a planta foi, perdido o gado,
E, cercado o arraial em contingente,
Viu Coutinho por bárbara violência
Perdido o seu tesouro e diligência

XXX

Na geral aflição do luso povo
A lugar se recorre mais tranqüilo;
Buscamos nos Ilhéus um sítio novo
Contra a turba feroz, seguro asilo.
E já Coutinho se dispõe de novo,
Vendo manso o gentio, a reduzi-lo,
Fabricando colônia de mais dura,
Menos fecunda, sim, mas mais segura.

XXXI

Mas os Tupinambás, melhor cuidando,
Com promessas os nossos convidavam,
Com mil amigas provas protestando
De conservar a paz que antes guardavam,
Creu o infeliz Coutinho, celebrando
Pactos que segurança a todos davam;
E, sem temor de mais, voltar queria
Ao Recôncavo antigo da Bahia.

XXXII

E já no mar a frota se equipava,
E cada um de nós na empresa absorto,
Sem temor, ou receio, só cuidava
Em fazer ao Recôncavo transporto,
Navegamos o espaço que distava,
E, tendo à vista o desejado porto,
Com fúria o mar aos astros se levanta,
Em cerração do céu que à vista espanta.

XXXIII

O ar caliginoso e em névoa impuro
Tirou-nos toda a vista, e sem destino
Batemos cegos num penhasco duro,
Sem termos do lugar notícia ou tino.
Neste momento horrível, transe escuro,
Suplicando o favor do céu divino,
Vemos a nau, com hórridos fracassos,
Desfazer-se na penha em mil pedaços.

XXXIV

Ficamos, como o entendes, alagados,
Nadando em meio da procela horrenda;
Uns das ondas se afogam devorados,
Outros na praia em confusão tremenda.
E eis que os cruéis tupis encarniçados
Com frechas se empenharam na contenda,
Por levar-nos da areia semi-vivos
À sorte dos seus míseros cativos.

XXXV

Muitos vimos dos bárbaros comidos,
Alguns dispostos ao funesto ocaso,
Aflitos todos nós e esmorecidos,
E esperando qualquer seu triste prazo;
Mas de ti sobretudo condoídos,
Triste Coutinho, que no acerbo caso,
Depois de triunfar da Ásia assombrada,
Perdeste infelizmente a vida amada.

XXXVI

Tu, que mil vezes no remoto oriente
Levantaste troféus de gloria onustos,
A quem cedera o Malabar potente
Em armadas e exércitos robustos;
Tu, que foste o terror da índica gente,
Que da Lísia humilhaste aos reis augustos,
Lá estava entanto a tua sorte escrita
De vires a acabar nesta desdita."

XXXVII

Mais prosseguir não pôde sufocado
O bom Garcez em amargoso pranto;
E condoeu-se Diogo, recordado
De ver-se em outro tempo em caso tanto;
E, havendo os naufragantes consolado:
" Não sou (diz) insensível, que sei quanto
Acerbo o caso é, cruel o artigo,
E a piedade aprendi no meu perigo.

XXXVIII

Recebei, entretanto, valorosos
Corn magnânimo peito a adversidade;
Conseguireis por transes perigosos
Fazer-vos dignos da imortalidade.
Deixareis monumentos gloriosos
A uma longa e feliz posteridade;
E ganhando obtereis com tanta glória
Um nome eterno nos padrões da história."

XXXIX

Disse o piedoso herói, reconhecendo
Ao hispano monarca pelo enviado
O distinto favor, e a mercê tendo
Achar memória no real agrado.
À nau depois os sócios recolhendo,
No Recôncavo entrava desejado,
Onde a vista formosa da Bahia
Com perspectiva amena aparecia.

XL

A ver na estranha nau que gente aporte
Desde o interior sertão turba recresce,
E, bem que diferente em trajo e porte,
Catarina dos seus se reconhece.
Entre aplausos recebe a nação forte
O grão-Caramuru, como merece,
Mostrando pelo amor e reverência
No antigo afeto a nova obediência.

XLI

Carrega entanto o lenho desejado
A nau de Du-Plessis, que Diogo estuda
Que seja em toda a terra obsequiado,
Dando-lhe ao talho da madeira ajuda.
Um carijó, porém, nisto empregado,
Enquanto a carga em toda a nau se muda,
Uma imagem roubou formosa e bela,
Que a nau venera na interior capela.

