De Jersey a Granville

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De Jersey a Granville
por Alexandre Herculano
Compilada por Alexandre Herculano, em seu livro Lendas e Narrativas.


Abandonavamos, emfim, o solo d’Inglaterra. Sería pela volta do meio dia quando saltámos no chasse-marée que devia conduzir-nos de Jersey a Saint-Maló, atravessando aquella estreita porção do canal que nos separava da França. Sentimentos encontrados eram nesse momento os meus. O sol resplandecia brilhante, e o ar estava puro e sereno: era um dia d’outono, tão bello como o que mais o fosse em Portugal. De um lado alteava-se a ilha com os seus outeiros e valles, solo anfractuoso semelhante ao nosso, e a povoação com os seus edificios cobertos de telha, que nos faziam esquecer aquelles horriveis tectos inglezes de lousa negra, especie de tabuletas do spleen, penduradas pelos bretões sobre as suas cidades, e em que parece ler-se a inscripção de Dante:


Per me si va nella cittá dolente.

Do outro lado estendia-se o mar, chão e espelhado, que se interpunha entre nós e a França; entre nós e esse paiz, que para a mocidade das nações occidentaes da Europa é como uma segunda patria; porque lá está o centro das idéas que hoje agitam os espiritos, tanto no que respeita ás questões sociaes, como no que interessa á sciencia e á litteratura; porque lá vivem os escriptores que melhor conhecemos; que, até, amâmos como se foram nossos: paiz, a cujos habitos, tradições, successos e glorias nos têm associado os seus livros, sem o sentirmos, sem, talvez, o querermos. Ao approximarmo-nos da França o coração não bate violento, nem se derramam lagrymas, como ao avistar a terra em que nascemos; mas o animo desaffoga-se, e abre-se á esperança; vamos tractar homens, que nunca vimos, mas com quem de largo tempo vivemos pelas intimas relações dos affectos e da intelligencia.

Eramos seis portuguezes a bordo do chasse-marée, além de dous marinheiros francezes e um grumete, entidades analogas aos nossos antigos desembargadores; porque cada um delles cumulava seis ou sete cargos daquella vacillante e pequena republica, cargos disparatados, que, todavia, as tres personagens desempenhavam perfeitamente, destruindo assim, em parte, a analogia radical, que tinham com esses magistrados de pedante e pesada memoria, que não desempenhavam bem nenhum. Um cão e tres inglezes completavam a collecção dos animaes inclusos entre as quatro taboas da fragil embarcação.

O chasse-marée é um transporte maritimo, que, na minha profunda ignorancia das cousas navaes, me parece semelhante ao hiate portuguez, ao menos na immundicie e na carencia absoluta de tudo o que seja commodidade. N’isto, entre parenthesis, não sou eu ignorante; porque tenho experimentado uns e outros, e posso asseverar que sería mui difficultoso de resolver qual dos dous generos de navios tem parentesco mais proximo com as rudes e acanhadas galés, em que, ha sete seculos, Guilherme o conquistador transportou, através daquelle mesmo canal, da Normandia para Inglaterra os ascendentes da actual aristocracia britannica.

Commoda ou incommoda, era necessario aproveitar aquella detestavel jangada para passarmos a França, e isto por duas razões urgentissimas; a primeira, porque nenhuma outra embarcação havia no porto de Saint-Hélier com destino immediato para a costa fronteira: a segunda, porque o preço da passagem era apenas uma libra esterlina, e uma libra esterlina era o folego maior que podia saír da bôca das nossas bolsas, cuja phtysica pulmonar ia já no ultimo periodo. Tendo-nos, portanto, ajustado com o marinheiro que capitaneava o outro marinheiro, e havendo mettido a bordo os nossos bahus, que, pelo leve e desempedido, podiam servir-nos de botes de salvação em caso de naufragio, saímos da caldeira de Saint-Hélier com uma brisa forte da terra, que brevemente nos arremessou para o largo. Era muito depois do meio dia. Algumas nuvens brancas do lado do poente recortavam as suas franjas irregulares sobre o chão do céu, que a luz do sol tornava de um azul desbotado. Raras e diaphanas, aquellas nuvenzinhas balouçavam-se no ar, ao que parecia, mais voluptuariamente do que nós, que sentiamos arfar, pinchando d’entre as vagas crespas, o nosso pequeno baixel. Pouco a pouco esses vapores accumulados, cujos contornos occidentaes barravam orlas de ouro, engrossaram, tomando fórmas determinadas. Depois, correndo gradualmente mais rapidas, e interpondo-se entre os raios do sol já inclinados e o vulto rugoso das aguas, lhes remendavam o dorso semelhante á pelle mosqueada do tigre. Este jogo da luz dava ao mar um aspecto verdadeiramente accorde com a sua natureza. Que é elle, de feito, senão a mais terrivel das bestas-feras?

E o vento refrescava de instante a instante, e os mastros do chasse-marée principiavam a soltar de quando em quando um gemido doloroso, curvando-se para as vélas quadrangulares retesadas diante delles.

O grumete ía ao leme: o marinheiro, que representava e resumia a companha, de bruços e com os joelhos sob o ventre, no ademan de um gato que se apresta a saltar sobre o murganho immovel de terror, parecia examinar os novellos de nuvens tenebrosas, que se rolavam no horisonte e cresciam para nós, como uma visualidade de camara obscura. A barlavento o arraes ou capitão (capitaine lhe chamavamos nós pelo menos) que representava e resumia a officialidade do navio, com o corpo torcido, e encostado á amurada, firmando a barba nos braços cruzados em cima da borda, tambem parecia esquadrinhar o céu e o mar. Dir-se-hia que o encapellar das ondas se regulava e media pelas rugas que successivamente augmentavam em numero e profundeza na fronte tostada do antigo marujo. Um susto vago e inexplicavel como que pairava no meio de nós. Era que a postura e o gesto daquelles dous homens tinham um não sei que sinistro e mysterioso, semelhante ao bofar morno do vento que precede e annuncia a procella.

