Correspondência de Fradique Mendes/IV

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Correspondência de Fradique Mendes por Eça de Queirós
Capítulo IV


Durante anos não tornei a encontrar Fradique Mendes, que concentrara as suas jornadas dentro da Europa Ocidental—enquanto eu errava pela América, pelas Antilhas, pelas repúblicas do golfo do México. E quando a minha vida enfim se aquietou num velho condado rural de Inglaterra, Fradique, retomado por essa bisbilhotice etnográfica» a que ele alude numa carta a Oliveira Martins, começava a sua longa viagem ao Brasil, aos Pampas, ao Chile e à Patagônia.

Mas o fio de simpatia, que nos unira no Cairo, não se partiu; nem nós, apesar de tão tênue, o deixamos perder por entre os interesses mais fortes das nossas fortunas desencontradas. Quase todos os três meses trocávamos uma carta—cinco ou seis folhas de papel que eu tumultuosamente atulhava de imagens e impressões, e que Fradique miudamente enchia de ideias e de fatos. Além disto, eu sabia de Fradique por alguns dos meus camaradas, com quem, durante uma residência mais íntima em Lisboa, do Outono de 1875 ao Verão de 1876, ele criara amizades onde todos encontraram proveito intelectual e encanto.

Todos, apesar das dessemelhanças de temperamentos ou das maneiras diferentes de conceber a vida—tinham como eu sentido a sedução daquele homem adorável. Dele me escrevia em Novembro de 1877 o autor do Portugal Contemporâneo:—«Cá encontrei o teu Fradique, que considero o português mais interessante do século XIX. Tem curiosas parecenças com Descartes! É a mesma paixão das viagens, que levava o filósofo a fechar os livros «para estudar o grande livro do Mundo»; a mesma atração pelo luxo e pelo ruído, que em Descartes se traduzia pelo gosto de frequentar as «cortes e os exércitos»; o mesmo amor do mistério, e das súbitas desaparições; a mesma vaidade, nunca confessada, mas intensa, do nascimento e da fidalguia; a mesma coragem serena; a mesma singular mistura de instintos romanescos e de razão exata, de fantasia e de geometria. Com tudo isto falta-lhe na vida um fim sério e supremo, que estas qualidades, em si excelentes, concorressem a realizar. E receio que em lugar do Discurso sobre o Método venha só a deixar um vaudeville». Ramalho Ortigão, pouco tempo depois, dizia dele numa carta carinhosa:— «Fradique Mendes é o mais completo, mais acabado produto da civilização em que me tem sido dado embeber os olhos. Ninguém está mais superiormente apetrechado para triunfar na Arte e na Vida. A rosa da sua botoeira é sempre a mais fresca, como a ideia do seu espírito é sempre a mais original. Marcha cinco léguas sem parar, bate ao remo os melhores remadores de Oxônia, mete-se sozinho ao deserto a caçar o tigre, arremete com um chicote na mão contra um troço de lanças abissínias;—e à noite numa sala, com a sua casaca de Cook, uma pérola negra no esplendor do peitilho, sorri às mulheres com o encanto e o prestígio com que sorrira à fadiga, ao perigo e à morte. Faz armas como o cavaleiro de Saint-Georges, e possui as noções mais novas e as mais certas sobre Física, sobre Astronomia, sobre Filologia e sobre Metafísica. É um ensino, uma lição de alto gosto, vê-lo no seu quarto, na vida íntima de gentleman em viagem, entre as suas malas de couro da Rússia, as grandes escovas de prata lavrada, as cabaias de seda, as carabinas de Winchester, preparando-se, escolhendo um perfume, bebendo goles de chá que Lhe manda o Grão-Duque Vladimir, e ditando a um criado de calção, mais veneravelmente correto que um mordomo de Luís XIV, telegramas que vão levar notícias suas aos boudoirs de Paris e de Londres. E depois de tudo isto fecha a sua porta ao mundo—e lê Sófocles no original».

