D. Pedro II. (Esboço biographico)

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D. Pedro II. (Esboço biographico)
por Machado de Assis
Biografia publicada em 1859 na revista O Espelho, identificada como de autoria de Machado de Assis em 2020. Grafia original mantida na transcrição.

D. Pedro II.

(Esboço biographico)

Si descrever a vida de um amigo ou de qualquer outro homem é um encargo por demais penoso, quanto mais não será o enumerar os principaes acontecimentos que se tem dado na d'aquelle, que pelo voto do povo acha-se collocado em uma altura d'onde elles mal podem ser apreciados!

Não é, pois, uma analyse completa da vida do Imperador, que aqui pretendemos traçar: esta tarefa pertencera mais tarde ao historiador, que, dia por dia, conto seu escalpello, aprofundar-se-ha no estudo ainda das menores circumstancias.

O historiador tem um reinado inteiro, pode apreciar os factos pelas consequencias que se seguiram, pode mesmo penetrar as intenções; tem espaço, tem vagar, convem-lhe estender-se; a nós falta espaço nas acanhadas columnas d'esta revista, falta-nos tempo, e sobretudo falta-nos um dos ramos mais proficuos para o historiador — o assumpto político. As conveniencias impõem-nos esta falta, ou antes o calculo impõe-nos este silencio.

Consideraremos, pois, a vida de D. Pedro II como a vida do um homem, pela mão do Deus ou do destino collocado acima dos outros homens, para reinar e zelar os seus interesses.

Um dia ha que se tornou notavel para o Brasil, o dia 19 de Janeiro do 1808, em que chegou o principe regente, que depois fundou o imperio americano.

Descendente de uma das tres principaes casas reinantes da velha Europa, a dos Bourbons e a de Bragança e Austria, trouxe comsigo aquelle principe o germen do mais lisongeiro futuro para o grande paiz, que mais tarde, talvez não nos nossos dias, pode vir a occupar um importante logar no mappa das nações.

O Brasil era ainda colonia de Portugal quando aqui chegou o imperador Pedro I.

Não citaremos as numerosas datas quo succederam á sua chegada: fora isto entrar na politica, que terá erros, terá virtudes, mas cuja analyse deixamos de parte.

D. Pedro I tinha por esposa D. Carolina Josepha Leopoldina, Archiduqueza d'Austria. D'este consorcio cinco filhos nasceram: D. Maria da Gloria, depois Rainha de Portugal e hoje fallecida, D. Januaria, condessa d'Aquila, D. Paula, fallecida a 16 de Janeiro do 1833, D. Francisca, princeza de Joinville, e D. Pedro, hoje Imperador do Brasil.

Na pia baptismal recebeu o principe os nomes de Pedro de Alcantara, João, Carlos, Leopoldo, Salvador, Bibiano, Francisco, Xavier de Paula, Leocadio, Miguel, Gabriel, Raphael, Gonzaga.

Contava apenas um anno quando sua mãe morreu, a 11 do Dezembro de 1826; cinco annos depois, a 7 de Abril de 1831, teve de separar-se de seu pai, recebendo n'esta separação o sceptro do maior imperio das duas mais conhecidas partes do mundo.

Durante a sua maioridade esteve á frente dos destinos do Brasil o conselheiro J. Bonifacio de Andrade e Silva a cujos cuidados D. Pedro I confiou a educação de seu filho, e depois o marquez de Itanhaem. Os mais respeitaveis mestres d'aquele tempo esmeraram-se por darem ao principe uma educação digna do povo sobre que em breve começaria a reinar.

A 23 do Julho de 1840 foi proclamada sua maioridade, e prestado o juramento no Senado, assumio o poder tendo apenas a idade de 14 annos e meio. Foi inaugurado este reinado com uma geral annistia, de que resultou a pacificação da provincia do Maranhão, que estava então revolucionada.

Um anno depois, isto é a 18 de Julho de 1841, foi sagrado e coroado.

A 30 de Maio de 1843 celebrou-se em Napoles, na capella Palatina, o seu casamento com a princeza D. Thereza Christina Maria de Bourbon, irmã da rainha mãe de D. Isabel II de Hespanha, e do rei D. Fernando de Napoles, hoje fallecido.

Nesta cerimonia figurou como procurador de D. Pedro II o conde de Syracusa, princepe real das Duas Secilias e irmão da nossa imperatriz.

A 4 de Setembro do mesmo anno, isto é, um anno depois da chegada de S. M. teve logar na capella imperial, a cerimonia das bençãos nupciaes.

Deste consorcio nasceram quatro filhos: a 23 de Fevereiro de 1845 o principe D. Pedro Affonso, fallecido a 11 de Julho de 1847; a princeza D. Isabel Christina Leopoldina Thereza, a 13 de Julho de 1847; e a 19 de Julho de 1848 o principe D. Pedro Affonso, fallecido a 11 de Janeiro de 1850.

Por fallecimento dos dous principes, a Sra. D. Izabel assumio o titulo de princeza imperial como herdeira presumptiva do throno.

Foi tambem durante o reinado do actual imperador que se deram: a revolução da Bahia, em 1837, geralmente conhecida por Sabinada, a do Rio Grande do Sul em 1841, as de Minas e S. Paulo em 1842, e finalmente a de Pernambuco em 1848.

