Circulo vicioso

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Poesias Completas
por Machado de Assis
Circulo vicioso
Edição de referência: Rio de Janeiro: Livraria Garnier-Irmãos, 1902. página 292.
Publicado originalmente em 1901. Ao organizar este volume de suas Poesias Completas, Machado de Assis reuniu os livros Crisálidas (1864), Falenas (1870) e Americanas (1875), expurgando-os de algumas poesias e acrescentando um novo conjunto, intitulado Ocidentais.

CIRCULO VICIOSO


Bailando no ar, gemia inquieto vaga-lume:
— «Quem me dera que fosse aquella loura estrella,
Que arde no eterno azul, como uma eterna vela!»
Mas a estrella, fitando a lua, com ciume:

— «Pudesse eu copiar o transparente lume,
Que, da grega columna á gothica janella,
Contemplou, suspirosa, a fronte amada e bella!»
Mas a lua, fitando o sol, com azedume:

— «Misera! tivesse eu aquella enorme, aquella
Claridade immortal, que toda a luz resume!»
Mas o sol, inclinando a rutila capella:

— «Pesa-me esta brilhante aureola de nume...
Enfara-me esta azul e desmedida umbella...
Por que não nasci eu um simples vagalume?»