Contos Populares Portuguezes/O creado do estrujeitante

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Contos Populares Portuguezes por Adolfo Coelho
O creado do estrujeitante


XV
O CREADO DO ESTRUJEITANTE[1]

Era uma vez um rapaz que foi procurar amo. Chegou a uma casa onde lhe perguntaram se elle sabia lêr e tendo elle respondido que sim disseram-lhe que o não queriam. Foi a outra casa e tendo-lhe feito a mesma pergunta, respondeu que não e lá acceitaram-n’o. O amo d’elle era um estrujeitante; de noite escrevia e o rapaz ia vendo o que elle escrevia sem que elle o suspeitasse.

Foi o amo uma occasião para fóra de casa e o rapaz leu-lhe todos os livros magicos por onde aprendeu a estrujeitar e foi depois d’isso para casa dos paes. Quando a mãe o viu, disse-lhe: — «Ai filho, tu vens tão magro!» — «Deixe-se estar, que eu ainda hei de engordar. Eu vou fazer-me em galgo e o meu pae leva-me á feira preso por uma fita, mas não venda a fita; traga-a, senão vende-me a mim.»

Foi á feira feito em galgo; juntaram-se muitos caçadores e compraram o galgo; queriam tambem comprar a fita, mas o pae não a vendeu e metteu-a no bolso.

Chegaram os caçadores, que compraram o galgo, a um monte e appareceu-lhe uma lebre; soltaram-lhe os cães todos mais o galgo; o galgo passou por um oiteirinho, desapparecendo da vista dos caçadores, fez-se em homem e seguiu para os caçadores, que lhe perguntaram: — «Ó homenzinho! viu passar por aqui um galgo?» — «Vi; vae ahi adeante e tem pernas de prata.» — «Custou-nos tantas moedas.» — «Faça a tenção que ellas foram como dadas.»

Chegou o rapaz a casa e disse-lhe o pae: — «Ó filhinho tu tardaste tanto!» — «Escuite, meu pae, que eu já andei á lebre. Ámanhã ha outra feira e eu hei de ir lá fingido n’um cavallo; venda o cavallo caro, mas não venda o freio, senão vende-me a mim.»

Foi o pae á feira; mas lá estava o amo que conheceu o rapaz no cavallo e o comprou por todo o dinheiro, teimando em levar o freio; juntou-se muita gente que ateimava que elle tinha comprado freio e cavallo, de modo que o pae não teve remedio senão deixar ir tambem o freio.

O amo entregou o cavallo a um moço e, apontando-lhe para uma certa fonte disse-lhe: — «Tu não me deixes chegar o cavallo áquella fonte, senão eu mato-te.»

Não passava ninguem ao pé que não gabasse o cavallo; o cavallo queria beber, saltava muito e todos pediam ao rapaz que deixasse ir beber tão lindo animal. O cavallo assim que apanhou o rapaz descuidado saltou por cima d’elle e foi para a fonte e fingiu-se n’um peixe e metteu-se por a fonte dentro. Chegou o amo e não vendo o cavallo ficou muito zangado; ralhou muito com o rapaz; ajuntou-se gente que disse: — «Ele não teve culpa, porque o cavallo saltou por cima d’elle, fez-se n’um peixe e metteu-se por a fonte dentro.»

N’isto o amo fingiu-se n’uma lontra; metteu-se por a fonte dentro para comer o peixe; o peixe fingiu-se n’uma pomba e fugiu; a lontra fingiu-se n’um milhafre para comer a pomba; quando o milhafre ia quasi a apanhar a pomba ella viu umas senhoras n’uma janella, fez-se n’uma maçã e caiu na aba[2] d’uma das senhoras. O milhafre fez-se em homem e começou a pedir a maçã ás senhoras. Ellas disseram-lhe que não lh’a davam, que aquella maçã tinha caido do céo. Então o homem disse para ellas: — «Oh minhas senhoras, deem-me essa maçã, que eu morro se não m’a derem.» E poz-se a chorar e tanto pediu que ellas iam a dar-lh’a; n’isto a maçã fingiu-se em painço e caiu-lhe d’entre as mãos. O estrujeitante fingiu-se n’uma gallinha de pintos para comer o painço e o painço juntou-se muito juntinho e formou-se n’uma raposa, que comeu a gallinha e os pintos. Depois d’isto fez-se em homem e foi para casa. Disse-lhe o pae: — «Ai filho, que demoraste tanto!» — «Olhe, meu pae, você podia ficar rico, mas mil forcas que eu tivesse poucas eram para o enforcar, porque você pela sua fraqueza de vender o freio foi a causa de eu vêr a morte muitas vezes ao pé de mim.»

(Ourilhe)

Notas[editar]

  1. Estrujeitante por estrejeitante (de es e trejeitar) é um nome popular no Minho dos magicos e principalmente dos que fazem transformações, visualidades; estrejeitar no sentido de fazer tours de passe-passe encontra-se já em D. Duarte, Leal Conselheiro, c. 37: «E a estrollogia, nygrumancia, geomancia, e outras semelhantes sciencias, artes, sprimentos e sotilezas, de modo de trejeitar per sotilleza das mãos ou natural maneira não costumada, etc.»
  2. Regaço