Contos Populares Portuguezes/Historia do grão-de-milho

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Contos Populares Portuguezes por Adolfo Coelho
Historia do grão-de-milho


XXXIII


HISTORIA DO GRÃO-DE-MILHO


Era uma vez uns casados e não tinham filhos. A mulher tanto pediu a Nossa Senhora que lhe désse um filho ainda que fosse do tamanho d'um greiro de milho, que ao fim de nove mezes ella pariu um filho, mas tão pequeno, tão pequeno que era mesmo do tamanho d'um greiro de milho. Foi-se passando tempo e o pequeno não crescia nada, de sorte que ficou sempre do mesmo tamanho.

O pae era lavrador e, quando andava a trabalhar no campo, era o Grão-de-milho que lhe ia levar o jantar n'uma cesta; mas como era tão pequeno ninguem via o que fazia correr aquella cesta pela rua abaixo. O pae recommendava-lhe que não se chegasse para o pé dos bois; mas uma vez que elle tinha ido levar o jantar ao pae, a brincar trepou para cima de uma folha de milho e um dos bois, pensando que era um greiro de milho, lambeu-o com a lingua. O pae quando quiz voltar para casa por mais que o procurou não deu com elle, mas tanto chamou que por fim ouviu responder que o boi o tinha comido e estava dentro da tripa. O pae ficou muito afflicto e matou logo ali o boi e começou a procural-o nas tripas, mas por mais que procurou não o encontrou até que deixou ficar tripas e tudo. De noite um lobo, attrahido pelo cheiro da carne, veiu e comeu as tripas do boi, e deitou a fugir. O lobo teve umas grandes dores de barriga e o Grão-de-milho começou a gritar-lhe: «C… aí, c… aí!» Mas o lobo ouvindo isto teve tanto medo que mais fugia, e não podia obrar. O Grão-de-milho continuava a gritar. «C… aí, c… aì!» até que o lobo tão atrapalhado se viu que fez as suas necessidades.

O Grão de Milho, logo que saiu para fóra, lavou-se muito bem lavado n'uma pocinha que ali estava e foi por ali fóra. No meio do caminho encontrou uns almocreves que levavam os machos carregados de dinheiro e disse-lhes......[1]

De repente saltam uns ladrões, matam os almocreves e lavam os machos com o dinheiro para uma casa que havia n'uns pinheiraes. O Grão-de-milho, como ia mettido n'uns alforges, foi tambem sem ser pescado. Os ladrões despejaram o dinheiro em cima de uma grande meza e começaram a contal-o. O Grão-de-milho poz-se debaixo da meza e começou a gritar: «Quem dá dé-reis; quem dá dé-reis.» Os ladrões, assim que ouviram isto, tiveram tanto medo que deitaram a fugir. Então o Grão-de-milho ensacou o dinheiro, pôl-o em cima dos machos e foi para casa.

Quando lá chegou era ainda de noite e bateu á porta. O pae perguntou: «Quem esta aí?» e elle respondeu: «Sou eu meu pae; abra depressa.» O pae veiu logo abrir a porta e o Grão-de-milho contou-lhe então tudo, entregou-lhe os machos e o dinheiro e o lavrador que era pobre ficou muito rico.


(Bragança.)



  1. A pessoa a quem devo este conto não se recorda do que disse Grão-de-milho e do que se devia seguir immediatamente.