Castello bárbaro

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Castello bárbaro
por António Feijó


A Josè d'Azevedo Castello Branco

Um a um sobrepondo os tormentos mais altos,
Da minha propria dor fiz uma Fortaleza,
Que podesse afrontar tempestades e assaltos,
Imponente de rude e bárbara grandeza.

Desde então, sem receio, a tudo invulneravel,
Depondo na panóplia o escudo e as armas rôtas,
Vivo occulto no meu torreão inexpugnavel,
Recompondo em annaes combates e derrotas.

Nenhum grito ou rumor attinge essa eminencia;
Nenhum desejo vão escala essas alturas,
Onde, antigas visões, andam como em demencia
Do passado a evocar saudades e amarguras.

Comtudo, alguma vez, se uma illusão funesta
Um echo juvenil faz em mim despertar,
Como som matinal de campanário em festa
Que no meu coração vem de longe vibrar,

Então,--luz sem egual que tudo em tôrno abrasa--
A Ventura de novo aos olhos meus se ostenta,
— Raio de sol suspenso a tremer numa asa
Que um instante pairou sobranceira á tormenta.

E atrás d'essa chimera ou sonho allucinante,
Vou, numa ancia de goso, um momento arrastado,
Como o condor lançando o vôo fulminante
Á presa que entreviu do píncaro escarpado.

Mas a luz, que brilhou, logo se esconde e apaga,
E eu regresso trazendo ao meu refugio, exangue,
Mais uma nova dor, mais uma nova chaga,
Rutilante de vivo e generoso sangue.

E outra vez, d'essa altura em taes ruinas erguida,
Sem sobresaltos vejo os meus dias correr,
De saudades velando o entardecer da Vida,
Que o ter-se sido môço é a dor do envelhecer.

Mas occulto no meu solitário reducto,
Ao abrigo de toda a investida ou traição,
Se de fóra não vêm tempestades nem lucto,
O meu proprio soffrer enche o meu coração.

E assim, na sua noite o espirito submerso,
Sem que uma estrella nova aos olhos meus desponte,
Vou, com o pensamento em mil vôos disperso,
De saudade em saudade alargando o horizonte.

E tudo, mesmo a Dor, nessa amplidão se esfuma,
Como incendio a esbater-se em longinquo arrebol...
Toda a nuvem, de perto, é um farrapo de bruma,
A distancia, parece oiro e púrpura, ao sol!

Sob o contorno ideal que o espelho empresta á imagem,
Projectados ao longe, os tormentos e as dores
Surgem aos olhos meus na ilusão da miragem,
Como ruinas de sonho em que brotaram flores...

Ruinas que uma luz tão serena illumina
Como se as envolvesse um luar de esquecimento;
E é tão doce a illusão, que nessa hora divina,
Ajoelho a balbuciar: Morte! espera um momento!...