Casos do Romualdo/XXI

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Casos do Romualdo por João Simões Lopes Neto
Algumas miudezas


Por vezes, em tropel, acodem-se as recordações; como sejam porém de cousas ligeiras, casos pequenos, sem maior importância, deslizo por eles. São fatos acontecidos de momento, num repente, e não como outros, em que houve circunstâncias especiais e mais longas. Por exemplo, dentre outros, recordo-me agora destes, que anoto apenas por descargo de consciência: aí vão eles!

A REDE

Havia três dias já, perseguíamos uma manada de cervos galheiros. Éramos vinte e tantos caçadores, com numerosa e especial cachorrada; a caçada ia bem dirigida por um sujeito muito prático. Como cada companheiro tinha de ficar na sua "espera" determinada, esse já se precatava com o aviamento necessário para passar o dia e a noite no mato. Tal havia que levava cama de vento, panela, louça, etc. Eu, que sou inimigo de bagagem pesada, montava em pêlo no meu cavalinho baio, o Gemada, e além das armas apenas levava uma rede, e mesmo assim, pequena, e os jornais da última semana. Na "espera" punha o Gemada à soga, fazia um foguinho e armava a rede nos galhos de qualquer árvore e... pronto! ... dormia regaladamente até o despertador bater.

Pois nessa tal caçada tive de mudar de "espera", por motivo de doença dum dos companheiros. Foi já à boca da noite, O dirigente da batida procurou-me, explicou o caso e pediu-me para ir o quanto antes, porque o lugar aquele, era certo de passagem do cervo, talvez até paradouro seu.

Lá fui; dei com a "espera"; fiz o meu foguinho, amarrei o Gemada, e procurei uma árvore de ramas próprias para armar a rede. Fui de sorte: topei logo com uma galharada limpa, pontuda, cortada de jeito para o caso. Naturalmente fora o companheiro que preparara aquele ótimo cabide... Armei a rede, deitei-me, li os telegramas, soprei a vela e ferrei no sono.

Pela manhã... não lhes conto nada! Qual a minha surpresa, quando acordei-me abaixo de latidos e gritaria de ensurdecer!

Abro os olhos e vejo os companheiros, todos, em perseguição dum enorme cervo, um galheiro soberbíssimo, um cervo... o cervo que me conduzia!

Compreendi tudo, de relance: na véspera, no escuro, eu armara a rede nos galhos do cervo, que muito cansado da correria do dia, dormia a sono solto, e nem me pressentiu.

De madrugada, já refeito, levantou-se e foi andando, andando comigo na rede, dependurada nos chifres...

Quando a cachorrada farejou-o e saiu-lhe, o bicho disparou.., e os caçadores de atrás; porém como ele corria muito, nunca as balas chegaram-lhe a tempo... e foi isso a minha salvação. Então, gritei aos companheiros que esperassem... e pondo-me em pé, dentro da rede, saquei a faca e desnuquei o cervo, que caiu, redondo!

ONÇA ENFREADA

Isto passou-se em Minas Gerais, lá em cima, no Ribeirão das Gralhas.

Eu estava numas grotas, no fundo do mato grosso; tinha ido melar; era um dia muito quente. E tinha ido montado numa mula ruça, de boa marcha e muito mansa.

Cheguei, escolhi o ponto de parada, tirei o freio à mula e atei-a pelo cabresto, para ela ir roendo algum criciúma que por ali havia.

Era a pino do meio-dia...

Deu-me uma lombeira... uma preguiça... que não lhes digo nada! ... Peguei a cochilar.

Dormi. E anoiteceu. Escuro, como breu! E dentro do mato! Então.., só mesmo quem nunca viu o que é noite escura de mato.., o escuro é preto, o preto é negro, o negro e retinto...

