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A Estação (1886)/10/Curta historia

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CURTA HISTORIA

A leitora ainda ha de lembrar-se do Rossi, o actor Rossi, que aqui nos deu tantas obras-primas do theatro inglez, francez e italiano. Era um homem zarrão, que uma noite era terrivel como Othello, outra noite meigo couro Romeo. Não havia duas opiniões, quaesquer que fossem as restricções; assim pensava a leitora, assim pensava uma D. Cecilia, que está hoje casada e com filhos.

Naquelle tempo esta Cecilia tinha dezoito annos e um namorado. A desproporção era grande; mas explica-se pelo ardor com que ella amava aquelle unico namorado, Juvencio de tal. Note-se que elle não era bonito, nem affavel, era secco, andava com as pernas muito juntas, e com a cara no chão, procurando alguma cousa. A linguagem delle era tal qual a pessoa, tambem secca, e tambem andando com os olhos no chão, uma linguagem que, para ser de cosinheiro, só lhe faltava sal. Não tinha ideias, não apanhava mesmo as dos outros; abria a bocca, dizia isto ou aquillo, tornava a fechal-a, para abrir e repetir a operação.

Muitas amigas de Cecilia admiravam-se da paixão que este Juvencio lhe inspirára; todas contavam que cra um passatempo, e que o archanjo que devia vir buscal-a para leval-a ao paraizo, estava ainda pregando as azas; acabando de as pregar, descia, tomara-a nos braços e sumia-se pelo céu acima.

Appareceu Rossi, revolucionou toda a cidade. O pae de Cecilia prometteu á familia que a levaria a ver o grande tragico. Cecilia lia sempre os annuncios, e o resumo das peças que alguns jornaes davam. Julieta e Romeo encantou-a, já pela noticia vaga que tinha da peça, já pelo resumo que leu em uma folha, e que a deixou curiosa e anciosa. Pediu ao pae que comprasse bilhete, elle comprou-o e foram.

Juvencio, que já tinha ido a uma representação, e que a achou insupportavel (era Hamlet) iria a esta outra por causa de estar ao pé de Cecilia, a quem elle amava deveras; mas por desgraça apanhou uma constipação, e ficou em casa para tomar um suadouro, disse elle. E aqui se vê a singeleza deste homem, que podia dizer emphaticamente, — um sudorifico; — mas disse como a mãe lhe ensinou, como elle ouvia á gente de casa. Não sendo cousa de cuidado, não entristeceu muito a moça; mas sempre lhe ficou algum pezar de o não ver ao pé de si. Era melhor ouvir Romeo e olhar para elle...

Cecilia era romanesca, e consolou-se depressa. Olhava para o panno, anciosa de o ver ergner-se. Uma prima, que ia com ella, chamar-lhe a attenção para as toilettes elegantes, ou para as pessoas que iam entrando; mas Cecilia dava a tudo isso um olhar distrahido. Toda ella estava impaciente de ver subir o panno.

— Quando sobe o panno? perguntava ella ao pae.

— Descança, que não tarda.

Subiu afinal o panno, e começou a peça. Cecilia não sabia inglez nem italiano. Lera uma traducção da peça cinco vezes, e, apezar disso, levou-a para o theatro. Assistin ás primeiras scenas anciosa. Entrou Romeo, elegante e bello, e toda ella commoveu-se; viu depois entrar a divina Julieta, mas as scenas eram indifferentes, os dous não se fallavam logo; ouviu-os, porém, fallar no baile de mascaras, adivinhou o que sabia, beben de longe as palavras eternamente bellas que iam cair dos labios de ambos.

Foi o segundo acto que as trouxe; foi aquella scena immortal da janella que commoven até ás entranhas a pessoa de Cecilia. Ella ouvia as de Julieta, como se ella propria as dissesse; ouvia as de Romeo, como se Romeo fallasse a ella propria. Era Romeo que a amava. Ella era Cecilia on Julieta, ou qualquer outro nome, que aqui importava menos. que na peça. «Que importa nm nome?» perguntava Julieta no drama; e Cecilia com os olhos em Romes parecia perguntar-lhe a mesma consa. Que importa que eu não seja a tua Julieta, sou a tua Cecilia; seria a tua Amelia, a tua Marianna; tu é que serias sempre e serás o meu Romeo.

A commoção foi grande. No fim do acto, a mãe notou-lhe que ella estivera muita agitada durante algumas scenas.

— Mas os artistas são bons! explicava ella.

— Isso é verdade, accudiu o pae, são bons a valer. Eu, que não entendo nada, parece que estou entendendo tudo...

Toda a peça foi para Cecilia um sonho. Ella viveu, amou, morreu com os namorados de Verona. E a figura de Romeo vinha com ella, viva e suspirando as mesmas palavras deliciosas. A prima, á salida, cuidava só da sahida. Olhava para os moços. Cecilia não olhava para ninguem, deixara os olhos no theatro, os olhos e o coração...

No carro, em casa, ao despir-se para dormir, era Romeo que estava com ella; era Romeo que deixou a eternidade para vir encher-lhe os sonhos. Com effeito, ella sonhou as mais lindas scenas do mundo, uma paizagem, uma bahia, uma misea, um pedaço d’aqui, outro d’alli, tudo com Romeo, nenhuma vez com Juvencio.

Nenhuma vez, pobre Juvencio! Nenhuma vez. A manhã veiu com as suas cores vivas; o prestigio da noite passára um pouco, mas a commoção ficara ainda, a commoção da palavra divina. Nem se lembrou de mandar saber de Juvencio; a mãe é que mandou lá, como boa mãe, porque este Juvencio tinha certo numero de apolices, que... Mandou saber; o rapaz estava bom; lá iria logo.

E veiu, veiu á tarde, sem as palavras de Romeo, sem as ideias, ao menos de toda a gente, vulgar, casmurro, quasi sem maneiras; veiu, e Cecilia, que almoçara e jantara com Romeo, lera a peça ainda uma vez durante o dia, para saborear a musica da vespera, Cecilia apertou-lhe a mão commovida, tão sómente porque o amava. Isto quer dizer que todo amado vale um Romeo. Casaram-se mezes depois; tem agora dons fillos, parece que muito bonito e intelligentes. Sahem a ella.

Machado de Assis.