Contos Populares do Brazil/O Matuto João

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Contos Populares do Brazil
coletados por Sílvio Romero
O Matuto João

XXXV


O matuto João


(Pernambuco)


Havia um homem de nome Manoel, casou-se com uma mulher chamada Maria e tiveram um filho que se chamou João. Os paes, por serem muito pobres, não lhe ensinaram a lêr; porém João era muito activo. Um dia sahiu de casa com uma cachorrinha que sua avó lhe tinha dado e foi passear. No caminho soube que no Reino das tres princezas havia grande festa e um casamento, dentro de quinze dias, com uma das filhas do rei, si alguem decifrasse uma adivinhação. Já muitos homens tinham morrido na forca por não poderem decifrar a adivinhação.

João, chamado o amarello, voltou para casa e disse ao pai que ia pelo mundo a fóra ganhar a sua vida. O pai consentiu e a mãi lhe preparou um pão muito grande e envenenado e arrumou-o na trouxa. João partiu com a sua cachorrinha. Não sabendo bem os caminhos, perdeu-se nas montanhas, e, depois de andar muito errado, deu n'uma campina já de noite. Ahi dormiu. No dia seguinte passou elle um rio, que tinha tido uma grande enchente e onde viu um cavallo morto, e os urubús já lhe estavam dando cabo. Como havia correnteza, as aguas puxavam o cavallo de rio á baixo. João fez reparo n'aquillo e seguiu seu caminho.

O sol já pendia quando elle sentou-se debaixo de um pé de arvore para comer o seu pão, e n'isto deu-lhe o coração aviso que não comesse sem experimentar em sua cachorrinha. Logo que elle deu do pão á cachorrinha, ella expirou. Muito sentido com isto, elle pegou-a nos hombros, e os urubús começaram a atrapalhal-o. Para vêr-se livre, elle enterrou a cachorra, mas os urubús a desenterraram, a comeram e morreram. — João pegou nos urubús e pôz nas costas e seguiu. Chegou a uma estalagem, e, não vendo ninguem, entrou pela porta a dentro. Lá no fundo avistou sete homens todos armados de espingardas. Estavam sem comer ha tres dias e logo que viram o João avançaram para elle e lhe tomaram os urubús. João largou-se á toda pressa e deixou-se atraz; mas vendo que o não seguiam voltou e achou-os todos mortos. Escolheu das sete espingardas a melhor e largou-se. Chegando adiante, encontrou uma grande campina; já morto de fome e sêde, sentou-se debaixo de um arvoredo. N'isto vôa do capim grosso uma yampupé.[1] O tiro errou e foi dar n'uma rolinha que estava entre as folhas. João apanhou a rola e a depennou; mas não achou com que fizesse fogo para assal-a. Tinha alli uma santa-cruz e tirou d'ella uma lasca e fez fogo, assou a rola e comeu; mas tinha muita sêde e, não achando agua, pegou um cavallo, que andava alli pastando, montou n'elle e pôz-se a correr até o cavallo ficar bem suado — a ponto de correr o suor e elle aparar e beber. Seguiu sua viagem e passou n'um campo e viu uma cova onde havia uma caveira; fallou-lhe e notou que a caveira tambem lhe fallava. Mais adiante encontrou um burro amarrado debaixo d'uma arvore a cavar com os pés e conheceu que o burro cavava uma botija de dinheiro. Seguiu e foi ter ao palacio do rei e levar a sua adivinhação á princeza, certo de que ella não acertaria. Apresentou-se o João e disse que era pretendente á mão da princeza; pois ella era incapaz de decifrar a sua adivinhação. Riram-se muito d'elle. «Ora! disseram, quando outros homens sabios não sahiram-se bem, tu que és um pobre matuto e amarello é que has de casar com a filha do rei!» O matuto insistiu e foi fallar ao rei. O rei lhe disse: «Sabes tu a quanto te arriscas?» João respondeu que a tudo estava disposto. Chamada a princeza e muito confiada em si e debicando o rapaz, manda-lhe que proponha a sua adivinhação. O matuto assim fallou:

«Sahi de casa com massa e pita;
A massa matou a pita,
A pita matou tres,
Os tres mataram séte,
Dos sete escolhi a melhor:
Atirei no que vi
E matei o que não vi,
Com madeira santa
Assei e comi;
Bebi agua sem ser dos céos,
Vi o morto carregando os vivos,
Os mortos conversando os vivos;
O que o homem não sabe,
Sabia o jumento:
Ouça tudo isto para seu tormento.»

A princeza mandou repetir, e não foi capaz de decifrar. E casou com o João.




  1. Grande ave, maior que a yambú; é uma especie de perdiz.