De Belem à concha breve

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De Belem à concha breve
Vilancete publicado em Villancicos que se cantaram na Cappella Real do muito alto, e muy poderoso Rey D. Pedro II Nosso Senhor nas Matinas, & Festa dos Reys, em 1691 (como Villancico III); Villancicos que se cantaram na Cappella Real do muy alto, e muy poderoso Rey D. Pedro II N. Senhor nas Matinas, & Festa dos Reyes, em 1702 (como Villancico I) e Villancicos que se cantarão na See do illustrissimo senhor Antonio de Vasconcellos e Souza, Bispo Conde nas Matinas, & Festa dos Reis de 1708 (como Villlacico V [sic]).


Coplas.

De Belem à concha breve,
Daquelle toſco Portal,[1]
Naõ ſò de perolas concha,
Mas concha em que cabe hum mar.

Hoje os rios vaõ correndo,
Como a centro natural,
Porque como do mar nacem,
Ao mar vão todos parar.

A ver os dous que de novo,[2]
O mar de amor quiz lançar,
Que ſaõ liquidas finezas,
Que em novas enchentes faz.

Correndo vaõ derretidos,
Por mais depreſſa chegar,
Que quem chega mais depreſſa,
He quem ſe derrete mais.

Eſtribillo.

Rios de prata,
De neve, & criſtal,
Correi a eſte centro,
Eſte mar buſcai,
Que nelle o morrer,
He nunca acabar.

II. Coplas.

O rio de ouro correndo,
Inda que pezado, vay,
E ſobre as ondas de prata
Ao Sol leva o ſeu metal.
     Mas ay que farà?
     Vaſe a eſte mar donde o ouro
     Por diamantes trocarà.

Da Arabia dece correndo,[3]
Hum rio o mais principal,[4]
Que bem ſe vè ſer da Arabia,
Pelos aromas, que traz.
     Mas ay que farà?
     Vaſe a eſte mar, donde os fumos
     Da grandeza perderà.[5]

O rio negro de Angola,
Adonde a mirrha ſe dà,
Vay dezejando morrer,
Donde ſe faça immortal.
     Mas ay que farà?
     Vaſe a eſte mar, donde fique,
     O negro feito hum criſtal.

Taõ grandes ſaõ eſtes rios,
De fundo, & largura tal,
Que ſem norte, Sol, & eſtrella,
Se não pode navegar. [6]
     Com elles os mares,[7]
     Vaõ-ſe a eſte mar, cujas agoas,
     Saõ doces ſendo de ſal.

Sejaõ dous olhos os rios,[8]
Que buſquem hoje eſte mar,
E ſeraõ rios de prata,
Num mar, que de ouro hoje eſtà:
     E entaõ ſe verà,[9]
     Que ſó eſte mar com tais rios,
     Poderà bem redundar.[10]

Eſtribillo.

Rios de prata,
De neve, & criſtal,
Correi a eſte centro,
Eſte mar buſcai,
Que nelle o morrer,
He nunca acabar.

Notas[editar]

  1. Em 1691: "De ſeu groſſeiro portal,"
  2. Em 1691: "A ver dous mais, que de novo"
  3. Em 1691: "Deſce de Arabia correndo"
  4. Em 1691: "Hum rio muy principal"
  5. Em 1691: "Da grandeſa deixarà"
  6. Em 1691: "Se naõ pódem navegar." e em 1702 e : "Senaõ podem navegar."
  7. Em 1691 e 1708: "Com elles os mais,"
  8. Em 1691 e 1708: "Sejaõ dos olhos os rios,"
  9. Em 1691: "E certo ſerà,"
  10. Em 1691: "Se poſſa ver redundar."