Contos Populares do Brazil/O Bicho Manjaléo

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Contos Populares do Brazil
coletados por Sílvio Romero
O Bicho Manjaléo

I


O Bicho Manjaléo


(Sergipe)


Uma vez existia um velho casado que tinha tres filhas muito bonitas; o velho era muito pobre e vivia de fazer gamellas para vender. Quando foi um dia chegou á sua porta um moço muito formoso, montado n'um bello cavallo e lhe fallou para comprar uma de suas filhas.

O velho ficou muito magoado, e disse que, por ser pobre, não havia de vender sua filha. O moço disse-lhe que se não lh'a vendesse o mataria; o velho intimidado vendeu-lhe a moça e recebeu muito dinheiro.

Retirando-se o cavalleiro, o pai da familia não quiz mais trabalhar nas gamellas, por julgar não o precisava mais de então em diante; mas a mulher instou com elle para que não largasse o seu trabalho de costume, e elle obedecia.

Quando foi na tarde seguinte, apresentou-se um outro moço, ainda mais bonito, montado n'um cavallo ainda mais bem apparelhado, e disse ao velho que queria comprar-lhe uma de suas filhas. 0 pai ficou muito incommodado; contou-lhe o que lhe tinha acontecido no dia antecedente, e recusou-se ao negocio. O moço o ameaçou tambem de morte, e o velho cedeu.

Se o primeiro deu muito dinheiro, este ainda deu mais e foi-se embora.

O velho de novo não quiz continuar a fazer as gamellas e a mulher o aconselhou até elle continuar. Pela tarde seguinte, appareceu outro cavalleiro ainda mais bonito, e melhor montado, e, pela mesma fórma, carregou-lhe a filha mais moça, deixando ainda mais dinheiro.

A familia cá ficou muito rica; depois appareceu a velha pejada e deu á luz um filho que foi criado com muito luxo e mimo. Quando chegou o tempo do menino ir para a escóla, n'um dia brigou com um companheiro, e este lhe disse: «Ah! tu cuidas que teu pai foi sempre rico!… Elle hoje está assim porque vendeu tuas irmãs!…» O rapazinho ficou muito pensativo e não disse nada em casa; mas quando foi moço lá n'um dia se armou de um alfange e foi ao pai e á mãi e lhes disse que lhe contassem a historia de suas tres irmãs, senão os matava. O pai lhe teve mão, e contou o que se tinha passado antes d'elle nascer. O moço então pediu que queria sahir pelo mundo para encontrar suas irmãs, e partiu. Chegando em um caminho, viu n'uma casa tres irmãos brigando por causa de uma bota, uma carapuça e uma chave. Elle chegou e perguntou o que era aquillo, e para que prestavam aquellas cousas.

Os três irmãos responderam que — áquella bota se dizia: «Bota, me bota em tal parte!» e a bota botava; á carapuça se dizia: «Esconde-me, carapuça!» e ella escondia a pessoa que ninguem a visse; e a chave abria qualquer porta.

O moço offereceu bastante dinheiro pelos objectos, os irmãos aceitaram, e elle partiu. Quando se encobriu da casa, disse: «Bota, me bota na casa de minha irmã primeira.» Quando abriu os olhos estava lá. A casa era um palacio muito ornado e rico, e o moço mandou pedir licença para entrar e fallar com a irmã, que estava feita rainha. Ella não queria apparecer, porque dizia que nunca tinha tido irmão. Afinal, depois de muita instancia, deixou o estrangeiro entrar; elle contou toda a sua historia, a irmã o acreditou, e o tratou muito bem.

Perguntou-lhe como podia ter chegado alli áquellas brenhas, e o irmão disse-lhe o poder da bota. Pela tarde, a rainha se poz a chorar e o irmão lhe indagou da razão, ao que ella respondeu — que seu marido era o rei dos peixes, e, quando vinha jantar, era muito zangado, em termos de acabar com tudo e não queria que ninguem fosse ter ao seu palacio… O moço disse-lhe que por isso não se incommodasse, que tinha com que se esconder e não ser visto, e era a carapuça. Pela tarde, veiu o rei dos peixes, acompanhado de uma porção de outros, que o deixaram na porta do palacio e se retiraram. Chegou o rei muito aborrecido, dando pulos e pancadas, dizendo: «Aqui me fede a sangue real, aqui me fede a sangue real!…» do que a rainha o dissuadia; até que elle tomou o banho e se desencantou n'um bello moço.

Seguia-se o jantar, no qual a rainha perguntou-lhe: «Se aqui viesse um irmão meu, cunhado seu, você o que fazia?» — «Tratava e venerava como a você mesma; e si está ahi appareça.»

Foi a resposta do rei. O moço appareceu, e foi muito considerado. Depois de muita conversação, em que contou sua viagem, foi instado para ficar alli, morando com a irmã, ao que disse que não, porque ainda lhe restavam duas irmãs a visitar.

0 rei lhe indagou que prestimo tinha aquella bota, e quando soube do que valia disse: «Se eu a apanhasse ia vêr a rainha de Castella.» O moço, não querendo ficar, despediu-se, e, no acto da sahida, o cunhado lhe deu uma escama, e disse-lhe: «Quando vossê estiver em algum perigo, pegue n'esta escama, e diga: «Valha-me o rei dos peixes.» O moço sahiu, e, quando se encobriu do palacio, disse: «Bota, me bota em casa de minha irmã segunda;» e, quando abriu os olhos, lá estava. Era um palacio ainda mais bonito e rico do que o outro. Com alguma difficuldade da parte da irmã, entrou e foi recebido muito bem. Depois de muita conversa, a sua irmã do meio se poz a chorar, dizendo que era «por estar elle alli, e, sendo seu marido rei dos carneiros, quando vinha jantar, era dando muitas marradas, em termos de matar tudo.»

