Contos Populares do Brazil/Cova da Linda-Flôr

Wikisource, a biblioteca livre
< Contos Populares do Brazil
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Contos Populares do Brazil
coletados por Sílvio Romero
Cova da Linda-Flôr
XXII


Cova da Linda Flôr


(Rio de Janeiro)


Houve n'outro tempo um rei que tinha o habito de jogar, e todos com quem jogava perdiam. Uma vez convidou a um outro rei para jogar, e, no dia marcado, este se apresentou; mas perdeu todas as mãos do jogo, até que se desenganou e despediu-se para se ir embora. O dono da casa, que o desejava matar, marcou-lhe um outro dia para ir a palacio, o que era seu costume fazer com todos com quem jogava.

O outro foi avisado d'isto, e dirigiu-se a um ermitão para lhe aconselhar o que havia de fazer para evitar a morte. Este, não sabendo o conselho que lhe havia de dar, mandou que fosse ter com outro segundo seu irmão, que ainda o enviou para terceiro. Este ultimo aconselhou ao rei que se puzesse debaixo de uma arvore, que lhe indicou, e que tivesse cuidado nos passaros que n'ella se assentassem, afim de apanhar um escripto que um d'elles levaria no bico e largaria no chão, e que elle seguisse o que o tal escripto ensinasse. Assim fez. Encaminhou-se á arvore indicada, sentou-se debaixo, e d'ahi a uma hora vieram chegando os passaros, até que tambem chegou um que tinha o peito amarello que trazia o escripto, e o largou. O rei apanhou o papel, e leu as seguintes palavras: «O rei com quem jogaste tem tres filhas encantadas, que hão de ir se lavar no rio, virando-se em tres patas. Põe-te escondido na beira do rio até que ellas cheguem; depois que ellas tirarem a roupa para se banharem, deves apanhar a roupa da ultima que se despir e esconder-te com ella. Depois do banho as princezas hão de procurar a sua roupa, e a mais moça, não encontrando a sua, ha de ficar muito afflicta e prometter livrar de todo o mal a quem lh'a restituir.» Assim fez. Seguindo para a beira do rio, se escondeu até que chegaram as tres princezas irmãs; tiraram todas tres as suas roupas, puzeram-se nuas, viraram-se em tres patas e atiraram-se ao rio. Depois que se fartaram de banhar-se sahiram da agua para se vestirem e tornarem para o palacio. As duas que tinham roupa vestiram-se; a mais moça, como faltasse a sua para fazer o mesmo, ficou desesperada por não poder seguir suas irmãs. Como desconfiasse que lhe tinham escondido a roupa, e não enxergando pessoa alguma, pediu a quem lh'a tivesse tirado que lh'a entregasse; porém o rei se fez surdo e não appareceu. Pediu a princeza pela segunda vez e nada; pediu pela terceira, promettendo a quem lh'a entregasse de livrar do mal que tivesse de lhe acontecer. Então sahiu o rei do esconderijo onde estava e dirigiu-se para a princeza, dizendo: «Aqui está a vossa roupa que eu tinha escondido afim de me livrar, por vossos conselhos, da morte que vosso pai me quer dar.» A moça respondeu: «Tenho por costume cumprir o que prometto, e d'isto não me afasto; meu nome é Cova da Linda Flôr; hoje é o dia que tendes de ir á casa do rei meu pai; chegando lá batei na porta, ella vos será aberta; assubireis até chegardes á porta da sala, a qual achareis tambem fechada; batei, por dentro vos abrirão, ao abrir encostai-vos na parede para vos esconder a dita porta; não vos assusteis com um foguetão que ha de sahir da sala, que é para dar fim á vossa vida; passando o foguetão, entrai na sala e fallai com o rei, meu pae.» Assim fez. Quando o rei julgava que o foguetão tinha dado cabo do outro, foi que este se apresentou em sua frente. Ficou o pai das princezas muito massado por ser aquelle o primeiro que tinha escapado d'aquelle trama.[1] Ordenou-lhe então que fizesse amanhecer o seu palacio no meio do mar, sob pena de perder a vida. O rei jurado recolheu-se ao seu aposento no palacio muito triste e pensativo, temendo perder a vida no dia seguinte. Dirigindo-se então a princeza para onde estava elle, perguntou-lhe a causa da sua tristeza. Respondeu que tinha de perder a vida no dia seguinte, si não fizesse apparecer o palacio no meio do mar, conforme seu pai lhe tinha ordenado. Ella lhe prometteu que d'essa vez ainda não morreria; que dormisse descançado, que quando amanhecesse estaria no meio do mar. O que tudo aconteceu com admiração de todos. Como o pai da Cova da Linda Flôr não pudesse d'esta segunda vez matar o rei, seu companheiro, ordenou-lhe que désse conta d'um annel que sua mulher tinha perdido no mar, com pena de perder a vida no dia seguinte. Retirou-se o hospede ao seu aposento outra vez triste e pensativo; o que sabendo a princeza, para lá se dirigiu e perguntou-lhe o motivo. «Tenho de morrer ámanhã si não der conta de um annel que a rainha vossa mãi perdeu no mar.» A moça prometteu-lhe que estivesse descançado, que tinha de achar o annel. Deu então ao rei uma varinha, indicando-lhe uma lage que havia no mar, que, quando amanhecesse, se dirigisse á dita lage e batesse com a varinha, que havia de começar a sahir os peixes que estavam no fundo da lage, que havia de vêr um de papo amarello, que o agarasse e o abrisse que dentro encontraria o annel. Assim foi. Tudo se passou como a princeza ensinou; arranjado o annel o rei foi leval-o ao outro que logo o reconheceu e percebeu que isto eram artes da Cova da Linda Flôr, e resolveu acabar tambem com ella. Porém a moça adivinhando isto foi ter ao aposento do seu protegido e lhe disse que fosse á estrebaria de seu pai, que lá encontraria tres cavallos, um muito gordo e grande que andava como a agua, outro mais abaixo na figura que andava como o vento, e outro ainda mais abaixo que andava como o pensamento, que elle pegasse n'este e viesse para fugirem ambos. Indo o rei á estrebaria, não encontrou o que lhe disse a moça e pegou no cavallo do meio, que andava como o vento, o que desagradou bastante á princeza. Como já fosse perto do dia, montaram-se ambos no cavallo, e fugiram.

