Contos em verso/Contos brasileiros/Um medico da roça

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UM MEDICO DA ROÇA
 

Aos vinte e um annos Tolentino Abrantes
Da vida a primavera desfructava,
Figurando entre os peiores estudantes,
Pois que não estudava,
Muito embora na Escola
De Medicina, que elle frequentava,
Dissesse toda a gente
Ter elle muito phosphoro na bola,
E ser, talvez, o mais intelligente
Da sua turma. O nosso rapazola,
Que dos paternos cabedaes dispunha,
Mettendo-lhes a unha
Tão facilmente como si a mettesse
Num fófo pandeló, não conhecia
Da pobreza os açoites,
E, nesta vida tudo lhe sorria.
Antes os conhecesse:
Na pandega não passaria as noites.

O pae, sujeito honrado,
Que no commercio havia enriquecido,
Foi por alguns amigos prevenido
Da vida que levava o seu morgado,
E corrigil-o quiz, mas era tarde,

Porém o velho, sem fazer alarde,
Resolveu, de repente,
Suspender-lhe a pecunia, declarando
Categoricamente
Que só dinheiro lhe daria quando
Elle quizesse entrar no bom caminho,
E andasse «muito, muito direitinho».
— Um meio ha de o fazeres,
O bom pae adduziu: troca essa vida
De festas e prazeres
Pela vida em familia. A Margarida,
Filha do meu amigo Castro Motta,
Gosta muito de ti; é moça, é bella,
O pae é rico e certamente a dota.
Serás feliz casando-te com ella.
Esse o meio será de proseguires
Nos estudos. O meu conselho segue,
E olha: si o não seguires,
Para o diabo vae que te carregue!

Não foi para o diabo o nosso Abrantes,
Que, tres mezes depois desse conselho,
Sendo embora um fedelho,
Sem conhecer do mundo as cambiantes,
Casado estava e muito bem casado.

Durante mezes, no seu novo estado,
Foi dos maridos jovens o modelo:
Fazia gosto vel-o
Sempre ao lado da sua mulhersinha,

Que uma affeição purissima lhe tinha;
Mas, depois de formado,
(Sim, porque o moço conseguiu a béca),
Daquelle duetto se sentiu cançado
E fez coisas da bréca,
— Tantas e taes, que Castro Motta, o sogro,
Observando o mallogro
Da ventura da filha amada, um dia
Não quiz que ella nem mais uma semana
Vivesse em companhia
Daquelle doudejana,
Que a deixava ficar sósinha em casa
Dias e noites, nem perdia vasa
De se exhibir escandalosamente,
Com mulheres perdidas, nos logares
Onde havia mais gente,
Sem dares nem tomares.
Carregou-a dali. — Pois satisfeito
(Podeis acreditar) ficou Abrantes
Quando, ao entrar, com passos vacillantes,
No seu quarto, lá pela madrugada,
Achou vasio o leito
Onde a esposa devia estar deitada,
E sobre o travesseiro
Um papel em que havia este letreiro:
«Vou para casa de meu pae.» Mais nada.
O medico, durante alguns instantes,
Pensou em Margarida...
— Fugiu? Melhor! E’ tão desenxabida! —
Era um patife Tolentino Abrantes.

Mas como o pae do lado o houvesse posto,
E do sogro infeliz seccasse a tèta,
E doente nenhum fizesse gosto
Em recorrer á sua medicina,
Em breve Abrantes se apanhou sem chêta,
E passou existencia bem mofina.

Não tinha o pobre diabo
O que fazer da vida, e já pensava
Em della emfim dar cabo,
Quando um roceiro, que na côrte estava,
Propoz leval-o para certa villa
Ignorada e tranquilla
Onde faltava um medico; podia,
Se não fazer fortuna,
Pelo menos ganhar grossa maquia.

A proposta opportuna
Abrantes acceitou; foi para a roça,
Quinze annos respirou, num mundo a parte,
O oxygenio do matto, que remoça,
E, aprendendo a sua arte
No corpo dos escravos, nas fazendas,
Afinal ganhou fama
De haver feito umas curas estupendas,
Moribundos erguendo até da cama!
Regenerou-se. O ver constantemente
As molestias alheias,
Fez-lhe voltar o coração ausente,
Deu-lhe boas idéas;

Tinha Abrantes agora
Fundos remorsos do viver de outr’ora.

Sim, quinze annos esteve
Naquella redondeza. Um dia, teve
Desejos de ir á capital do Estado,
Afim de espairecer o seu bocado,
E, indo ao theatro, viu num camarote
Uma linda mulher; impressionado,
Pretendeu dar-lhe um bote:
Subiu ao corredor dum intervallo...
Qual foi o seu abalo,
Reconhecendo nella,
Vista de perto, a pobre Margarida,
Que não lhe pareceu desenxabida!
Muito mais gorda, mas tambem mais bella
Estava. O porte altivo e magestoso,
Languido o olhar vellado e mysterioso...
Tão formosa não era a propria Venus!...
Que singular acaso!
Sorpreso elle ficou; pudéra! — o caso
Não era para menos.

— Gosta della, doutor? disse-lhe rindo,
Um conhecido que passava. — Gósto.
— Não se lhe dava de a apanhar, aposto!
Anjo não ha mais lindo!
Pois bem: tire dahi o pensamento:
E’casada. — Casada? — Sim, casada!

O marido não tarda ahi um momento:
E’engenheiro da Estrada.
Ha dias aqui estão, vindos do Rio. —
Outro individuo, typo de vadio,
Que passava tambem parou e disse:
— Casada? Que tolice!
Elles não são casados!
O marido era um medico: deixou-a
E nunca mais nem novas nem mandados
Deu da sua pessoa.
Depois de abandonada,
Ella viveu com o pae pura e honrada.
Mas o velho morreu; ella, coitada!
Do engenheiro gostou, e não podendo
Casar-se, ficou sendo
A mais fiel das amantes.

Foi para o hotel Abrantes,
E, na manhã seguinte,
No trem das seis e vinte
Para a roça voltou, bem castigado
De todo o seu passado.

Hoje elle é morto, e é ella a esposa amada
Do engenheiro da Estrada.