Nós os passageiros, assentados n’uma especie de canapé mal affeiçoado, que circumdava a coberta á pôpa, tinhamos insensivelmente cahido em completo silencio; ou, para falar com mais exacção, nós os portuguezes eramos os que nos haviamos calado; porque nem o cão, nem os tres inglezes tinham proferido, aquelle um só ladro, estes um só grasnido desde o momento em que saltaram a bordo, na abra de Saint-Hélier. O unico ruído que sussurrava era o ranger do baixel, e o sibilo de vento embatendo em nós, e abysmando-se nos nossos ouvidos, o que nos fazia escutar um som semelhante ao do pinhal que se estorce e vérga ao redemoinharem-lhe por entre as ramas os mil braços da tempestade nocturna.

Dos tres inglezes um velho de cabeça inteiramente branca e rosto inteiramente vermelho dava certidão, nas cans, de que a agua do baptismo passára por alli havia muitos annos, na côr da tez dava-a de que tambem não havia poucos que elle, levado de um sancto respeito pela materia do principal sacramento, abjurára de coração o tocar-lhe com os labios, contentando-se de humedece-los com os tres liquidos fundamentaes de todos os contentamentos possiveis entre os netos dos kimhris e saxonios—­o rhum, o vinho e a cerveja. Dos outros dous, um mostrava ser inglez de cincoenta annos, outro de quarenta; o primeiro, magro, da altura de cinco para seis pés craveiros, faces encovadas, nariz meridional, ou antes judaico, isto é, prominente e adunco, tez não tanto morena como macilenta: o segundo, typo saxonico, isto é, rosto largo e achatado, olhos azues, guedelhas louras, bôca profundamente vincada nas extremidades do beiço inferior, de aspecto aborrido e orgulhoso, como se todo o fumo de carvão de pedra britannico o cercasse com a sua auréola de gloria nacional. De resto não havia que duvidar-lhes da patria: indicava-a o cheiro dos seus vestidos, suavemente impregnados do fartum sebaceo de carneiro, e aromatisados com os effluvios nauseantes da infusão do chá preto, os quaes constituem a formula odorifera da sociedade politica chamada os tres reinos unidos.

Pois tambem ha cheiros nacionaes?—­dirá o leitor.—­Que duvida! Cada nação tem a sua crença, a sua lingua, e o seu cheiro. O credo inglez é representado não sei ao certo por quantos centenares de seitas, que se mandam reciprocamente para o inferno, desde a igreja anglicana, em que os bispos e arcebispos (poetas, amphytriões, millionarios e politicos) bradam anathema contra as vaidades, luxo e cubiça de Roma, até os methodistas, que vão para os seus templos caçar as inspirações de cima, inspirações que muitas vezes são papadas por velha fanatica e tonta, e ouvidas pelos seus irmãos com uma compunção que daria vinte comedias a Gil Vicente se hoje vivesse, e viajasse pelo Might Empire do vapor e da cerveja.

A brisa, que ao saírmos de Jersey era em pôpa, rodou successivamente para noroeste, e antes do pôr do sol soprava já violenta do lado do oeste. Nós seguiamos, pouco mais ou menos, o rumo do sul, e a mudança do vento, posto que ameaçadora, tinha sido momentaneamente uma vantagem de commodidade: o chasse-marée corria á bolina, e por isso o seu arfar se tornára mais suave. No horisonte, quasi pela pôpa, divisavamos ainda o promontorio de Noirmont, e pela nossa esquerda prolongavam-se quasi imperceptivelmente as costas de França, como uma linha negra lançada ao través dos mares. O silencio que reinava a bordo dava certa melancolia solemne ao quadro do céu nublado, das vagas revoltas, e da terra que parecia quasi desvanecer-se na orla das solidões do oceano.

O inglez velho, que ía justamente assentado á minha direita, a pouco mais de meia milha de Saint-Hélier começou a empallidecer. O ar marinho é inimigo figadal do fastio, e por isso, teriamos apenas navegado duas horas, quando começámos a experimentar, nós os portuguezes pelo menos, a immutabilidade inflexivel desse axioma dietetico. Tirámos algumas das nossas provisões, e pozemo-nos a despachar os requerimentos do estomago. Offereci ao velho que tomasse parte naquella refeição; mas elle recusou, declarando-se sea-sick (enjoado); todavia para não perder, como verdadeiro inglez, os prós da minha boa vontade, entendeu que podia trocar uma obra de misericordia por outra, e, deixando-se escorregar do banco ao convez, fincou-me sobre os joelhos a cabeça entontecida, e cerrou os olhos. Recommendei então a Deus os meus pobres ossos cruraes, ameaçados de chegarem a França em estado de para nada prestarem, visto ser a cabeça do velho uma verdadeira cabeça ingleza; dura, pesada, e macissa, como o governo da Companhia na Asia.

Porque não repellia eu a familiaridade ominosa do bom do inglez; de um homem cuja nação, como portuguez, tenho a obrigação moral de desamar? Era porque em contrario havia duas considerações igualmente moraes. Uma cabeça branca é sempre respeitavel, ainda que assente sobre o tronco ermo de coração de um filho da Gran-Bretanha. Além d’isso, o cesto de verga em que íam as nossas provisões estava alli como um espectro, que me embargava sacudir a fronte do ancião para o travesseiro macio do convez gordurento. O porque desta acção sympathica do cesto sobre o meu espirito di-lo-hei em breves palavras: é uma historia como qualquer outra.

