Como e porque sou romancista/II

Wikisource, a biblioteca livre
< Como e porque sou romancista
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Como e porque sou romancista por José de Alencar
Capítulo II

No ano de 1840, freqüentava eu o Colégio de Instrução Elementar, estabelecido à Rua do Lavradio, nº 17, e dirigido pelo Sr. Januário Matheus Ferreira, a cuja memória eu tributo a maior veneração.

Depois daquele que é para nós meninos a encarnação de Deus e o nosso humano Criador, foi esse o primeiro homem que me incutiu respeito, em quem acatei o símbolo da autoridade.

Quando me recolho da labutação diária com o espírito mais desprendido das preocupações do presente, e sucede-me ao passar pela Rua do Lavradio pôr os olhos na tabuleta do colégio, que ainda lá está na sacada do nº.17, mas com diversa designação; transporto-me insensivelmente àquele tempo, em que de fraque e boné, com os livros sobraçados, eu esperava ali na calçada fronteira o toque da sineta que anunciava a abertura das aulas.

Toda a minha vida colegial se desenha no espírito com tão vivas cores, que parecem frescas de ontem, e todavia mais de trinta anos já lhes pairaram sobre. Vejo o enxame dos meninos, alvoriçando na loja, que servia de saguão; assisto aos manejos da cabala para a próxima eleição do monitor geral; ouço o tropel do bando que sobe as escadas, e se dispersa no vasto salão, onde cada um busca o seu banco numerado.

Mas o que sobretudo assoma nessa tela é o vulto grave de Januário Mateus Ferreira, como eu o via passeando diante da classe, com um livro na mão e a cabeça reclinada pelo hábito da reflexão.

Usava ele de sapatos rinchadores; nenhum dos alunos do seu colégio ouvia de longe aquele som particular, na volta de um corredor, que não sentisse um involuntário sobressalto.

Januário era talvez ríspido e severo em demasia; orem nenhum professor o excedeu no zelo e entusiasmo com que desempenhava o seu árduo ministério. Identificava-se com o discípulo; transmitia-lhe suas emoções e tinha o dom de criar no coração infantil os mais nobres estímulos, educando o espírito com a emulação escolástica para os grandes certames da inteligência.

Dividia-se o diretor pôr todas as classes, embora tivesse cada uma seu professor especial; desse modo andava sempre ao corrente do aproveitamento de seus alunos, e trazia os mestres como os discípulos em constante inspeção. Quando, nesse revezamento de lições, que ele de propósito salteava, acontecia achar atrasada alguma classe, demorava-se com ela dias e semanas, até que obtinha adianta-la e só então a restituía ao respectivo professor.

Meado o ano, porém, o melhor dos cuidados do diretor voltava-se para as últimas classes, que ele se esmerava em preparar para os exames.

Eram estes dias de gala e de honra para o colégio, visitado pôr quanto havia na Corte de ilustre em política e letras.

Pertencia eu à sexta classe, e havia conquistado a frente da mesma, não pôr superioridade intelectual, sim pôr mais assídua aplicação e maior desejo de aprender.

Januário exultava a cada uma de minhas vitórias, como se fora ele próprio que estivesse no banco dos alunos, a disputar-lhes o lugar, em vez de achar-se como professor dirigindo os seus discípulos.

Rara vez sentava-se o diretor; o mais do tempo levava a andar de um a outro lado da sala em passo moderado. Parecia inteiramente distraído da classe, para a qual nem volvia os olhos; e todavia nada lhe escapava. O aparente descuido punha em prova a atenção incessante que ele exigia dos alunos, e da qual sobretudo confiava a educação da inteligência.

Uma tarde ao findar a aula, houve pelo meio da classe um erro. – Adiante, disse Januário, sem altear a voz, nem tirar os olhos do livro. Não recebendo resposta ao cabo de meio minuto, repetiu a palavra, e assim de seguida mais seis vezes.

Calculando pelo número dos alunos, estava na mente de que só à sétima vez, depois de chegar ao fim da classe é que me tocava responder como o primeiro na ordem da colocação.