De repente, mesmo pesado de sono, senti faro de perigo. Olhei, e vi, na minha frente, por entre as árvores, um grupo de bugres, ferozes, já de arco entesado e flecha pronta, fazendo pontaria sobre mim! ... Se o luar não fosse tão claro ainda, talvez eu pudesse esconder-me. Disfarcei, e fazendo que os não via, para os não alarmar, fui-me esgueirando para trás, recuando, devagarinho, de mansinho recuando..

Com o intento - é claro! - de cavalgar a mula e fugir, tive a cautela de passar a mão no freio.., os arreios que ficassem!..

Sempre recuando, e sem despregar os olhos dos bugres, de costas topei com um animal que respirava forte; e sempre sem me voltar, atento aos índios, passei-lhe a cana da rédea no pescoço, enfreei o animal, e quando, pelo tato, senti que estava pronto, montei-o de salto, cravei-lhe as esporas e dirigi a montaria, procurando a beirada do mato.

Nesse instante os bugres descarregaram os arcos ... as flechas ventaram em volta de mim ... mas era tarde - eu já estava fora do alvo!

Gesticulando, estorcendo-se, num alarido medonho, os selvagens saíram-me nas pisadas.

E eu, vá espora!...

Notei então que o animal era habilíssimo dentro do mato: não esbarrava nos troncos, não se enredava nos cipós, não tocava nos espinhos, saltava pedras, pulava buracos...; apenas, por vezes, junto aos paus grossos, entre-parava-se, fazendo menção de querer subir por eles acima ... Então, eu dava de rédea, e vá espora!

Enfim, ao clarear do dia, consegui chegar à aba do mato, sair para a várzea, que era a salvação.

Apeei-me.. acendi o cigarro.,.. e quando puxava a primeira tragada, atirei-me pra trás, apavorado! ...

Eu havia enfreado uma onça!

Montei uma onça, nela havia fugido, na onça atravessei a floresta!

Pode parecer exagero; mas tudo se explica: enquanto eu dormia, a onça havia atacado e devorado a mula; os bugres, que isso viram, preparavam-se para flechar a fera e não a mim, como supus, e daí, a minha precipitação em fugir deles; e de costas e no escuro, julgando - de boa-fé - enfrear a mula, enfreei a onça e montei. Como nesse momento ela estivesse meio engasgada com um pedaço de carniça, não urrou, e, depois de enfreada, não pôde. E vai, como as esporadas doíam-lhe, ela obedeceu, disparou... e tanto, que os bugres perderam-nos de vista.

Mas, como dizia: apeei-me, e vendo a onça, fiquei apavorado: ... e ela, sentindo-se aliviada, também não esperou mais nada: miou de gato, e ganhou o mato!

A VARETA

Naquele tempo, as espingardas eram de carregar pela boca; o cartucho apareceu muito mais tarde. E por serem mais leves e mais baratas, eu só usava varetas de marmeleiro.

Uma vez, por esquecimento, depois de carregar a arma, deixei-lhe dentro a vareta.

De tarde, atirando a um bando de pombas que havia pousado sobre uma laranjeira, no tiro lá se foi a vareta.

As pombas - nem se pergunta, nem se duvida! - caíram todas, a chumbo.

Mas a vareta, essa ficou espetada no tronco da laranjeira e lá deixei-a ficar.

Pois no ano seguinte estava ela toda florida e cheia de botões... e no outro ano já deu marmelos, por sinal que bem graúdos.

A vareta tinha pegado, de enxerto.

O MEU CINTO DE COURO DE ANTA

Cousas fortes... cousas fortes ... Não, certos objetos não devem ser tão fortes que possam por isso vir a ser prejudiciais.

Eu me explico. Tive um cinto de couro de anta. Como se sabe, o couro de anta e um couro quase impossível de quebrar-se: é de uma resistência espantosa, rival do aço estirado.