O poeta da Morte de D. João e da Musa em Férias chamava-lhe «um Saint-Beuve encadernado em Alcides». E explicava assim, numa carta desse tempo que conservo, a sua aparição no mundo«Deus um dia agarrou num bocado de Henri Heine, noutro de Chateaubriand; noutro de Brummel, em pedaços ardentes de aventureiros da Renascença, e em fragmentos ressequidos de sábios do Instituto de França, entornou-lhe por cima champanhe e tinta de imprensa, amassou tudo nas suas mãos onipotentes, modelou à pressa Fradique, e arrojando-o à Terra disse: Vai, e veste-te no Poole!» Enfim Carlos Mayer, lamentando como Oliveira Martins que às múltiplas e fortes aptidões de Fradique faltasse coordenação e convergência para um fim superior, deu um dia sobre a personalidade do meu amigo um resumo sagaz e profundo: «O cérebro de Fradique está admiravelmente construído e mobilado. Só Lhe falta uma ideia que o alugue, para viver e governar lá dentro. Fradique é um gênio com escritos!»

Também Fradique, nesse Inverno, conheceu o pensador das Odes Modernas, de quem, numa das suas cartas a Oliveira Martins, fala com tanta elevação e carinho. E o último companheiro da minha mocidade, que se relacionou com o antigo poeta das LAPIDÁRIAS, foi J. Teixeira de Azevedo, no Verão de 1877, em Sintra, na quinta da Saragoça, onde Fradique viera repousar da sua jornada ao Brasil e às repúblicas do Pacífico. Tinham aí conversado muito, e divergido sempre, J. Teixeira de Azevedo, sendo um nervoso e um apaixonado, sentia uma insuperável antipatia pelo que ele chamava o linfatismo crítico de Fradique. Homem todo de emoção, não se podia fundir intelectualmente com aquele homem todo de análise. O extenso saber de Fradique também não o impressionava. «As noções desse guapo erudito (escrevia ele em 1879) são bocados do Larousse diluídos em água-de-colônia». E enfim certos requintes de Fradique (escovas de prata e camisas de seda), a sua voz mordente, recortando o verbo com perfeição e preciosidade, o seu hábito de beber champanhe com soda-water, outros traços ainda, causavam uma irritação quase física ao meu velho cama rada da Travessa do Guarda-Mor. Confessava; porém, como Oliveira Martins, que Fradique era o português mais interessante e mais sugestivo do século XIX. E correspondia-se regularmente com ele—mas para o contradizer com acrimônia.

Em 1880 (nove anos depois da minha peregrinação no Oriente), passei em Paris a semana da Páscoa. Uma noite, depois da Ópera, fui cear solitariamente ao Bignon. Tinha encetado as ostras e uma crônica do Tempos, quando por trás do jornal que eu encostara à garrafa assomou uma larga mancha clara, que era um colete, um peitilho, uma gravata, uma face, tudo de incomparável brancura. E uma voz muito serena murmurou: «Separamo-nos há anos no cais de Boulak...» Ergui-me com um grito, Fradique com um sorriso;—e o maître d’hôtel recuou assombrado diante da meridional e ruidosa efusão do meu abraço. Dessa noite em Paris datou verdadeiramente a nossa intimidade intelectual—que em oito anos, sempre igual e sempre certa, não teve uma intermissão, nem uma sombra que lhe toldasse a pureza.

Determinadamente lhe chamo intelectual, porque esta intimidade nunca passou além das coisas do espírito. Nas alegres temporadas que, com ele, convivi em Paris, em Londres e em Lisboa, de 1880 a 1887, na nossa copiosa correspondência desses anos privei sempre, sem reserva, com a inteligência de Fradique—e ininterrompidamente assisti e me misturei à sua vida pensante: nunca, porém, penetrei na sua vida afetiva de sentimento e de coração. Nem, na verdade, me atormentou a curiosidade de a conhecer—talvez por sentir que a rara originalidade de Fradique se concentrava toda no ser pensante, e que o outro, o ser sensível, feito da banal argila humana, repetia sem especial relevo as costumadas fragilidades da argila. De resto, desde essa noite de Páscoa em Paris que iniciou as nossas relações, nós conservamos sempre o hábito especial, um pouco altivo, talvez estreito, de nos considerarmos dois puros espíritos. Se eu então concebesse uma Filosofia original ou preparasse os mandamentos duma nova Religião, ou surripiasse à Natureza distraída uma das suas secretas Leis de preferência escolheria Fradique como confidente desta atividade espiritual; mas nunca, na ordem do Sentimento, iria a ele com a confidência duma esperança ou duma desilusão. E Fradique igualmente manteve comigo esta atitude de inacessível recato—não se manifestando nunca aos meus olhos senão na sua função intelectual.