Mas um menino dos últimos lugares tinha saído poucos momentos antes com licença, e escapava-me esta circunstância. Assim, quando sorrindo eu esperava a palavra do professor para dar o quinau, e ao ouvir o sétimo adiante, perfilei-me no impulso de responder; um olhar de Januário gelou-me a voz nos lábios.

Compreendi; tanto mais quanto o menino ausente voltava a tomar seu lugar. Não me animei a reclamar; porém creio que em minha fisionomia se estampou, com a sinceridade e a energia da infância, o confrangimento de minha alma.

Meu imediato e êmulo, que me foi depois amigo e colega de ano em São Paulo, era o Aguiarzinho (Dr. Antônio Nunes de Aguiar), filho do distinto general do mesmo nome, bela inteligência e nobre coração ceifados em flor, quando o mundo lhe abria de par em par as suas portas de ouro e pórfiro.

Ansioso aguardava ele a ocasião de se desforrar da partida que lhe eu havia ganho, depois de uma luta porfiada – Todavia não lhe acudiu a resposta de pronto; e passaria a sua vez, se o diretor não lhe deixasse tempo bastante para maior esforço do que fora dado aos outros e sobretudo a mim – Afinal ocorreu-lhe a resposta, e eu com o coração transido, cedi ao meu vencedor o lugar da honra que tinha conquistado de grau em grau, e conseguia sustentar havia mais de dois meses.

Nos trinta anos vividos desde então, muita vez fui esbulhado do fruto de meu trabalho pela mediocridade agaloada; nunca senti senão o desprezo que merecem tais pirraças da fortuna, despeitada contra aqueles que não a incensam.

Naquele momento, porém, vendo perdido o prêmio de um estudo assíduo, e mais pôr surpresa, do que eu traguei silenciosamente, para não abater-me ante a adversidade.

Nossa classe trabalhava em uma varanda ao rés do chão, cercada pelo arvoredo do quintal.

Quando, pouco antes da Ave-Maria, a sineta dava sinal da hora de encerrar as aulas, Januário fechava o livro; e com o tom breve do comando ordenava uma espécie de manobra que os alunos executavam com exatidão militar.

Pôr causa da distância da varanda, era quando todo o colégio já estava reunido no grande salão e os meninos em seus assentos numerados, que entrava em passo de marcha a sexta classe, a cuja frente vinha eu, o mais pirralho e enfezadinho da turma, em que o geral se avantajava na estatura, fazendo eu assim as vezes de um ponto.

A constância com que me conservava à frente da classe no meio das alterações que em outras se davam todos os dias, causava sensação no povo colegial; faziam-se apostas de lápis e canetas; e todos os olhos se voltavam para ver se o caturrinha do Alencar 2º (era o meu apelido colegial) tinha afinal descido de monitor de classe.

O general derrotado a quem a sua ventura reservava a humilhação de assistir à festa da vitória, jungido ao carro triunfal de seu êmulo, não sofria talvez a dor que eu então curti, só com a idéia de entrar no salão, rebaixado de meu título de monitor, e rechaçado para o segundo lugar.

Se ao menos se tivesse dado o fato no começo da lição, restava-me a esperança de com algum esforço recuperar o meu posto; mas pôr cúmulo da infelicidade sobreviera o meu desastre justamente nos últimos momentos, quando a hora estava a findar.

Foi no meio dessas reflexões que tocou a sineta, e as suas badaladas ressoaram em minha alma como o dobre de uma campa.

Mas Januário que era acerca de disciplina colegial de uma pontualidade militar, não deu pelo aviso e amiudou as perguntas, percorrendo apressadamente a classe. Poucos minutos depois eu recobrava meu lugar, e erguia-me trêmulo para tomar a cabeça do banco.

O júbilo, que expandiu a fisionomia sempre carregada do diretor, eu próprio não o tive maior, com o abalo que sofri. Ele não se pôde conter e abraçou-me diante da classe.

Naturalmente a questão proposta e cuja solução deu-me a vitória, era difícil; e pôr isso atribuía-me ele o mérito, que não provinha talvez senão da sorte, para não dizer do acaso.

Momentos depois entrava eu pelo salão à frente da classe, onde me conservei até o exame.