Clodia

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Clodia
por Machado de Assis
Pertence a coletânea Ocidentais, publicada em Poesias Completas (1901), páginas 344-351.

CLODIA


Era Clodia a vergontea illustre e rara
De uma familia antiga. Tez morena,
Como a casca do pecego, deixava
Transparecer o sangue e a juventude.
Era a romana ardente e imperiosa
Que os écos fatigou de Roma inteira
Co’a narração das longas aventuras.
Nunca mais gentil fronte o sol da Italia
Amoroso beijou, nem mais gracioso
Corpo envolveram tunicas de Tyro.
Sombrios, como a morte, os olhos eram.
A vermelha botina em si guardava
Breve, divino pé. Humida boca,
Como a rosa que os zephyros convida,
Os beijos convidava. Era o modelo
Da luxuosa Lamia, — aquella moça

Que o marido esqueceu, e amou sem pejo
O musico Pollião. De mais, fazia
A illustre Clodia trabalhados versos;
A cabeça curvava pensativa
Sobre as tabellas núas; invocava
Do classico Parnaso as musas bellas,
E, se não mente linguaruda fama,
Davam-lhe inspiração vadias musas.

O ideal da matrona austera e fria,
Caseira e nada mais, esse acabava.
Bem hajas tu, patricia desligada
De preconceitos vãos, tu que presides
Ao festim dos rapazes, tu que estendes
Sobre verdes coxins airosas fórmas,
Enquanto o esposo, consultando os dados,
Perde risonho válidos sestereios...
E tu, viuva misera, deixada
Na flôr dos anos, merencoria e triste,
Que seria de ti, se o gozo e o luxo
Não te alegrassem a alma? Cedo esquece
A memoria de um obito. E bem hajas,
Discreto esposo, que morreste a tempo.
Perdes, bem sei, dos teus rivaes sem conta
Os custosos presentes, as ceiatas,
Os jantares opiparos. Comtudo,
Não verás cheia a casa de creanças
Loiras obras de artífices extranhos.

Baias recebe a celebrada moça
Entre festins e jubilos. Faltava

Ao pomposo jardim das lacias flôres
Esta rosa de Pœstum. Chega; é ella,
É ella, a amavel dona. O céu ostenta
A larga face azul, que o sol no occaso
Co’os frouxos raios desmaiado tinge.
Terno e brando abre o mar o espumeo seio;
Molles respiram virações do golpho.
Clodia chega. Tremei, moças amadas;
Ovelhinhas dos placidos idylios,
Roma vos manda esta faminta loba.
Prendei, prendei com vínculos de ferro,
Os voluveis amantes, que os não veja
Esta formosa Páris. Inventai-lhes
Um philtro protector, um philtro ardente,
Que o fogo leve aos corações rendidos,
E aos vossos pés eternamente os prenda;
Clodia... Mas, quem pudera, a frio e a salvo,
Um requebro affrontar daquelles olhos
Ver-lhe o turgido seio, as mãos, o talhe,
O andar, a voz, ficar marmore frio
Ante as supplices graças? Menor pasmo
Fôra, se ao gladiador, em pleno circo,
A panthera africana os pés lambesse,
Ou se, á cauda de indomito cavallo,
Ovantes hostes arrastassem Cesar.

Coroados de rosas os convivas
Entram. Trajam com graça vestes novas
Tafues de Italia, finos e galhardos
Patricios da republica expirante,
E madamas faceiras. Vem entre elles

Celio, a flôr dos vadios, nobre moço,
E opulento, o que é mais. Ambicioso
Quer triumphar na classica tribuna
E honras aspira até do consulado.
Mais custoso lavor não vestem damas,
Nem aroma melhor do seio exhalam.
Tem na altivez do olhar sincero orgulho,
E certo que o merece. Entre os rapazes
Que á noite correm solitarias ruas,
Ou nos jardins de Roma o luxo ostentam,
Nenhum como elle, com mais ternas falas,
Galanteou, vencendo, as raparigas.

Entra: pregam-se nelle cobiçosos
Olhos que amor venceu, que amor domina,
Olhos fieis ao férvido Catullo.

O poeta estremece. Brando e frio,
O marido de Clodia os olhos lança
Ao mancebo, e um sorriso complacente
A boca lhe abre. Imparcial na luta,
Vença Catullo ou Celio, ou vençam ambos.
Não se lhe oppõe o dono: o aresto acceita.