XLII

Observou-a Diogo na cabana
Tratada dos Tupis com reverência,
Estimando-a por coisa mais que humana,
Que excedia dos seus a inteligência.
Surprendeu-se da imagem soberana
O lusitano herói; e à competência
Com eles venerando a Mãe Divina
Chama a vê-la a piedosa Catarina.

XLIII

Pôs-lhe os olhos a dama, e transportada:
"Esta é (disse) , é esta a grã-senhora
Que vi no doce sonho arrebatada,
Mais que o sol pura, mais gentil que a aurora!
Eis aqui! esta é a imagem veneranda,
Este era aquele roubo, entendo agora :
Oh minha grande sorte! Oh imensa dita!
Isto me quis dizer a Mãe bendita."
 

XLIV

Dizendo assim, com ânsia fervorosa,
Prostrada, abraça a imagem veneranda;
Beija, aperta-a, de gosto lacrimosa
Mil saudosos ais ao céu lhe manda.
"Aqui vos venho achar, Mãe piedosa,
No meio (disse) desta gente infanda!
Infanda como eu fui, se o vosso lume
Não me emendara o bárbaro costume."

XLV

Olha entanto suspensa a gente bruta,
E os excessos que vê cuidando admira;
Nem concebe nas vozes que lhe escuta
Se prazer seja, se de dor suspira;
Mas, como a imagem celestial reputa,
Quanto à dama piedosa obrando vira
Qualquer à imitação fazer deseja,
E este a adora, outro a abraça, e aquele a beija.

XLVI

O lusitano e franco religioso
Veneraram com fé prodígio tanto,
Lembrando-se do sonho portentoso
Com claro indício do presságio santo,
Enquanto o brutal povo numeroso
Tudo nota em um êxtase de espanto,
Até que a um templo em pompa veneranda
A pia multidão a imagem manda.

XLVII

Por santa invocação foi aclamada
A senhora da Graça, e com fé pia
Foi desde aquele dia venerada
Singular Protetora da Bahia.
Igreja primitiva dedicada
Em meio às trevas dessa gente impia,
Memorável (se a fama é verdadeira)
Porque em todo o Brasil fora a primeira.

XLVIII

Neste festejo a plebe se entretinha,
E eis que uma salva se ouve estrepitosa
De grande armada, que estendendo vinha
Galhardetes e flâmulas lustrosa.
Tudo ao rumor da frota se encaminha,
Vendo a bandeira tremular famosa,
Que no brasão das quinas representa
A redenção que o céu na terra intenta.

XLIX

Era Tomé de Sousa o comandante.
Que ali governador fora mandado
Com multidão de gentes abundante,
Para dar forma ao povo começado.
Num sítio com mil mangues verdejante,
Que o grão-Caramuru tinha habitado,
Da colônia, que às tabas se assemelha,
O nome nos ficou de Vila Velha.

L

Ali por principal constituído
Foi dos Tupinambás o claro Diogo
Das tabas do sertão reconhecido,
Como dragão do mar, filho do fogo.
Catarina, por sangue esclarecido,
Herda de seus avós o império logo ,
Convocando à Bahia nesta idéia
Dos seus Tupinambás toda assembléia.

LI

A taba de Gupeva, já habitada,
Onde hoje é Vila Velha, a turba corre;
Das outras tabas toda a gente armada
Com os seus principais a ouvir concorre.
Toda a cidade em corpo congregada
A grande casa concorreu da torre,
Paço de Catarina, que na empresa
Presidia aos Tupis, como princesa.

LII

A seu lado Diogo, e Sousa armado,
À Câmara preside da Bahia;
O clero santo a Deus tendo invocado,
Ouviu-se dos clarins doce harmonia.
A tropa portuguesa ocupa um lado,
Todo o outro espaço o bárbaro cobria,
E, em meio a cada casta ali presente,
Brilha emplumado a principal potente.

LIII

De varões apostólicos um bando
Tem de inocentes o esquadrão disposto,
Que iam na santa fé disciplinando.
Todos assistem com modesto rosto,
O catecismo em cântico entoando,
No idioma brasílico composto
Do exército, que Inácio à igreja alista,
Para emprender a bárbara conquista.