Miss Parker de Plymouth era uma donzella de sessenta annos; excellente creatura, que nos hospedára por dous mezes naquella cidade, mediante a bagatella de tres shellings semanaes por cabeça. A Inglaterra, como todos sabem, é o paiz da franca e sincera hospitalidade. Eramos ahi nove portuguezes, em seis camas e tres aposentos, o que dava certo ar pythagorico e mysterioso á familia, que, dirigida por Miss Parker, podia servir de modelo ás outras ninhadas de emigrados que ainda viviam em Plymouth. Ninguem tinha uma patroa como nós, e os seus lodgings eram a perola das albergarias de Plymouth. A principio havia-se encarregado de nos preparar a comida; mas poucos dias podémos resistir aos abominaveis temperos do paiz. É precisa uma raça de estomagos que ainda fosse antropophaga no meado do quinto seculo da era christan para luctar vantajosamente com a cosinha d’Inglaterra, e estes estomagos só os inglezes os possuem, segundo o testemunho do seu historiador Gibbon. Os nossos cederam a tão dura prova, e vimo-nos obrigados a dispensar Miss Parker do mister de nos envenenar. Quanto ao mais eramos verdadeiramente seus filhos em espirito, em espirito, digo, porque, afóra muitas reflexões pias de que se dignava fazer-nos, a nós pobres idolatras do catholicismo, obrigava-nos a respeitar o domingo no pleno rigor da igreja anglicana; isto é, a morrer de tedio e tristeza, prohibindo em sua casa todo o genero de divertimento, ainda o mais innocente, desde pela manhan até sol posto, momento em que naquelle abençoado paiz Deus cede ao diabo o resto do dia dominical, e em que a devassidão e a embriaguez, tripudiando nos prostibulos e nas tabernas, se vingam das dez ou doze horas de sermões impertinentes dos clergymen, e de psalmos desafinados pelas vozes roufenhas e prosaicas da turbamulta, debaixo das abobadas sanctas, poeticas e venerandas das antigas igrejas catholicas, repartidas hoje em camarotes de theatro pela pureza aristocratica e beata do protestantismo inglez.

Miss Parker foi o unico folego vivo da Gran-Bretanha, a quem, na minha estada em Inglaterra, devi um beneficio: quando partimos para Jersey deu-nos um cabazinho em que levassemos a nossa matalotagem, e derramou algumas lagrymas ao despedir-se de nós. Aquelle cabazinho era o que estava ante mim, e me sustinha em cima dos joelhos a cabeça do velho. Sobre as vagas procellosas do canal da Mancha eu soldava assim as minhas contas com a Inglaterra.

O vento continuava a rodar para sudoeste, e os nossos dous marinheiros colheram parte do panno e mudaram algum tanto de rumo: depois tornaram a assentar-se na mesma postura em que estavam, e tudo voltou ao anterior silencio, que só era interrompido pelo marulho das ondas espalmando-se no costado do chasse-marée.

Mas um flagicio, mais abominavel ainda que os condimentos ferozes da cozinha ingleza, veio cortar atrozmente este silencio triste, que representava no meio de nós a previsão de imminente procella.

O inglez alto, de gesto esguio, e nariz hebraisante, tinha-se assentado ao pé do outro inglez affeiçoado pelo typo saxonico, no topo esquerdo da banqueta corrida á pôpa. Duas ou tres vezes, desde que levámos ferro, elle dirigiu ao companheiro uma rosnadura, a que este respondeu com o estirado monossyllabo Yes. Á quarta vez, aquella resposta laconica foi proferida com certa melopéa de resignação, que cortava os fios da alma, e acompanhada de um volver d’olhos azues, em que se pintava uma supplica de piedade. Mas o inglez aguçado carregou o sobr’olho, e, mettendo a mão ao seio, poz-se a procurar o que quer que era na algibeira interior de uma das quatro sobrecasacas que tinha vestidas. Eu observava esta scena; sabia o que póde o spleen, e o receio de algum anglicidio passou-me pela mente, ao contemplar o aspecto torvo de um e o gesto confrangido e timido de outro. O vento sibilava violento, as aguas começavam a tingir-se de negro, e o céu estava completamente toldado; era meio poema britannico. Um tiro de pistola e um cadaver baldeando no mar completariam uma epopéa. Nas feições do inglez esgrouviado parecia-me ler duas palavras—­Spleen e Poeta—­e por isso os meus temores não eram tão infundados, como, no primeiro momento, talvez os tenha julgado o leitor.

E o mais era que eu acertára farejando em Mr. Graham Senior (eram os dous inglezes irmãos, segundo depois soubemos) um fazedor das regrinhas, que na lingua ingleza correspondem ao que nas linguas do meio-dia é e se chama versos. O honrado Mr. Graham não procurava na algibeira o amago e substancia da idealidade e poesia britannicas, a pistola suicida. Não! Era cousa mais atrozmente assassina; era um quaderno grosso de letra microscopica, em que provavelmente se continham as suas inspirações ineditas! Estava explicada a longa taciturnidade dos dous. O perverso meditava aquelle fratricidio intellectual desde a partida de Saint-Hélier, e os quatro grunhidos abafados que lhe ouviramos tinham sido quatro tentativas para predispor a victima. De feito, quando elle sacou o alentado canhenho, Mr. Graham Junior parecia inteiramente resignado.

Aquelle atenazador das orelhas do proximo começou a sua leitura pela primeira pagina. Era um algoz de consciencia, e já se podia prever que tinha a boa tenção de atormentar-nos emquanto durasse o dia, que felizmente se inclinava a seu termo. Como me foi possivel, percebi aos trinta ou quarenta versos que era um poeta da eschola de Pope, ou como quem o dissesse entre nós, um poeta da Arcadia. Cá teria falado em Jove, Marte e Neptuno, nas musas, nos zagaes, nas nymphas, na tuba de Calliope, ou na sanfona não sei de que deusa: lá, nas inspirações de Mr. Graham, eram as paixões, os vicios, os affectos personalisados quem fazia o serviço dos seus poemas: aqui a esperança, alli o desalento; ora a temperança, logo a desenvoltura. Aquella poesia frigidissima fazia-me lembrar do Olympo, do Pindo e da Castalia dos nossos arcades, e de algum modo me consolava das miserias domesticas, ao vêr que a poesia cadaverica das fórmas e convenções não vivia unicamente entre nós, mas ainda ousava no canal da Mancha misturar as suas semsaborias academicas com o bramido terrivel do vento, e com o ferver estrepitoso das vagas, que entoavam accordes a sublime invocação da procella.