Vistes já como as ondas tumultuosas,
Uma após outra, vem morrer á praia,
E mal se rompe o espumeo seio áquella.
Já esta corre e expira? Tal no peito
Da calorosa Lesbia nascem, morrem
As voluveis paixões. Vestal do crime,
Dos amores vigia a chamma eterna,

Não a deixa apagar; prompto lhe lança
Oleo com que a alimente. Enrubescido
De ternura e desejo o rosto volve
Ao mancebo gentil. Baldado empenho!
Indifferente aos magicos encantos,
Celio contempla a moça. Olhar mais frio,
Ninguem deitou jamais a graças tantas.
Ella insiste; ele foge-lhe. Vexada,
A moça inclina languida a cabeça...
Tu nada vês, desapegado esposo,
Mas o amante vê tudo.

                        Clodia arranca
Uma rosa da fronte, e as folhas deita
Na taça que enche generoso vinho.
«Celio, um brinde aos amores!» diz, e entregalh’a.
O cortejado moço os olhos lança,
Não a Clodia, que a taça lhe offerece,
Mas a outra não menos afamada,
Dama de igual prosapia e eguaes campanhas,
E taça igual lhe acceita. Affronta é esta
Que á moça faz subir o sangue ás faces,
Aquelle sangue antigo, e raro, e illustre,
Que atravessou purissimo e sem mescla
A corrente dos tempos... Uma Clodia!
Tamanha injuria! Ai, não! mais que a vaidade,
Mais que o orgulho de raça, o que te peza,
O que te faz doer, viciosa dama,
É ver que um rival merece o zelo
Deste pimpão de amores e aventuras.
Pega na taça o nescio esposo e bebe,

Com o vinho, a vergonha. Sombra triste,
Sombra de occultas e profundas magoas,
Tolda a fronte ao poeta.

                        Os mais, alegres,
Vão ruminando a saborosa ceia;
Circúla o dito equivoco e chistoso,
Comentam-se os decretos do senado,
O molho mais da moda, os versos ultimos
De Catullo, os leões mandados de Africa
E as victorias de Cesar. O epigramma
Rasga a pelle ao caudilho triumphante;
Chama-lhe este: «O larapio endividado»,
Aquelle: «Venus calva», outro: «O bithynio...»
Opposição de ceias e jantares,
Que a marcha não impede ao crime e á gloria.
Sem liteira, nem lybicos escravos,
Clodia vae consultar armenio aruspice.
Quer saber se hade Celio amal-a um dia
Ou desprezal-a sempre. O armenio estava
Meditabundo, á luz escassa e incerta
De uma candeia etrusca; aos ombros delle
Decrepita coruja os olhos abre.
«Velho, aqui tens dinheiro (a moça fala),
Se á tua inspiração é dado agora
Adivinhar as cousas do futuro,
Conta-me...» O resto expõe. Ergue-se o velho
Subito. Os olhos lança cobiçosos
Á fulgente moeda. — «Saber queres
Se te hade amar esse mancebo esquivo?»

 — «Sim.» — Cochilava a um canto descuidada
A avezinha de Venus, branca pomba.
Lança mão della o aruspice, e de um golpe
Das entranhas lhe arranca o sangue e a vida.
Olhos fitos no velho a moça aguarda
A sentença da sorte; empallidece
Ou ri, conforme do ancião no rosto
Ocultas impressões vem debuxar-se.
«Bem haja Venus! a victoria é tua!
O coração da victima palpita
Inda que morto já...»

                        Não eram ditas
Estas palavras, entra um vulto... É elle?
És tu, cioso avante!

                        A voz lhes falta
Aos dous, contemplam-se ambos, interrogam-se;
Rompe afinal o lugubre silencio...

Quando o vate acabou, tinha nos braços
A namorada moça. Lacrimosa,
Tudo confessa. Tudo lhe perdôa
O desvairado amante. «Nuvem leve
Isto foi; deixa lá memorias tristes,
Erros que te perdoo; amemos, Lesbia;
A vida é nossa; é nossa a juventude.»
«Oh! tu és bom!» — «Não sei; amo e mais nada.
Foge o mal donde amor plantou seus lares.
Amar é ser do céu.» Supplices olhos

Que a dor humedecera e que humedecem
Lagrimas de ternura, os olhos buscam
Do poeta; um sorriso lhes responde,
E um beijo sella esta alliança nova.

Quem jamais construiu solida torre
Sobre a arêa voluvel? Poucos dias
Decorreram; viçosas esperanças
Subito renascidas, folha a folha,
Alastraram a terra. Ingrata e fria,
Lesbia esqueceu Catullo. Outro lhe pede
Premio á recente, abrasadora chamma;
Faz-se agora importuno o que era esquivo.
Victoria é della; o arúspice acertára.