LIV

Sentiu da pátria o público proveito
O monarca piíssimo que impera,
E estes varões famosos tinha eleito
A instruir o Brasil na fé sincera.
Eles toda a conquista houveram feito,
E o imenso gentio à fé viera,
Se cuidasse fervente o santo zelo,
Sem humano interesse em convertê-lo.

LV

São desta espécie os operários santos,
Que com fadiga dura, intenção reta,
Padecem pela fé trabalhos tantos,
O Nóbrega famoso, o claro Anchieta.
Por meio de perigos e de espantos,
Sem temer do gentio a cruel seta,
Todo o vasto sertão têm penetrado,
E a fé com mil trabalhos propagado.

LVI

Muitos destes ali, velando pios,
Dentro às tocas das arvores ocultos,
Sofrem riscos, trabalhos, fomes, frios,
Sem recear os bárbaros insultos;
Penetram matos, atravessam rios,
Buscando nos terrenos mais incultos
Com imensa fadiga e pio ganho
Esse perdido, mísero rebanho.

LVII

Mais de um verás pela campanha vasta
Derramar pela fé ditoso sangue:
Quem morto às chamas o gentio arrasta,
Quem deixa a seta com o tiro exangue.
Vê-los-ás discorrer de casta em casta,
Onde o rude pagão nas trevas langue,
E ao céu lucrando as miseráveis almas,
Carregados subir de ínclitas palmas.

LVIII

Com corte tanta no sublime Paço,
Que a grã-Casa da Torre se apelida,
Orando Catarina um breve espaço,
O trono ocupa e as atenções convida.
Tinha emplumada a fronte, e o forte braço,
Como insígnia de império conhecida,
Um marraque por cetro sustentava,
Que toda a turba com respeito olhava.

LIX

" Venturosos paisanos, que o céu ama,
(Disse a dama real) , povo disperso,
Que ele ao rebanho seu piedoso chama,
Desde o antigo dilúvio em sombra imerso!
Hoje vos quer livrar da averna chama,
Vendo arrastar-vos do dragão perverso,
Esse Grão-Deus que de uma crua sublime
A pena satisfaz e a culpa oprime.

LX

Da antiga Lusitânia o rei potente,
Acompanhando o sol no giro imenso,
Vai rodeando todo o globo ingente,
Desde o aurífero Tago ao China extenso.
Por ele a fé recebe todo o Oriente,
O mouro cede de pavor suspenso,
E Europa admira pelo mar profundo
Que o seu reino menor subjugue um mundo.

LXI

Deste grande monarca é tanto o império,
Que aonde a própria luz não se caminha,
Nos limites extremos do hemisfério,
O lusitano exército caminha.
A África e Ilhas, o Árabe Cimério,
Duas vezes passando a imensa linha,
Possui tantos povos, que a contá-los
São mais que os portugueses seus vassalos.

LXII

Este rei glorioso foi o eleito,
Por providência da eternal bondade,
A fazer do Brasil um povo aceito
E digno de a gozar na eternidade.
Pudera desta gente o forte peito,
Tendo na Ásia opulenta imensidade,
Estes nossos sertões trocar incultos
Por nações ricas e terrenos cultos.

LXIII

Pudera com as forças, que aqui manda,
Com pouca utilidade, ou mais que fora,
Domar o roxo mar por toda banda,
E o reino todo possuir da aurora.
Mas a piedade faz, com que comanda,
Que, antepondo o Brasil a tudo agora,
Mostre aos homens que o impulso que o domina
É propagar no mundo a fé divina.

LXIV

Generoso pensar! sagrada empresa!
Longe da vã política de Estado,
Que, se a milícia, se o comércio presa,
Não tem da Santa Fé menor cuidado.
Mas o que rege a vasta redondeza,
E a sorte dos impérios tem fixado,
La vira tempo enfim que o zelo pague,
E em ouro o Tago do Brasil se alague.

LXV

Um rei, se não me engana oculto instinto,
Quando o Quarto remir as duas quinas,
Depois do Sexto Afonso e Pedro extinto,
Abrira no sertão famosas minas.
Fará de ouro Lisboa D. João Quinto,
Altas disposições do céu divinas!
Pois no tremor e incêndio, que a ameaça,
Prepara este subsidio à grã-desgraça.