O irmão apaziguou-a, dizendo que tinha onde se esconder. Com poucas, chegou uma porção de carneiros com um carneirão muito alvo e bello na frente; este entrou e os outros voltaram. (Segue-se uma scena em tudo semelhante á que se passou em casa do Rei dos peixes).

Na despedida, o rei dos carneiros deu ao cunhado uma lanzinha, dizendo: «Quando estiver em perigo, diga: Valha-me o rei dos carneiros.» Tambem disse, depois de saber a virtude da bota: «Se eu pegasse esta bota, ia vêr a rainha de Castella.»

O moço foi reparando n'isto, e formou logo comsigo o plano de ir vêl-a. Sahiu, e pela mesma fórma, foi a casa de sua irmã mais moça. Era um palacio ainda mais bonito e rico do que os outros dous. (Seguem-se as mesmas scenas que nas outras duas visitas). Era o palacio do rei dos pombos, e este, na despedida, deu ao cunhado uma penna, com as palavras: «Quando se vir n'algum perigo, diga: «Valha-me o rei dos pombos

Na despedida, sabendo o rei do prestimo da bota, mostrou tambem desejos de ir visitar a rainha de Castella.

Logo que o moço se viu longe de palacio, disse: «Bota, bota-me agora na terra da rainha de Castella.» Assim foi. Chegado lá, elle indagou que «era uma princeza que o pai queria casar, e que era tão bonita que ninguem passava pela frente do palacio que não olhasse logo para cima para vêl-a na janella; mas a princeza tinha dito ao rei que só casava com o homem que passasse por ella sem levantar a vista.»

O estrangeiro foi passar, e atravessou toda a distancia sem olhar, e a princeza casou com elle.

Depois de casados, ella indagou pela significação d'aquelles objectos que seu marido sempre trazia comsigo; elle tudo lhe contou, e a princeza prestou muita attenção ao prestigio da chave.

O rei, seu pai, tinha em palacio um quarto que nunca se abria, e n'este quarto, onde era prohibido a todos entrar, estava, desde muito tempo, trancado um bicho Manjaléo, muito feroz, que sempre o rei mandava matar e sempre revivia. A moça tinha muita curiosidade de o vêr, e, aproveitando a sahida do pai e do marido para uma caçada, pegou na chave encantada e abriu o quarto. O bicho pulou de dentro, dizendo: «A ti mesmo é quem queria!…» e fugiu com ella para as brenhas.

Quando voltaram os caçadores, deram por falta da princeza, e ficaram muito afflictos. O rei foi ao quarto do Manjaléo, e achou-o aberto e vazio, e o novo principe conheceu a sua chave… Ao depois valeu-se de sua bota e foi ter aonde estava sua mulher. Esta quando o viu, estando ausente o Manjaléo, ficou muito alegre, e quiz ir-se embora com elle. Mas o marido o não consentiu, dizendo que ella ficasse ainda para indagar do monstro onde estava a sua vida, para assim dar-se cabo d'elle. O principe foi-se embora. Quando o Manjaléo voltou conheceu que alli tinha estado bicho homem; a moça o dissuadiu, e quando elle se acalmou, ella lhe perguntou onde estava a sua vida. O monstro zangou-se muito, e disse: «Ah! tu queres saber de minha vida mais o teu marido para darem cabo de mim!… Não te digo, não…»

Passaram-se dias, sempre a moça instando. Afinal, elle foi amolar um alfange, dizendo: «Eu te digo onde está a Minha vida; mas se eu sentir qualquer incommodo, conheço que ella vai em perigo, e, antes que me matem, mato a ti primeiro, queres?!»

A princeza respondeu que sim. O Manjaléo amolou o alfange, e disse-lhe: «Minha vida está no mar; dentro d'elle ha um caixão, dentro do caixão uma pedra, dentro da pedra uma pomba, dentro da pomba um ovo, dentro do ovo uma vela; assim que a vela se apagar eu morro.» O bicho sahiu e foi procurar fructas; chegou o principe, soube de tudo e foi-se embora. O Manjaléo veiu e deitou-se no collo da moça com o alfange alli perto. O principe chegou com a sua bota á praia do mar n'um instante; lá pegou na escama, que tinha, e disse: «Valha-me o rei dos peixes!» De repente uma multidão de peixes appareceu, indagando o que elle queria.

O principe perguntou por um caixão que havia no fundo do mar; os peixes disseram que nunca o tinham visto, e só se o peixe do rabo cotó soubesse. Foram chamar o peixe do rabo cotó, e este respondeu: «N'este instante dei uma encontroada n'elle.» Todos os peixes foram e botaram o caixão para fora. O principe o abriu e deu com a pedra; ahi pegou na lanzinha e disse: «Valha-me o rei dos carneiros!» De repente appareceram muitos carneiros e entraram a dar marradas na pedra. O Manjaléo lá começou a sentir-se doente, e dizia: «Minha vida, princeza, corre perigo!» E pegou no alfange; a moça o foi dissuadindo e engambellando. [1] Os carneiros quebraram a pedra e voou uma pomba. O principe pegou na penna e disse: «Valha-me o rei dos pombos!» Chegaram muitos pombos e correram atraz da pomba até que a pegaram. O principe abriu-a e achou o ovo. Quando estava n'isto, lá o Manjaléo estava muito desfallecido, pegou no alfange e ia dando um golpe na princeza. Foi quando cá o principe quebrou o ovo, e apagou a vela; ahi o bicho cahiu sem ferir a moça. O principe foi ter com ella, e levou-a para palacio, onde houve muitas festas.



  1. Enganando.