Simplesmente assignalamos estes factos, guardando-nos de commental-os, porque, como já fizemos vêr, não pretendemos n'este simples artigo entrar em uma apreciação politica.

Tão pouco descreveremos os episodios lamentaveis que acompanharam estes tristes acontecimentos; fora preciso para isto referir todos os horrores, que da parte sitiantes e sitiados appareceram como um protesto á civilisação nascente e as scenas de proscripção que então se deram.

De todas estas revolucões restam ainda hoje vestigios desoladores.

Durante o reinado do actual imperador tem o Brasil tido sensivel desenvolvimento industrial e moral. Algumas edificações monumentaes que já temos simbolisarão para o futuro a grandeza d'este reinado e a previdencia com que á sombra d'elle se tem zelado a sorte das classes soffredoras de nossa sociedade. O hospital da Santa Casa da Mizericordia, o Hospicio de Pedro II, o instituto dos surdo-mudos e muitas outras associações de caridade, tem sido instituidas n'estes ultimos annos com a immediata protecção do imperador, que não pode nem saber recusal-a todas as vezes que se trata de soccorrer a humanidade. — O pobre, o desgraçado, seja nacional ou estrangeiro, sempre encontra no monarcha do Brasil um amigo que sente os seus padecimentos, procurando suavisal-os, já com palavras doces e sinceram, já com dinheiro, que mais de uma vez tem pedido emprestado não sendo para outro fim.

Para conhecer-se a que subido gráo chega a magnanimidade do imperador, basta considerar-se a abnegação de si proprio faz pelo bem do seu povo. Disto tivemos uma prova eloquentissima, quando se tratou da construcção de um palacio digno da monarcha americano; por esta occasião disse elle que a construcção do palacio podia se adiar, emquanto que o dinheiro que com ella se despenderia melhor seria applicado no desenvolvimento da colonisação.

Quando todo este immenso paiz foi invadido pelas duas ultimas calamidades que tantos filhos deixaram na orfandade, tantas mulheres na viuvez, e tantos pais na dor, na saudade e no martyrio, só Deus sabe quanto aquelle coração se affligiria! Só Deus sabe o sentimento que ia alli dentro, quando, esquecendo-se de si mesmo, como Christo, descia até a choupana do pobre para com mão amiga consolar os soffredores.

Mas, para que recordar ainda tantos exemplos de amor e de caridade, quando todos tem presente as virtudes que ornam aquelle coração de rei... de rei, não dizemos bem, de christão?

Duas nobres qualidades tem o imperador, que sempre acompanharão a sua memoria: a da fé evengelica e a do amor pelo seu paiz, que o faz nivelar-se com o mais humilde de seus concidadãos.

Além d'estas qualidades de um coração bem formado e educado nos sãos principios da moral e da religião, o monarcha brasileiro presa-se de ser o cultor e amante protector das letras patrias. Em diversas associações entre nós findadas todas o veem representado no seu nome, nos donativos que faz o bem de sua prosperidade, e mesmo quando pôde dispor de algumas horas de sua afadigada vida, ainda todas o veem animar com a sua presença as reuniões litterarias dos nossos jovens estudiosos.

É o que imperador reconhece, e mui bem, que sobre a illustração assenta-se a moralidade de um povo, o seu adiantamento, a sua civilisação; e sendo a mocidade o esteio do futuro, cumpre preparal-a de modo que as esperanças hoje sonhadas possam ser uma realidade nos dias que hão de vir.

Cremos não ser necessario registrar aqui o gráo de estima em que é tido o monarcha do Brasil: qualquer coisa que dissessemos ficaria muito a quem de todas essas manifestações que não poucas vezes temos presenciado. Ainda ultimamente não vimos nos semblante de todos os fluminenses desenhar-se o sentimento da mais intima saudade quando teve elle de partir para o norte? Não temos noticia das demonstrações, não d'essas demonstrações officiaes e moldadas pelo apparato das côrtes, mas sinceras e expansivas, com que os nossos irmãos do norte tem festejado? Não nos recordamos ainda do acolhimento que recebeu não ha muitos annos quando seguiu viagem para as provincias do sul do imperio, e outras do nosso littoral?

O que mais resta-nos dizer, quando temos mais alto que as nossas palavras todas essas provas inequivocas da affeição de um povo inteiro?

Terminando este ligeiro artigo, cumpre-nos ainda enumerar as differentes condecorações com que os soberanos estrangeiros tem mimoseado o imperador D. Pedro II, prestando assim um culto de respeito e estima as suas eminentes qualidades; são ellas as seguintes: Grão-Cruz das ordens da Legião de Honra, de França; de todas as da Russia; de Leopoldo I, da Belgica; de Santo Estevão, da Hungria; do Elephante, da Dinamarca; de S. Fernando, e de S. Januario, das Duas Sicilias; da Real do Salvador, da Grecia; do Leão Neerlandez, de Hollanda; da Muito Nobre e antiga Ordem da Torre e Espada do Vallor, Lealdade e Merito, e da Conceição de Villa-Viçosa, de Portugal; da Imperial Angelica Constantiniana de S. Jorge, de Parma; da Aguia Negra, da Prussia; da Estrella do Norte, e dos Serafins, da Suecia; e Cavalleiro das Ordens do Tosão d'Ouro, de Hespanha; e da Annunciada, da Sardenha.