Meu pai, durante cinqüenta anos, usou umas rédeas de couro de anta, couro por ele esfolado, e já as havia herdado de meu avo, que foi quem caçou o dito bicho, sozinho, e até sem cachorro; e eu usei-as ainda por muitos anos, pelo prazer de serem feitas do couro de um animal que eu mesmo havia morto; foi mesmo com uma dessas rédeas que amarrei o meu baio Gemada, à cauda de um tatu-rosqueira, o que custou a vida ao meu estimado cavalo... Parece-me que já falei nisso.

Pois o meu cinto, tirado do couro daquela mesma anta, e companheiro das rédeas, o meu cinto, digo, por forte, certa vez fez-me passar agonias... Andava em trabalho de campo, lidando com uma tourada de conta, cada bicho bem-criado, forte e bravo, que metia medo! Havia então um certo

touro brasino que era uma verdadeira fera, e foi justamente esse que tomou-me embirrância especial, creio que por causa do pêlo do cavalo que eu montava, que era vermelho. Por várias vezes ele atropelou-me de rijo; não andasse eu tão bem montado e seria colhido.

O tal era de raça franqueira, e tinha umas aspas abertas, quase de braça, cada uma, e grossas, na proporção.

Pois não lhes digo nada!

A última carga foi tão repentina, que eu só senti o perigo quando os companheiros gritaram, assustados. Mal tive tempo de cravar as esporas no baio, que deu dois saltos pra diante, mas - fatalidade! - para tropeçar e cair...

Com a minha calma habitual, saí perfeitamente, de pé; mas o touro vinha.., e no ímpeto em que vinha, com a chifrada armada, mal pude dar um passo à frente...

Ele baixou a cabeça, dando a tremenda marrada, e quando levantou a chifrada, esta resvalou por cima do cavalo e veio colher-me a mim, ainda de costas, certo, perfeitamente certo, entre o cinto e o corpo, nem mais nem menos; e, assim, fiquei dependurado no chifre do touro, tal qual um par de calças, suspenso pela presilha, num cabide... Que situação!

Por causa do peso do corpo, eu não podia desafivelar o cinto, e soltar-me; na posição em que estava, de costas, não podia fazer finca-pé e alçar-me acima do chifre e desengatar-me ...

E o touro disparou para o banhado levando-me dependurado, a dar com as pernas e os braços, como um boneco de cata-vento...

Os companheiros, que estavam de cavalos cansados, não puderam socorrer-me e perderam-me de vista...

O touro meteu-se banhado adentro, para a sua querência.

Curti sofrimentos!

Fiquei sabendo falar de cadeira sobre o micuim, mosquito ruivo e mutuca parda... sobre espinho de gravatá e serrilha de tiririca... sobre camoatim e formiga vermelha!

À custa de muito esforço consegui, movendo-me, torcendo-me, ajeitando-me, consegui firmar um pé no cachaço do touro e melhorar a posição, sentado naquele estranho banco.., sem encosto... Mas sempre foi um meio alívio.

Escureceu; como é fácil de imaginar, tive insônia. Amanheceu; e eu, como é fácil de imaginar, contrariado, por não poder ao menos lavar o rosto e pentear-me, como de costume...

O touro, parece que nem sentia o meu peso; andava, pastava, remoia, mugia, farejava as vacas e acariciava os terneiros - seus filhos, provavelmente - sem mostrar que eu pesasse mais que uma palha seca...

Lá pelas tantas da segunda tarde, encontrou-se ele com outro touro. Berraram, ambos; escarvaram, rodearam um pelo outro, em desafio, e, de repente... - questão de ciumada - de repente, atiraram-se, em briga de morte, como duas feras, que eram.

E eu, de testemunha obrigada!

Ah! meu amigo!

Me vi morto, esmagado, esborrachado entre aquelas duas cabeças duras ... esborachado, estripado, entre aqueles quatro chifres pontudos! ...

Morto! ... Morto! ... Morto! ...

