Casos do Romualdo/XVI

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Casos do Romualdo por João Simões Lopes Neto
A morte do Gemada


Ah! descuidos! descuidos! ... Quanta desgraça, quanta perda, quanta tristeza eles causam.., e a gente não se emenda, sempre a cair neles!

Por um descuido tive já um grande desgosto. Foi assim:

Andávamos numa caçada de tatus.

Havia muito.

Para não perder tempo a cavar o buraco até tirar o tatu, e enquanto cuida-se de um, outros escapam-se, eu usava assinalar as tocas: a primeira, a segunda, etc. e assim por diante as que encontrava ocupadas, de forma que num momento garantia seis, oito, dez tatus.

Para assinalar o processo é simplíssimo: achado o tatu, cava-se um pouco, até descobrir-lhe a cauda, e então, com uma embira ou cipó, amarra-se na dita cauda uma estaca, formando cruz. E pronto. Larga-se. O tatu procura logo cavar pra diante, é claro, mas não avança, que a cruz do rabo, ficando atravessada na boca da toca, não deixa.

Percebem?

Experimentem:não nega fogo!

Pois um dia, não tendo à mão uma estaca, e para não perder tempo, amarrei pelo rabo um enorme tatu ao cabresto do meu estimado cavalo baio, o Gemada.

O tal senhor tatu foi cavando..., cavando... entrando terra adentro: o cavalo, muito dócil, sentindo-se puxado, cedendo e foi indo...

E o tatu foi penetrando ... e o cavalo foi cedendo.

A boca da toca era grande; o Gemada, muito manso, meteu o focinho, a cabeça, lá dentro; o tatu puxou mais e o cavalo cedeu, ainda. Quando não pôde ceder mais, e justamente por isso, o tatu fez ainda maior finca-pé. Quem é caçador sabe que força tem no rabo o tatu...

Travou-se por certo luta renhida: o cavalo puxando para fora e o tatu para dentro.

Quando voltei ao lugar encontrei o meu Gemada sufocado, asfixiado, morto, com a cabeça como uma rolha metida no gargalo da toca! ... E ainda perdi o cabresto, que tive de cortar.

Quase um ano depois, vim a pegar aquele mesmíssimo tatu, que conheci porque ainda trazia de arrasto o dito cabresto... apenas com as argolas mui gastas de roçarem pelo chão. Uma cousa de admirar foi o bem atado que ficou; verdade que fiz - como de costume - um nó de soga, a preceito, legítimo nó de Romualdo!