O poeta esguio declamava as suas regrinhas lentamente e com todos os requebros da melopea ingleza, genero de canto semelhante ao gemer rabugento de uma creança na primeira dentição. O pobre diabo, posto que provavelmente acreditasse que nenhum de nós o entendia, pensava por certo que, nova especie de Orpheu, bastavam os sons das suas palavras harmoniosas para nos arrebatarem e extasiarem, a nós selvagens da Europa, como com tanta graça e verdade denominam os escrevinhadores de John Bull os habitantes da Peninsula! Pensava assim, de certo; porque de quando em quando volvia para nós os olhos com aquelle sorriso de complacencia estupida, que é peculiar na cara de um inglez vaidoso e contente de si.

Um dos exemplos mais lamentaveis da cegueira do espirito humano é a persuasão em que os escriptores de Inglaterra estão de que possuem uma lingua litteraria falada; isto é, que os sons quasi inarticulados do seu chilrear e grunhir correspondem sufficientemente aos grupos de caractéres alphabeticos, de que elles se servem para representarem os proprios pensamentos. Todavia a lingua escripta de Inglaterra nada tem que ver com a linguagem em que a nação se exprime: são dous typos diversissimos, que dão fórma sensivel ao pensamento. Abri um livro escripto em qualquer outro idioma da Europa, e fazei ler por elle um estrangeiro completamente ignorante desse idioma: o natural do respectivo paiz, aquelle que o falou desde a infancia entenderá tudo ou quasi tudo, se escutar essa leitura. Fazei a mesma experiencia com um livro inglez: o natural de Inglaterra não entenderá provavelmente uma unica palavra. É que na realidade entre este povo, em tudo singular, os signaes chamados letras não tem um valor constante e determinado, e por isso não podem corresponder rigorosamente a um som.

A Inglaterra ha visto nascer no seu gremio grandes poetas. Shakspeare e Byron bastariam para lhe dar uma celebridade immensa. Mas a sua poesia reside toda no pensamento, na essencia da arte. As fórmas externas são rudes, barbaras, ou fluctuantes. Shakspeare e Byron foram dous selvagens, um porque estava além da civilisação, outro porque estava áquem della; mas foram talvez as duas almas mais sublimemente poeticas da Europa. Porque, pois, não souberam ajunctar a melodia material ás harmonias intimas das suas ideas? Foi porque não podiam converter em palavras humanas o intoleravel grasnido dos seus compatriotas.

Uma cousa que sempre me acontece em ouvindo falar um inglez é notar as mysteriosas analogias que ha constantemente entre a lingua de qualquer povo e os seus habitos de moralidade. Considerae por exemplo a lingua alleman: é um idioma perfeitamente accentuado; os vocabulos escriptos correspondem rigorosamente aos falados: não ha ahi luxo inutil de letras: todas se proferem; todas representam um som ou uma articulação. Os caractéres do alphabeto nunca serviram para enganar o estrangeiro. Não achaes n’isto uma expressão do animo leal, franco e singelo daquelle povo? A Deutsche Treue, a fé germanica, não se reflecte como em um espelho da lingua desse paiz? Agora escutae um inglez: dous terços de cada palavra, como a representam os signaes alphabeticos, não se proferem: devora-os o leitor: são uma armadilha para obrigar os labios peregrinos a darem syllabadas: o inglez pronuncia com os dentes cerrados, como se temesse que essas palavras-ouriços lhe fizessem, ao perpassarem, os labios em sangue. Não achaes n’isto um typo de cubiça e avareza? Um pensamento enganoso? O algodão tecido á sorrelfa com a lan? Não descubris lá o pensamento do tractado de Methuen, ou do desembarque de Quiberon? Não se revela no coaxar das rans de Wordsworth e dos poetas dos lameiros o British Interest?

Taes eram as reflexões em que eu estava embebido emquanto o poeta mastareu acreditava ter-nos enleiados a todos com as mellifluas toadas do seu poetico lavor. A noite, entretanto, tombando de castello em castello de nuvens, lançava sobre o dorso do mar revolto o seu manto de obscuridade. O sectario de Pope cedeu então ás trévas: fechou o canhenho, e resguardou-o outra vez dos olhos profanos debaixo da meia fabrica de Leeds, que fora absorvida na mole immensa dos seus quatro casacões.

Mr. Graham Junior, apenas seu respeitavel irmão cessou de ler, volveu para elle o rosto melancholico, e murmurou, depois de um suspiro:

Aye!—­Very good!

Com os tres Yes precedentes fazia a conta de seis palavras, ou grasnos, que despendêra naquelle dia Mr. Graham Junior.

Dous inglezes ridiculos são incontestavelmente as duas cousas mais ridiculas deste mundo.

O temporal que se preparára durante a tarde desfechou em cima de nós com o cerrar da noite. O vento saltára inteiramente ao sul, de modo que nos ficava ponteiro. As vagas accumulavam-se em serras, que, alçando-se e topando em cheio, se enlaçavam e confundiam como dous luctadores furiosos. Depois a mais possante, sumindo debaixo de si o grande vulto da sua contraria, erguia o topo esguio, que vacillava um instante, e cahia desfeita em catadupas de escuma nos valles profundos cavados momentaneamente em volta della. A lucta daquelles vagalhões gigantes, em pé sobre o abysmo das aguas, estreitando-se e despedaçando-se como as hyenas e tigres n’um circo romano, vista assim ao lusco-fusco sob um ceu achatado e cinzento, era uma sublime peleja! Todos os espectaculos da terra—­dos homens ou da natureza—­que são, ou que valem, comparados com a colera da procella que passa no oceano? Menos que farça semsabor de titeres comparada com o Hamlet ou com o Othelo representados por Betterton ou por Garrick. O mysterio dos mares é de todas as obras da creação aquella em que mais profundamente o Senhor estampou o seu verbo; a inscripção indelevel e indubitavel, que narrará perpetuamente ao genero humano o seu infinito poder.

