Carta de Álvares de Azevedo à sua irmã (1851)

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(Carta escripta de S. Paulo em 1851)
por Álvares de Azevedo
Texto agrupado posteriormente e publicado em Obras de Manoel Antonio Alvares de Azevedo (1862).
12 de agosto.
Minha irmã,

No dia de teus annos que queres que eu te diga?

Que os annos da virgem são como as manhãs das flores? E que na aurora da vida flores e donzellas, scintillantes do orvalho de Deos, tem mais pureza e perfume?

Não. Dir-te-hei somente uma cousa. É que lá no Rio vale talvez a pena fazer annos. Numa tarde de primavera, e d’esperança, vivendo e sentindo-se viver, é doce por ventura sentir que mais um anno passou como um sonho, mais um anno de saudade e felicidade.

Aqui não accontece assim. O céo tem nevoas, a terra não tem verdura, as tardes não tem perfume. É uma miseria! É para desgostar um homem toda a sua vida de ver ruinas! Tudo aqui parece velho e centenario... até as moças! São insipidas como a mesma velhice!

O dia 12 de Setembro está para chegar. Estou quasi não fasendo annos d’esta vez.

Adeos, minha irmã. A pagina nova da vida que se abrio hoje seja tão feliz como a que se fechou hontem. O dia seja bello como a aurora, — o futuro tão suave como a saudade é doce. Adeos!

É a palavra que de entre as taipas em ruinas da nossa terra te envia


::::teu irmão do C.

Azevedo.