Correspondência de Adélia Fonseca à Semana Ilustrada

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Bahia, 29 de Julho de 1867.

Illms. Srs. Redactores da Semana Illustrada.

Lendo quatro sonetos do Sr. Francisco Moniz Barreto, o Amar, e o Casar, senti que o illustre poeta se esmerasse em afinar a sua lyra, para metter a ridículo não só o sentimento mais sublime que póde conter o coração humano, como tambem o sagrado laço, que legitima esse sentimento.

Notando a subtileza com que o insigne cantor torna a mulher odiosa, até nos sonetos em relação ao homem, como mulher, que tem encontrado no casamento a realisação dos sonhos mais poéticos de sua alma, ousei responder ao canto do Sr. Moniz Barretto. Eu bem conhecia quanto era arrojada aempreza; mas, como tinha por alliadas a justiça e a verdade, contava triumphar, e creio que o consegui.

Espero que V., como juizes conscienciosos, julgando-me com imparcialidade, dar-me-hào razão, e desculparáõ a liberdade que tomo de enviar-lhes esses dous sonetos, pedindo-lhes a publicação delles, caso os não achem indignos dessa honra

Com a mais subida consideração sou etc.




Amar.

(em relação ao homem e á mulher)

SONETO

Amar — é Bernardim, triste gemendo,
Do bella Infanta a ausência lamentando;
E’ Pedro a esposa ao tumulo roubando,
E de rainha o sceptro lhe rendendo.

Amar — é, sim, Moêma perecendo
Nas vagas que vencer busca, nadando;
E’ Virgínia o retrato inda abraçando
De Paulo, quando a engole o abysmo horrendo

Amar — é verbo de mvsterio infindo:
Amarga taça, que tem mel no fundo;
Martyrio que se soffre, ás vezes rindo.

Amar — é sentimento em bens fecundo;
E’ o septimo céo, o céo mais lindo
Gosar no pobre, miseravel mundo.


29 de Julho de 1867.


Casar.

(em relação ao homem e á mulher)

SONETO

Casar — é a união santificada,
De duas almas n’uma só vontade;
E’ um laço que applaude a sociedade:
Uma prisão por Deus abençoada.

Casar — é ter, na vida afortunada,
Captiveiro melhor que a liberdade:
E’, de remorso isempta a humanidade
Entregar-se ao prazer de ser amada.

Casar — é pensamento concebido
No melhor dos momentos do Senhor.
E por todas as lingoas traduzido.

Casar — é um poema encantador,
Que mais enleva quanto mais é lido;
Que em todas as estrophes diz: amor!


29 de Julho de 1867.