LXVI

Tempo vira que a dama majestosa
Por soberana a Lísia reconheça,
Época ilustre, insigne e venturosa,
Em que tenha uma santa por cabeça.
Descera sobre o reino a paz formosa,
E com a paz fará que a gloria desça,
Atlantes tendo de seu régio Estado
Quatro sábios e um ínclito prelado.

LXVII

E tu, monarca justo, do céu vindo,
Venha-te a palma sobre o empíreo tarda,
E pai da pátria, ao reino presidindo,
Com zelo a antiga fé nos nossos guarda!
Enche o grão-nome, as portas reprimindo
Do monstro Averno, que nos fundos arda;
Que deixe Portugal, que na fé medra,
E Cristo firma sobre a imóvel pedra.

LXVIII

Esta insigne progênie o céu promete,
Brasil agora rude, aos teus vindouros!
O colo humilde entanto ao rei submete,
E oferece-lhe contente os teus tesouros.
E entre tantas nações, que ao jugo mete
À sombra Portugal dos verdes louros,
Sem provares da guerra o furor vário,
Chega ao trono a humilhar-te voluntário.

LXIX

E, se princesa me chamais sublime
Dos vossos principais nascida herdeira,
Se ao grão-Caramuru, que o raio imprime,
Jurastes vassalagem verdadeira,
Ele da sujeição tudo hoje exime,
Cedendo ao trono luso a posse inteira,
E eu do monarca na real pessoa
Cedo todo o direito e entrego a c’roa. "

LXX

Dizendo assim, a dama generosa
Desce do trono e o esplêndido diadema
Entrega ao Sousa, e toma majestosa
Um baixo assento com modéstia extrema.
Pasma o Tupinambá, vendo a formosa,
Nobre Paraguassu, de claro estema,
Que, o seu régio marra que ao Sousa dando,
Despia a pompa do real comando.

LXXI

Logo o Caramuru, na língua e estilo
Dos naturais falando ao chefe novo,
Posto tudo em silêncio para ouvi-lo,
O escudo da Bahia mostra ao povo:
A pomba de Noé, que ao noto asilo
Com ramo de oliveira vem de novo,
Dando a entender a paz, que à crua gente
Com a fé dispensava o rei clemente.

LXXII

" Este é o título (disse) verdadeiro,
Com que ocupa o Brasil nesta anarquia:
O muito alto senhor D. João Terceiro,
A fim que em paz se tenha a turba impia,
Porque ao supremo ser e ente primeiro
Reconheça o sertão, sirva a Bahia ;
E porque propagada a fé se veja
No novo império que conquista à igreja. "

LXXIII

Disse Diogo, e as quinas tremulando,
" Real, Real! com voz clama expressiva,
Por D. João monarca venerando,
Príncipe do Brasil, que fausto viva. "
Responde a turba os vivas replicando,
Com tão alto clamor que o ouvido priva,
É ao rumor dos canhões e das cornetas
Correspondem as bélicas trombetas.

LXXIV

Então, sentado sobre o sólio ingente,
Que já desocupara a dama bela,
Como governador da lusa gente,
Tomé de Sousa cortejado dela,
Toma posse legítima e patente
Da Bahia e sertão, e sem querê-la
Do habitante, que os campos desocupa,
Em nome dos seus reis a terra ocupa.

LXXV

Depois ao povo e ilustre magistrado
Por leis do novo império manifesta
Que seja o nome santo venerado,
Que cesse nos sertões a guerra infesta;
Que o homicídio se veja castigado,
Que o antropófago atroz, que a lei detesta,
Que a embaixada evangélica, que envia,
Se ouça com paz, que se honre o que a anuncia.

LXXVI

Que o indígena seja ali empregado,
E que à sombra das leis tranqüilo esteja ;
Que viva em liberdade conservado,
Sem que oprimido dos colonos seja;
Que às expensas do rei seja educado
O neófito, que abraça a santa igreja,
E que na santa empresa ao missionário
Subministre subsídio o régio erário.

LXXVII

Por fim publica do monarca reto
Em favor de Diogo e Catarina
Um real honorífico decreto,
Que ao seu merecimento honras destina:
E em recompensa do leal afeto,
Com que a coroa a dama lhe consina,
Manda honrar na colônia lusitana
Diogo Álvares Correia, de Viana.