Muito bem me lembro eu duma resplandecente manhã de Maio em que atravessávamos, conversando por sob os castanheiros em flor, o jardim das Tulherias. Fradique, que se encostara ao meu braço, vinha vagarosamente desenvolvendo a ideia de que a extrema democratização da Ciência, o seu universal e ilimitado derramamento através das plebes, era o grande erro da nossa civilização que, com ele, preparava para bem cedo a sua catástrofe moral... De repente, ao transpormos a grade para a Praça da Concórdia, o Filósofo que assim lançava, por entre as tenras verduras de Maio, estas predições de desastres e de fim— estaca, emudece! Diante de nós, ao trote fino duma égua de luxo, passara vivamente, para os lados da Rua Royale, um cupé onde entrevi, na penumbra dos cetins que o forravam, uns cabelos cor de mel. Vivamente também, Fradique sacode o meu braço, balbucia um «adeus!», acena a um fiacre, e desaparece ao galope arquejante da pileca para os lados do cais de Orsay. «Mulher!», pensei eu. Era, com efeito, a mulher e o seu tormento; e como se depreende duma carta a Madame de Jouarre (datada de «Maio, sábado», e começando «Ontem filosofava com um amigo no jardim das Tulherias...»). Fradique corria nesse fiacre a uma desilusão bem rude e mortificante. Ora nessa tarde, ao crepúsculo, fui (como combinara) buscar Fradique à Rua de Varennes, ao velho palácio dos Tredemes, onde ele instalara desde o Natal os seus aposentos, com um luxo tão nobre e tão sóbrio. Apenas entrei na sala que denominávamos a «Heroica», porque a revestiam quatro tapeçarias de Luca Cornélio contando os Trabalhos de Hércules, Fradique deixa a janela donde olhava o jardim já esbatido em sombra, vem para mim serenamente, com as mãos enterradas nos bolsos duma quinzena de seda. E, como se desde essa manhã nenhum outro cuidado o absorvesse senão o seu tema do jardim das Tulherias:

—Não lhe acabei de dizer há pouco... A Ciência, meu caro, tem de ser recolhida como outrora aos Santuários. Não há outro meio de nos salvar da anarquia moral. Tem de ser recolhida aos Santuários, e entregue a um sacro colégio intelectual que a guarde, que a defenda contra as curiosidades das plebes... Há a fazer com esta ideia um programa para as gerações novas!

Talvez na face, se eu tivesse reparado, encontrasse restos de palidez e de emoção; mas o tom era simples, firme, dum crítico genuinamente ocupado na dedução do seu conceito. Outro homem que, como aquele, tivesse sofrido horas antes uma desilusão tão mortificante e rude, murmuraria ao menos, num desafogo genérico e impessoal:—«Ah, amigo, que estúpida é a vida!» Ele falou da Ciência e das Plebes,—desenrolando determinadamente diante de mim, ou impondo talvez a si mesmo, os raciocínios do seu cérebro, para que os meus olhos não penetrassem de leve, ou os seus não se detivessem de mais, nas amarguras do seu coração.

Numa carta a Oliveira Martins, de 1883, Fradique diz:—«O homem, como os antigos reis do Oriente, não se deve mostrar aos seus semelhantes senão única e serenamente ocupado no ofício de reinar—isto é, de pensar». Esta regra, dum orgulho apenas permissível a um Espinosa ou a um Kant, dirigia severamente a sua conduta. Pelo menos comigo assim se comportou imutavelmente, através da nossa ativa convivência, não se abrindo, não se oferecendo todo, senão nas funções da Inteligência. Por isso talvez, mais que nenhum outro homem, ele exerceu sobre mim império e sedução.