O chasse-marée havia-se posto á capa. O vento não consentia já que surdissemos avante, e o arraes, depois de uma breve conferencia á prôa com o seu companheiro, veio declarar-nos que seria impossivel seguir o rumo de Saint-Maló; que era necessario pôr a prôa nas costas da Normandia, e dirigirmo-nos a Granville; e finalmente, que só ahi poderiamos tocar em terra na manhan seguinte. Recebemos esta desagradavel nova com mais heroica resignação, se é possivel, que a de Mr. Graham Junior ao levar a sova poetica das inspirações fraternas. E que não nos resignassemos! A immutabilidade do nosso destino proclamavam-n’a os silvos do vento, e, o que mais era, a declaração do arraes. Um capitão de qualquer baixel é o absolutismo incarnado: as suas decisões equivalem á fatalidade moslemica. Em muitos sermões politicos, que é a espécie mais impertinente do genero litterario—­sermão—­tenho lido comparações fulminantes contra os tyrannos, buscadas no despotismo asiatico. Se eu cahisse na miseria de fazer eloquencia politica, não ía tão longe busca-las. Saltava no primeiro hiate, chasse-marée, ou sloop, e travando do arraes dizia ao mundo: ecce homo; eis-aqui a flôr, a maravilha, o ideal de todos os despotismos possiveis. Os que andam incommodando Attila, Kulikan, ou Timur, para afferir por elles os tyrannetes quasi-ridiculos da Europa moderna, são dissertadores d’agua-doce, que (para me servir de uma phrase do auctor de Micer Harold) nunca pozeram a mão sobre a juba crespa do oceano. Tyrannia e arraes são synonimos: digam o que quizerem os extirpadores implacaveis das synonimias.

Maitre Jean Legris era um verdadeiro arraes normando: duro, carrancudo, e inexoravel como os piratas do seculo duodecimo seus antepassados, de que tão pavorosas memorias restam nas costas de Portugal e de Galliza. Ouvimo-lo com magoa, mas com respeito, porque não havia replicar. O chasse-marée obedecia ao leme, o leme ao marinheiro, o marinheiro ao capitão, e o capitão, pactuando com o vento, resolvêra empalmar-nos Saint-Maló e a Bretanha, para nos dar em troco Granville e a Normandia. Por isso, antes de nos communicar as suas intenções, mestre João tinha dado a pôpa á tempestade e tomado o rumo de leste. Contava d’antemão com a obediencia, que não lhe podiamos refusar.

Emfim anoitecera: a unica luz que viamos nas campinas do ceu e das aguas era aquella especie de branquejar phantastico e transitorio da escuma, que é para o luar o que um retrato de morte-côr para um vulto original—­menos que frouxissima claridade, e mais que o crepusculo esbranquiçado e indeciso de um corpo alvo e que mal se divisa no meio das trevas.

O chasse-marée, galgando por cima das ondas, no meio do refluxo dellas, devia parecer, visto de longe, um baixel mysterioso e infernal, perseguido por espectros que surgiam successivamente dos abysmos, e que em roda delle dançavam danças maldictas, involtos em seus alvos sudarios.

Bem importavam a Mr. Graham, o fratricida psychologico, aquellas solemnes tristezas de uma noite procellosa! Tirou um frasquinho de aguardente que trazia a tiracollo, bebeu um largo trago, e alevantou-se, dirigindo-se á escotilha da especie de camara que nos ficava de baixo do tombadilho. Era um pinheiro! Quando o vi em pé receei que o sul o partisse; mas nem sequer rangeu. Se me não mente um calculo rapido, Mr. Graham era, ao menos physicamente, um poeta da força de oitenta cavallos, medida britannica: era um poeta de alta pressão: era um poeta warranted, para me exprimir como os laconicos letreiros de todas as peças de fazendas inglezas falsificadas. Mr. Graham Junior seguiu Mr. Graham Senior, non passibus aequis, como mais curto que era. Ouvimos lá embaixo ainda dous ou tres regougos; depois tudo cahiu de novo em silencio.

O velho, que se me encostára sobre os joelhos, apenas viu os seus compatriotas buscarem acolheita para a noite, ergueu-se, e cambaleando chegou á ingreme escada que conduzia á estreita camara. Poz um pé no primeiro degrau, poz o outro no segundo, tornou a pôr aquelle no ar, e disse com o corpo no fundo—­pan!

Era o som d’um cask de cerveja cahindo de vinte pés d’altura. Ouviu-se-lhe um grito rouco e mais dous grunhidos dos seus respeitaveis patricios. Tinha arrebentado o saxonio, ou espalmado o poeta? Talvez ambas as cousas. Corremos a acudir-lhes levados pelo primeiro impulso de humanidade. Os primeiros impulsos, nestes casos, não prestam nem para Deus, nem para o diabo, porque são estupidamente involuntarios. Seja isto dicto, com paz do leitor, como desculpa da nossa caridade, e como descargo de consciencia nacional.

Para clareza desta importante narração é de saber, que apenas viraramos de rumo, o marinheiro substituíra o grumete no governo do leme, como ministro responsavel de mestre João, e o grumete fôra assentar-se á proa no logar que deixára o seu successor, exactamente como um ministro demittido, que vae tomar assento nos bancos da opposição. D’alli olhava para o tombadilho, fazendo a segunda, com um assobiar monotono, ao bramido do vento.

Chegámos dous ou tres á escotilha onde soára o baque do velho. Iamos a descer, a risco de nos despenharmos tambem, quando a cabeça de Mr. Graham Senior começou a surgir como uma visão de Manfredo:


What dost thou see?—­
........................
I see a dusk and awful figure rise.

Á luz da bitacula, que enviava um raio frouxo ao rosto do grumete, o poeta acenou-lhe que se approximasse, sem se dignar sequer de olhar para nós humildes creaturas, que haviamos parado em roda de sua grandeza.

O rapaz chegou-se a Mr. Graham.

Brandy![1] —­rosnou este, com o aspecto temerosamente carrancudo e imperativo de um Nelson dando a ordem de accommetter na batalha de Trafalgar. Dizendo e fazendo, mostrava o seu frasco de aguardente virado de boca para baixo. O rapaz poz-se de novo a assobiar.

Nós então ousámos perguntar a sua extensão se por ventura succedêra algum fracasso aos seus compatricios. Elle lançou-nos um olhar obliquo, e em voz mais alta bradou ao grumete:

Rhum!

“Não ha:—­respondeu o rapaz entre dous assobios.