Amanhecendo, o rei achou falta de sua filha e indo ao quarto do outro rei, tambem o não encontrou, indo tambem á estrebaria não encontrou o cavallo que andava como o vento. Mandou apparelhar o cavallo que andava como o pensamento, e seguiu atraz dos fugitivos. Quando os estava para alcançar, a princeza fez virar o cavallo em que fugia n'um estaleiro, a sella n'um tôro de pau, o freio n'uma serra, o rei em cima do estaleiro e ella em baixo, ambos com a serra na mão a serrar. Chegando o rei, perguntou se tinham visto passar um homem com uma moça na garupa. A resposta que teve foi: «Serra, serra, serrador. Eu tambem sei serrar.» Cançado de perguntar e sem ter uma resposta, o rei voltou desapontado. Chegando contou á rainha o que tinha encontrado, ao que ella disse: «És muito innocente; o estaleiro é o cavallo, o tôro a sella, o freio a serra, e os dous eram o rei e a nossa filha.» O rei volta para vêr se os pegava; no caminho já não encontrou mais os serradores. Seguiu, e quando já estava a pegar os fugitivos, estes se viraram n'uma ermida, dentro d'ella um altar, no altar uma imagem, ao pé do altar um ermitão rezando em um rosario. Perguntando-lhe o rei si tinha visto passar um homem com uma moça na garupa, a resposta do frade era: «Padre nosso, Ave Maria.» Cançado o rei de perguntar, voltou de redea, e foi-se embora. Chegando á casa contou á rainha o acontecido, ao que esta respondeu: «És muito tolo; a ermida era o cavallo, o altar a sella, a imagem a princeza, o ermitão o rei, que voltes quanto antes.» O rei partiu, e pelo caminho não encontrou mais ermida, nem ermitão. Depois de muito andar encontrou uma roseira com uma rosa, perguntou á mamangaba se tinha visto passar por alli um homem a cavallo com uma moça na garupa. A mamangaba voou em torno da rosa; assim uma segunda vez. Na terceira pergunta ella voou em cima do rei e deu-lhe uma ferroada. O rei voltou desapontado, contou á rainha o que se tinha passado, e ella lhe respondeu: «És ainda muito tolo; a roseira era a sella, a rosa nossa filha, o cercado o cavallo, a mamangaba o rei, portanto volta quanto antes.» O rei não quiz voltar, e a rainha de zangada pediu a Deus que o rei fugitivo fosse ingrato com sua filha e a desprezasse. Assim aconteceu. Depois que estiveram residindo n'uma cidade por algum tempo se separaram, e o rei esqueceu de todo a Cova da Linda Flôr.

Então elle contractou casamento com outra princeza, e quinze dias antes do casamento mandou fazer annuncios para se apresentarem as pessoas que melhores doces soubessem fazer. Entre as que se apresentaram appareceu uma moça que se encarregou de fazer um casal de pombas que fallassem, com a condição de serem postas em cima de uma mesa diante de todo o povo na vespera do casamento. O rei concordou e no dia marcado mandou chamar todo o povo da cidade para presenciar aquella fonção[2]. Estando todos presentes, disse a pomba para o pombo: «Pombo, não te alembras quando o rei, meu pai, te convidou para jogar, para procurar um meio de te matar, e tu para te livrares escondeste a minha roupa, quando fui me banhar no rio, e eu te prometti livrar de todo o perigo si me désses a roupa? Pombo, não te alembras quando meu pai te chamou ao seu palacio para te tirar a vida, e te salvaste por meus conselhos? Não te alembras quando elle te ordenou que fizesses amanhecer seu palacio no meio do mar, e depois que lhe désses conta de um annel que minha mãi tinha perdido tambem no mar, sob pena de perderes a vida, o que tudo conseguiste por meus conselhos? Não te alembras quando fugimos, para escapar da morte, no cavallo que corria tanto como o vento, e, sendo perseguido por meu pai, nos salvamos por meus encantos? Não te alembras que isto aconteceu por tres vezes, que na ultima nos viramos n'uma roseira com uma rosa, e uma mamangaba, que tudo fiz para te salvar a vida, e tu ingrato me esqueceste e vaes-te casar com outra? O pombo ia alevantando a cabeça à porporção que o rei se ia lembrando do que se tinha passado com elle, e o rei desfez o tracto do casamento e recebeu por mulher aquella que o tinha livrado da morte.




  1. O povo faz de trama masculino; é o que se dá com tampa, palavras que os diccionarios dão como genero feminino.
  2. Funcção.