Correspondência de Adélia Fonseca à Semana Ilustrada

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Correspondência de Adélia Fonseca à Semana Ilustrada
por Adélia Fonseca
Correspondência publicada originalmente na edição 348 de Semana Ilustrada, de 11 de agosto de 1867. Parte do diálogo de Muniz Barreto com Adélia Fonseca.

Bahia, 29 de Julho de 1867.

Illms. Srs. Redactores da Semana Illustrada.

Lendo quatro sonetos do Sr. Francisco Moniz Barreto, o Amar, e o Casar, senti que o illustre poeta se esmerasse em afinar a sua lyra, para metter a ridículo não só o sentimento mais sublime que póde conter o coração humano, como tambem o sagrado laço, que legitima esse sentimento.

Notando a subtileza com que o insigne cantor torna a mulher odiosa, até nos sonetos em relação ao homem, como mulher, que tem encontrado no casamento a realisação dos sonhos mais poéticos de sua alma, ousei responder ao canto do Sr. Moniz Barretto. Eu bem conhecia quanto era arrojada aempreza; mas, como tinha por alliadas a justiça e a verdade, contava triumphar, e creio que o consegui.

Espero que V., como juizes conscienciosos, julgando-me com imparcialidade, dar-me-hào razão, e desculparáõ a liberdade que tomo de enviar-lhes esses dous sonetos, pedindo-lhes a publicação delles, caso os não achem indignos dessa honra

Com a mais subida consideração sou etc.




Amar.

(em relação ao homem e á mulher)

SONETO

Amar — é Bernardim, triste gemendo,
Do bella Infanta a ausência lamentando;
E’ Pedro a esposa ao tumulo roubando,
E de rainha o sceptro lhe rendendo.

Amar — é, sim, Moêma perecendo
Nas vagas que vencer busca, nadando;
E’ Virgínia o retrato inda abraçando
De Paulo, quando a engole o abysmo horrendo

Amar — é verbo de mvsterio infindo:
Amarga taça, que tem mel no fundo;
Martyrio que se soffre, ás vezes rindo.

Amar — é sentimento em bens fecundo;
E’ o septimo céo, o céo mais lindo
Gosar no pobre, miseravel mundo.


29 de Julho de 1867.


Casar.

(em relação ao homem e á mulher)

SONETO

Casar — é a união santificada,
De duas almas n’uma só vontade;
E’ um laço que applaude a sociedade:
Uma prisão por Deus abençoada.

Casar — é ter, na vida afortunada,
Captiveiro melhor que a liberdade:
E’, de remorso isempta a humanidade
Entregar-se ao prazer de ser amada.

Casar — é pensamento concebido
No melhor dos momentos do Senhor.
E por todas as lingoas traduzido.

Casar — é um poema encantador,
Que mais enleva quanto mais é lido;
Que em todas as estrophes diz: amor!


29 de Julho de 1867.