Cysne branco

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Cysne branco
por António Feijó


A Alberto d'Oliveira


Cysne branco, esquecido a sonhar no alto Norte,
Vendo-se, ao despertar, das neves prisioneiro,
Ergue os olhos ao ceu, enublados de morte,
Mas o sol já não vem romper-lhe o captiveiro.

O gêlo, no lençol todo immovel das ondas,
Em que a aurora boreal põe reflexos de brasas,
Deslumbra-lhe um momento as pupillas redondas,
Dá-lhe a illusão do sol, mas não lhe solta as asas.

Vê que o torpor do frio o invade lentamente;
Debate-se, procura o cárcere romper;
Mas a asa é d'arminho, o gêlo é resistente:
Tem as pennas em sangue e sente-se morrer.

Então põe-se a cantar, sem que ninguem o escute;
Solta gritos de dor em que lhe foge a vida;
Mas essa dor, se ao longe um echo a repercute,
Parece uma canção no silencio perdida...

Melodia que a voz da Saudade acompanha,
Amarga e triste como o exilio onde agoniza,
Longe do claro sol que outras paysagens banha,
Dos rios e do mar que outra alvorada irisa.

Voz convulsa a chorar perdidas maravilhas:
— Tardes occidentaes de sanguínea e laranja,
Noites de claro ceu, como um mar cheio d'ilhas,
Manhãs de seda azul que o sol tece e desfranja!

Mas ao longe, á distancia onde a leva a Saudade,
Tão esbatida vae essa triste canção,
Que não desperta já commoção nem piedade:
Encanta o ouvido, mas não chega ao coração.

E o Cysne, abandonado ao seu destino, expira,
Hallucinado e só, sob o silencio agreste,
Pensando que no azul, como um mar de saphira,
Os astros a luzir são a geada celeste...