Contos Populares Portuguezes/Patranha

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Contos Populares Portuguezes
por Francisco Adolfo Coelho
LVII Patranha
Edição de referência: Lisboa: P. Plantier, 1879. páginas 129-130.
LVII


PATRANHA


Era uma vez um homem, caseiro d'um fidalgo; tinha um filho tolo e outro que estudava para padre; o fidalgo, foi o anno muito secco e o caseiro não tinha as medidas para lhe dar; disse-lhe o fidalgo que se elle lhe dissesse uma mentira do tamanho do Padre-Nosso lhe perdoava as medidas. Respondeu-lhe o caseiro: «Eu tenho um filho que estuda só em mentiras; eu hei de ver se elle tem em casa algum livro em que haja mentira do tamanho do Padre-Nosso.» Foi o caseiro para casa muito triste e perguntou ao filho que estudava para padre se elle sabia alguma mentira do tamanho do Padre-Nosso; respondeu-lhe que nos livros não tinha encontrado mentira tamanha. N'isto o tolo que os ouviu disse ao pae: «Vocês que diabo têem que não podem ver a gente?» «És um tolo, disse o pae; não dás remedio ao meu mal.» «Talvez darei; diga o meu pae que tem.» «É o nosso senhorio que disse que me perdoava as medidas se eu lhe dissesse uma mentira do tamanho do Padre-Nosso; mas o teu irmão não a encontra nos livros.» Foi o tolo ter com o fidalgo e disse-lhe: «Meu pae não é tão pobre como se finge; tem uma cerca que lhe rende quatrocentps carros de pão e em redor da cerca tem uma celha de abelhas e foi um dia para contar os cortiços e não os poude contar, mas contou as abelhas; depois faltava-lhe uma; n'uma mata foi-a encontrar a ser comida por dous lobos; já não tinha senão os quartinhos e elle atirou-lhes com um cutello que levava; não poude chegar ao cutello; veio a casa; levou lume e queimou a mata para os lobos fugirem e apanhar o cutello; mas o ferro queimou-se e ficou só o cabo; foi d'alli ao ferreiro para lhe fazer outro cutello e elle em vez do cutello fez-lhe um anzol; foi com elle aos peixes e depois saiu-lhe debaixo da agua um burrinho preso por um beiço, com canastra e tudo; elle montou o burro e foi-se procurar os quartinhos da abelha; espremeu os quartinhos e cada um d'elles lhe deu uma pipa de mel; não tendo em que o botar metteu a mão no trazeiro do burro e envasilhou lá o mel: como o burro ia tenro da agua criou mataduras e o caseiro foi ao alveitar com o burro; o alveitar mandou-lhe deitar farinha de favas e elle em vez de lh'a deitar deitou-lhe favas inteiras: nasceu-lhe um faval no burro e um melão e quando o ia para partir com um machado, o machado caiu-lhe dentro do melão; desceu abaixo para apanhar o machado; lá encontrou um homem que lhe disse andar alli havia oito dias á busca de dous bois apostos a uma grade; que se fosse embora e não fosse tolo. Meu pae botou um escadão ao burro e subiu d'elle ao céo, onde estão todas as cadeiras dos fidalgos só a de v. exc.ª não.» O fidalgo disse-lhe: «Mentes, ladrão.» «Então estão as medidas de meu pae perdoadas…»

(Ourilhe).