Cinismo

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Cinismo
por Humberto de Campos
Conto publicado em Grãos de Mostarda


O pessoal do "pic-nic" sacudia-se todo, como frascos de remédio, ao compasso descompassado do "shimmy", quando a Carlotinha e o João Benigno, iludindo a vigilância da mãe da rapariga, enveredaram pelo mato, em passo de fugitivos. E dentro de poucos minuto chegavam à sombra da mangueira imensa, perdida no matagal, de onde não se via ninguém mas onde chegavam, ainda, os uivos da orquestra esquentada pela cerveja abundante.

Há muitas semanas que os dois se conheciam e, mesmo, se desejavam. Todas as tardes, ao deixar o ministério onde trabalhava, o rapaz ficava pela cidade até as sete horas; para acompanhar o bonde, e, no bonde, até à casa, aquela graciosa "vendeuse" do grande estabelecimento de modas. Um dia, em conversa, ela lhe falara naquele "pic-nic, no Alto da Boa-Vista, como para dizer-lhe que fosse também. E ali estavam desde as oito da manhã, a dançar seguidamente, a exercitar-se com o contato intenso de dois corpos moços, com a música ardente e sensual e, de meia em meia hora, com cálices de licor ou de vinho. Em certo momento, os olhos em fogo, a face vermelha, as bocas semi-abertas num beijo que a ocasião não permitia, o moço propôs, apertando-a mais de encontro ao peito:

— Vamos sair daqui?

— Vamos! — concordou a "vendeuse", num arrepio.

E um instante depois, esgueiravam-se por aquela picada de mataria, indo ter àquele lugar selvagem, tão propício aos namorados arrastados pelo desejo.

Dizer-se qual, dos dois, se atirara primeiro aos braços do outro, juntando a boca sequiosa à outra boca que a esperava, seria difícil. O que não resta dúvida, porém, é que foi o João Benigno quem curvou sobre o leito de folhas secas o busto virgem da namorada, enquanto os pássaros se aquietavam, discretos, para melhor lhes dar a idéia de que se achavam, os dois, em uma alcova nupcial. Ao fim de um quarto de hora, pálido, as pernas inseguras, João Benigno suspendia pelas mãos o corpo trêmulo da namorada. Ao pôr-se de pé, muito branca, os olhos espantados, como quem desperta de um sonho ao mesmo tempo delicioso e terrível, Carlotinha fitou-o, horrorizada.

— João, meu filho, que foi que nós fizemos?!... — gemeu.

Cínico por natureza e, em parte, por embriagues, o rapaz sorriu, canalha:

— Uái! Tu pensas que eu sou profeta? Quem sabe lá?... Enfim...

E pondo o pé sobre um tronco de árvore, para abotoar o sapato:

— Eu, por mim, acho que foi menina!