Bring rhum, boy!—­insistiu o cantor da temperança, já colerico, e fazendo-se desentendido.

Chien d’anglais, não percebes?...”—­exclamou o grumete na sua lingua nativa, com um gesto de impaciencia; e accrescentou voltando-se para nós:

“Que diz este diabo?”

“Que lhe ponhas para alli cachaça:”—­ia eu a dizer, paraphraseando em francez os trez monosyllabos britannicos, quando fui interrompido por um mugido, subito, incisivo, retumbante, que sobrelevou o rugir da tempestade. Soltara-o Mr. Graham, que, cerrando os punhos, com todos os ademanes de um professor de sôcco, crescia já para o pobre grumete, o qual avaliára erradamente a linguistica do poeta. Elle percebêra ás mil maravilhas as duas personalidades de cão e diabo, que ousára dirigir-lhe o imberbe e enfarruscado normando.

Felizmente para este, uma onda galgando exactamente nesse momento a pôpa, veio lavar o tombadilho, e em forte balanço, fazendo perder o equilibrio ao filho da Gran-Bretanha, o estendeu ao comprido na agua que passava em demanda da prôa, com grave perigo do precioso manuscripto do casacão. Estirado sobre a tilhá do chasse-marée, e colleando e bufando para se alevantar, Mr. Graham representava soffrivelmente o papel de um congro tirado naquelle instante do mar. Quando elle, emfim, pôde concluir o plagiato que fizera ao tombo do seu velho compatriota, o grumete tinha-se já retirado ao anterior posto, sobre os escovens, e continuava o seu acompanhamento de assobio ao estrepitar do vento.

Mr. Graham meditou um momento. Parece que o abalo da quéda e a frescura da agua lhe modificaram poderosamente o orgão da combatividade; porque, sem dizer palavra, desceu outra vez para a limitada camara da fragil embarcação.

Este incidente, que passára com grande rapidez, podia ter dado motivo a uma séria desavença entre o arraes e o poeta, porque mestre João mostrava-se demasiado cioso da propria auctoridade, para não consentir que um dos seus subditos fosse punido por haver recusado uma cousa que talvez não houvesse realmente a bordo, e por ter dicto duas verdades duras a um conterraneo dos nevoeiros e dos beef-steaks. Mas porque não se exprimiu Mr. Graham de modo que o grumete o entendesse? Como imaginou elle que o pobre rapaz podesse perceber os seus tres monosyllabicos grunhidos? É que o orgulho e o patriotismo britannico andam aninhados em tudo. O que nos outros paizes se olha como um primor d’educação, em Inglaterra é uma indecencia. Um inglez parece envergonhar-se de saber algum idioma estranho, e muito mais o francez, que nos paizes continentaes não é permittido ignorar a qualquer individuo medianamente instruido.

A lingua franceza, pela sua simplicidade, regular sintaxe, determinada prosodia, e mais circumstancias que a tornam facil para os estrangeiros, tem obtido uma certa universalidade, que a vae convertendo, por assim dizer, em lingua geral, principalmente na Europa. Este predominio da lingua franceza deve ter talvez n’um remoto futuro graves consequencias politicas. É por essa razão, que aos inglezes doe excessivamente tal predominio. Primeira nação do mundo como potencia material; representando nos tempos modernos uma imagem da antiga Roma, a Inglaterra soffre de mau-grado o ser intellectualmente inferior á Allemanha e á França. A influencia moral que pelos seus livros esta ultima exercita na Europa, nomeadamente nos paizes occidentaes, tende a augmentar ahi a sua influencia social, na razão directa do progresso de civilisação desses paizes. A França actua pelas idéas, em quanto a Inglaterra o faz pelas esquadras: mas a acção das idéas cria a semelhança de crenças, de costumes e de affectos, em quanto o temor das esquadras, o apparato do poder, as insolencias do forte contra o fraco só geram odios fundos, que se vão legando de paes a filhos: que se vão accumulando no thesouro commum das gerações que vem surgindo. Estes odios são um incendio que lavra, e que póde abrasar a Inglaterra n’um desses dias aziagos, que amanhecem para as nações como para as familias. Uma crise basta para perder o Reino-Unido, e esta crise é facil n’um corpo moral cuja physiologia é monstruosa e antinomica. A Gran-Bretanha deve saber que os ecchos do continente repetem de contínuo a grande voz do povo, que, em mais de um paiz, murmura aquelle terrivel verso do poeta italiano:


Siam’servi, si:—­ma servi ognor frementi!

Ninguem como os inglezes tem o instincto da vida politica. N’uns este instincto é ajudado pelo raciocinio, n’outros pelo orgulho nacional. A Inglaterra desejára tirar á França as influencias intellectuaes: para isso fôra necessario generalisar a propria lingua. Ahi é que bate o impossivel. Entretanto o inglez vae falando inglez na terra e nos mares, quer o entendam, quer não, e só em casos desesperados recorre a algum idioma estranho, não sem o torcer, estafar e mutilar, com toda a barbaridade de um verdadeiro Kimhri. É uma teima perpetua entre a Europa e a Gran-Bretanha:


“O mundo a porfiar que os bretões grunhem;
E os bretões a teimar que o mundo mente”

Aquelle caso de Mr. Graham fôra mais um capitulo desta polemica eterna.

Nós os portuguezes pensámos então em buscar uma guarida para passarmos a noite, porque algumas pingas grossas de chuva nos annunciavam um aguaceiro imminente. Dirigimo-nos a mestre João, que nos declarou categoricamente ser impossivel dar-nos entrada na tóca miseravel, a que elle tivera a ousadia de pôr o nome de camara; e isto pela razão composta de que os tres inglezes a occupavam inteiramente, e não podiam ser d’alli expulsos, tendo pago trinta shellings por cabeça, em quanto nós pagáramos só vinte. O argumento era de uma solidez irreprehensivel. Pedimos-lhe todavia humildemente nos declarasse em que sitio nos poderiamos resguardar da agua do mar e do ceu; porque se houvessemos pretendido passar a nado de Jersey para França, escusáramos ter-lhe pago a mal-aventurada capitação d’uma libra esterlina, que nos fazia descer na escada social dez shellings, ou dez furos, abaixo dos tres inglezes.

