Contos Populares Portuguezes/O homem que busca estremecer

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
XXXVII


O HOMEM QUE BUSCA ESTREMECER


Era um homem rico e tinha um filho que nunca estremeceu com nada. Dava-lhe o signo d'elle d'ir passar muitas terras e não seria timorato, nunca teria medo a cousa nenhuma. Disse para o pae: «Meu pae dê-me o que me pertence, que eu cá vou viajar.» Deu-lhe moço e cavallo e dinheiro; chegou a uma terra; pediu se o acolhiam; disseram-lhe que não; que havia ahi uma casa rica, mas que a familia que não vivia lá; andava lá um diabo estoirando dentro das casas. Elle foi pedir á dona da casa se ella lá o deixava ficar; ella consentiu. Foi e tarde da noite ouviu dizer: «Eu caio.» Disse elle: «Cae para aí!» «Caio junto ou aos bocados?» «Cae aos bocados.» «Depois cahiu uma perna; d'ahi a bocado caiu outra e por fim caiu o resto. O rapaz disse: — «Da parte de Deus te requeiro que te ponhas a pé e digas o que queres.» Uniram-se as partes do corpo e ficou um homem que disse: «Eu sou o dono d'esta casa; possuia uma quinta alheia, que não me pertencia; se a minha mulher não a restituir, vou para o inferno e toda a minha familia; se a restituir, vamos para o ceo.» O rapaz disse-lhe: «Pois eu digo-lh'o e estou certo que ella a ha de restituir.» — «Na adega está tambem um caneco cheio de dinheiro debaixo da cuba grande; vae buscar um ramo d'oliveira para eu o ir lá pôr.» O rapaz foi buscar um ramo d'oliveira e o medo foi o pôr na adega para se saber onde estava enterrado o dinheiro. Ao outro dia o rapaz foi ter com a viuva e disse-lhe todo o transe como se passara e que restituisse a quinta aos pobres a quem ella pertencia, senão vae o seu marido para o inferno e toda a sua familia.» — «Pois, Senhor, fico-lhe muito obrigado.» Foram á adega e acharam no sitio onde estava o ramo d'oliveira o dinheiro enterrado e nos sitios onde o tal sujeitinho tinha deixado as pegadas estava queimado no chão. A senhora disse-lhe: «Ha de demorar-se até fazermos entrega da quinta aos seus donos.» Depois que isso fizeram, disse a senhora ao rapaz: «Eu de mim não tenho que lhe dar, só se quer a minha filha.» Elle disse: O meu signo dá-me d'andar ver muitas terras e eu quero ir solteiro para a minha terra. A filha disse: «Nós não temos nada que dar áquelle senhor; demos-lhe um casal de pombas fechadas n'um gigo.» Elle levou o gigo e caminharam. Chegados a certo sitio disse o creado para o amo:» Oh meu amo! vamos a ver o que vae aqui; elle, o quer que é, bole.» O amo pegou no gigo, vae a desatal-o e as pombas esvoaram-lhe por a cara e elle estremeceu; volta para casa agradecer á tal senhora o obsequio que lhe fez com o presente que lhe quebrou o fado e casou com a filha d'ella e depois voltou para a terra.


(Ourilhe).