Pois ... não, senhor: justo, justo, quando se chocaram as duas brutas testas numa marrada formidável, capaz de esfarinhar urna pedra.., justo, justo, aí... quando, brrr! ... eu ia morrer, aplainado, chato, quebrou-se o dente da fivela do cinto, que, pois, desprendeu-se, e eu caí ao chão, solto, livre enfim, e disparei rua fora, e quebrei a primeira esquina, sem olhar pra trás! ...

Esquecia-me de dizer que durante esses dias de fome sustentei-me de araçás, que havia muito, no tal banhado.

Pois é... se não fosse o dente da fivela quebrar-se, o meu cinto de couro de anta, por bom demais, matava-me, olé, se matava!...

UM TALHO

Uma, tive-a eu, e creio que outra faca igual não apareça. Deu-ma o compadre Mingote Pereira, infelizmente já falecido; Deus lhe fale n'alma! ...

Era - a faca - de têmpera muito dura, mas depois de agarrar corte, admirável: podia se atirar para o ar um fio de teia de aranha, que antes dele cair a faca cortava-o quantas vezes se quisesse.., tendo boa vista!

Um dia, na casa da sogra do dito meu compadre Mingote houve uma jantarola.

Corria bem a festa, quando apareceu uma travessa com - grande como um galo -uma bela galinha assada, de forno. E como naquele tempo era de uso, um dos convidados, mais habilitado, tinha de trinchar a ave.

A sogra convidou o Mingote.

O meu compadre levantou-se, colocou na sua frente a galinha, e armado do garfo grande e do trinchante afiado, começou a trabalhar.

E a querer espetar o garfo.., a querer fincar a galinha... deu-lhe uns pontaços com o trinchante, para abrir brecha onde cravasse o tridente.

Mas, por seguro, a galinha era velha, como a sogra do compadre, e dura e lisa como chifre!

O compadre Mingote, já vermelho, tremendo no nariz, lidava, lidava.., e não espetava!

A sogra, de lá da cabeceira, resmungou:

Oh! homem! ... nada?

O compadre respondeu: Já vai! ... E firmou o garfo a todo o muque, como quem crava uma estaca, a pulso!

Mas a galinha agüentou a estocada; e conforme o garfo bateu-lhe no costado... escorregou, e furou o prato e cravou-se na tábua da mesa e espirrou molho gordo, como chuva...; a galinha saltou pra diante, como bala, e derrubando copos, garrafas e compoteiras, bateu sobre o ombro da sogra do Mingote, ricochetou para a parede, sobre o relógio, cujo maquinismo achatou; daí para a janela, quebrando-lhe os caixilhos e caindo no pátio, derreou uma porca macau, matando-lhe três leitões; virou um gongá onde estava uma perua, no choco, afinal foi bater no tampo da pipa d'água, que aluiu!

Se fosse gente, era o caso de dizer-se: vá ser dura pra o inferno!

Imagine-se o alvoroto! ... Um criado trouxe novamente a galinha, não para ser comida, é claro, mas para ser vista, admirada, examinada.

Foi então que a sogra do Mingote censurou-o por não se haver servido da minha faca; e gabou-a. Duvidaram; então, para dar a todos uma pequena prova, ajeitei a galinha e a meio dela descarreguei um golpe.

Que talho! Foi como em manteiga: cortei a meio a galinha, o prato, a mesa; atorei pelo joelho a perna do vizinho da esquerda, o pé da cadeira onde ele sentava-se, a tábua do assoalho e o barrote!

O talho não foi adiante por falta de braço!

Que talho!



Findava aqui o calhamaço de que a princípio se falou, quando disse que o recebi em certa hora de pleno dezembro, por véspera de Natal, quando eu estava, desesperado, a abanar mosquitos, etc. etc. Findava aqui, no caso deste talho. Apenas, ao canto da página, a lápis, havia ainda uns dizeres que custei a decifrar, e que afinal eram estes: o 2º volume será o dos "Sonhos do Romualdo".

Durmamos, pois, e vamos sonhar também...