Os selvagens têem mais que os homens civilisados a eloquencia do gesto, e o bom do normando, forçoso é confessa-lo, dava todos os indicios de verdadeiro botecudo. Tomando a postura sublime de um seekoenig, o rei do mar dos antigos sagas da Islandia, e com um—­là!—­que podia fazer ainda mui decente papel ao lado do—­qu’il mourut—­de Corneille, o arraes, especie de Buonaparte juncto ás Pyramides, nos apontava para a escotilha d’avante, a escotilha da boca do porão, e parecia dizer-nos no seu gesto mudo:—­“Ahi quarenta dores rheumaticas vos esperam!”—­Melhor era isso, comtudo, que amanhecer inteiriçados sobre a tolda; e assim, dando-nos por avisados, arremettemos com o abysmo.

Escada não a havia; e as trevas interiores não eram menos densas que as trevas exteriores, de que resa a Biblia, onde ha o chôro e o ranger de dentes. A altura, porém, não devia ser grande. Como os cavalleiros do Palmeirim d’lnglaterra, cada um de nós se encommendou á dama dos seus pensamentos, e do modo que pôde desceu áquella especie de bolgia dantesca.

O chasse-marée, destinado a transportar gado de França para as ilhas do Canal, ía em lastro, e o lastro era d’areia. Se não fossem os terriveis balanços da embarcação, a pocilga em que nos achavamos poderia passar ao tacto, unico sentido de utilidade naquella situação, por uma praia deserta. Depois de apalparmos por largo tempo em volta de nós, achámos por fim uma véla e alguns cabos, lançados para uma extremidade do areal fluctuante. Ao menos tinhamos um leito, se não mais macio, ao menos mais enxuto que esse com que já contavamos. Uma pouca d’areia humida por pavimento, algumas braças de lona por leito, e por agasalho e cobertura a tolda d’um miseravel barco eram, com as trevas que nos rodeavam nesse momento, toda a nossa consolação e abrigo.

Se esta recordação escripta, humilde e obscura, como seu auctor, passar ante os olhos do major C*** [2] elle ha-de por certo lembrar-se de que essa noite foi uma das bem dolorosas e tristes da sua larga vida de soffrimento e abnegação; da sua vida de honesto e valente soldado. Padecimentos antigos haviam crescido com os trabalhos e estreitezas do desterro, e posto que o seu animo de ferro lhe não consentisse o soltar um só queixume, o incendio lavrava lá dentro, e a dôr, que não podia subjugar-lhe o espirito, ás vezes se lhe revelava no gesto confrangido. O seu estado gerava em nós, que sinceramente o amavamos, serios receios. Mas como o padecer se não traduzia em gemidos, no meio da escuridão, e entretidos com a scena ridicula do poeta da temperança e da aguardente, haviamo-nos persuadido de que esse padecimento diminuira consideravelmente.

Deitados em cima da véla convertida em colchão, os meus companheiros breve adormeceram. Quando a consciencia está tranquilla a mocidade encontra facilmente o repouso ainda no mais duro leito. Só eu velei; porque lhes levava uma vantagem, talvez antes desvantagem, uma imaginação mais ardente. O major C*** tambem parecia dormir.

Achava-me finalmente só!

Havia muito que para mim não existia a vida íntima senão no silencio da noite. O dia, esse passava-o como embriagado na agitação tumultuosa de peregrino, vendo fugir diante dos olhos, na terra e nos mares, os quadros e as scenas de uma natureza e de uma sociedade diversas daquellas que me tinham cercado na infancia e na primeira juventude. Era de noite que a imagem da patria, terribilissima de saudades, se me assentava como um pesadelo sobre o coração, e me expremia delle bem amargas lagrymas! Aos vinte annos a nossa alma, viçosa e virgem, tem affectos para derramar com mão larga por tudo o que nasceu e cresceu juncto de nós; por todos aquelles que nos ensinaram a balbuciar as primeiras palavras, e nos guiaram os primeiros passos no caminho da vida. Para achar deleite em vaguear fóra do nosso ninho paterno, é preciso haver passado a idade das esperanças; é preciso ter já calcado aos pés, inteiramente sugado, o pomo das illusões, e assistir ao drama da existencia, não como actor possuido do seu papel, mas como espectador indifferente, que sabe ser esse drama um embuste, algumas vezes attractivo, mas semsabor as mais dellas; é preciso ser homem; e eu tinha então vinte annos. Por isso este errar entre estranhos teria para mim demasiado tedio e tristeza, quando se lhe não ajunctassem outras maguas e privações de muitos generos.

O desterro é uma das mais profundas miserias humanas; mas a pobreza no desterrado é o tormento mais intoleravel do espirito, porque é um composto monstruoso de saudade, de humilhação, de abandono, de desesperança, que vos lembra cada dia, cada hora, cada instante, a vossa situação desgraçada; que vos recorda sem cessar que sois uma especie de Ahasvero, de judeu errante, que a maldicção de Deus guia, em meio do desprezo dos homens, dos vituperios, dos trabalhos, por uma peregrinação sem termo e sem horisonte. Tendes de experimentar a affronta e calar, os maus tractos e soffrer, a fome e a nudez e não ousar pedir uma esmola, porque o pobre estrangeiro é um ente médio entre o homem e o animal, a sua linguagem inintelligivel e ridicula, a sua dôr e o seu sentimento quasi um impossivel, o nome do seu paiz a fabula e o escarneo das gentes, sobre tudo se esse paiz é fraco, limitado e obscuro. Então vem o comparar tudo isso com os commodos e gasalhado do lar domestico, com o amor e amizade, que vos cercavam de suavidade o viver de outro tempo, e a comparação vos converte em fel e lagrymas o sangue mais puro das veias. Tombastes de pedra em pedra no fundo de um abysmo: lá acharam os vossos membros pisados e feridos um leito de çarças; e d’ahi medís de contínuo a altura da quéda, porque vos luz lá em cima o céu da patria, e a saudade vos mede palmo a palmo a distancia que vae do despenhado a essa imagem querida.

Que todos aquelles que nunca saíram de sob o tecto da sua infancia; que nunca buscaram debalde o sol esplendido da terra occidental para o saudar na manhan de primavera; que nos remansos do seu rio natal não imaginam o ennovelar-se e bramir das vagas do oceano; que nunca viram o céu chato do norte pesar sobre a campina, estendida como um cadaver, e coberta do seu sudario de neve; que esses alguma vez se recordem e compadeçam do pobre foragido, a quem as intolerancias insensatas e ferinas de paixões politicas arremessaram para estranhas regiões. Seja qual fôr a vossa crença, a vossa parcialidade, doei-vos d’elle; porque as doutrinas podem ser erros mas não são crimes. E de mais, quem vos diz que essa opinião, que vos parece verdadeira e sancta, vos não parecerá com o tempo absurda e má, se de sincero coração a seguís?

Engolfado nestas idéas, posto que bem desperto, conservava-me calado no meio dos meus companheiros, os quaes dormiam placidamente ao murmurar da agua no costado do chasse-marée, que rompia pelas vagas agitadas. De vez em quando os mastros rangiam com os turbilhões de vento, e sentia-se um golpe soturno e embaçado sobre a tolda. Era alguma onda que salvava por cima do baixel, como a que viera acalmar a colera do esgrouviado Mr. Graham. Depois ouvia-se a voz do arraes, que proferia algumas palavras inintelligiveis: depois outra vez só o silvar da procella.

O major C*** revolvia-se entretanto perto de mim, ao que parecia grandemente inquieto. A persuasão, talvez, de que ninguem o escutava, e a intensidade da dôr arrancaram-lhe, emfim, um gemido. A sua energia moral succumbíra. O veterano, depois de largo combate de muitas horas, declarou-se vencido.

Falei-lhe em voz baixa: na tristeza da noite o padecimento physico parece achar consolo no som da voz humana. Era o unico soccorro que na situação em que nos achavamos lhe podia ministrar.

A nossa conversação durou por algum tempo; nesta conversação havia para mim o refrigerio do espirito, porque nos recordavamos da patria; elle buscava assim um allivio para dous generos de angustias, as do espirito e as do corpo. Era mais infeliz do que eu!

Por este modo passou grande parte da noite. A tempestade crescia progressivamente, e o balanço do chasse-marée era já intoleravel. Começámos então a sentir por cima das cabeças os passos apressados dos marinheiros, e um som estranho, como de mar quebrando ao longe em agra penedia. Este som, semelhante ao disparar de artilharia por sotavento, approximava-se gradualmente.

D’ahi a pouco ouvimos correr rapidamente a amarra pelos escovens. Era incrivel que tivessemos chegado tão depressa ao termo da nossa viagem. As seguintes palavras de mestre João, precedidas de uma praga, não nos deram vagar de fazer sobre isso largas conjecturas:

Ventre-Saint-Gris ... a amarra ... vamos a pique!” [3]

Foi o que pudémos perceber. E era sobejo.

O major C*** ficou immovel. Quanto a mim, o primeiro pensamento que me scintillou no espirito foi o de despertar os nossos companheiros. Mas porque não haviam de morrer tranquillos? Deixei-os.

O brado do arraes fôra seguido de um momento de tremendo silencio: depois senti que o chasse-marée fazia um singular movimento, como galgando pelo dorso de enorme vaga; após isto pareceu-me que subitamente parára, e ouvi de novo falar na tolda. Era a voz de Mr. Graham, o poeta agoureiro e esguio.

Este momento de incerteza foi horrivel. Então conheci bem a verdade de uma phrase de Milton “a escuridão visivel.” Nas trevas profundissimas em que estava via o reluzir do mar ao redor da véla branca em que jaziamos; e os olhos da minha imaginação enxergavam através da agua os rochedos de sorvedouros submarinhos, onde os nossos cadaveres deviam dentro em pouco achar uma sepultura desconhecida.

Não sei o como, mas a verdade é que, no meio do terror de morte afflictiva e demorada, me veio á cabeça uma idéa ridiculamente consoladora. Foi esta a imagem de Mr. Graham sumindo-se nas goelas de um tubarão com a sua fabrica inteira de versos, e a meia fabrica de Leeds, que trazia distribuida pelos seus quatro casacões incommensuraveis.

Passou um minuto: passaram dous: passou terceiro; e a nossa véla enxuta, e o baixel perfeitamente tranquillo. A morte, se tinha de vir, era tão lenta e derreada como a melopéa da declamação ingleza.

Porventura haviamos encalhado n’algum banco de areia, porque o chasse-marée evidentemente não abríra; aliás o mar devia ter-nos já sorvido.

Lembrei-me de subir á tolda. Mas como? O logar em que nos achavamos representava uma verdadeira masmorra de castello feudal. O escotilhão por onde desceramos era mais alto do que um homem: além d’isso o estrado da bôca tinha sido ahi collocado, como a campa sobre um tumulo, e em cima do estrado sentíramos lançar uma lona breada para impedir a invasão das ondas que galgavam pelo tombadilho.

Esperei, pois, que amanhecesse, e que então obtivessemos a luz e a liberdade da munificencia de Micer Jean Legris. Entretanto o major parecia mais tranquillo: a quietação do chasse-marée, e a somnolencia da ante-manhan eram apparentemente a causa d’isto.

A alvorada assomou, emfim, no oriente: alevantou-se o estrado, e a luz branda do romper do dia veio allumiar o nosso calabouço marinho com uma claridade frouxa e suave. Não esperára debalde em mestre João: o seekoenig concedia-nos o favor de aspirarmos um ambiente puro e livre.

Subi á tolda. O sol surgia como um grande orbe vermelho fluctuante sobre as ondas levemente crespas. No sudoeste uma nuvem negra e ampla parecia firmar-se em pé no horisonte, prolongando os cimos dentados pelas alturas do ceu: era a procella, que fugia varrida pelo nordeste. A superficie enrugada do oceano tinha não sei que semelhante a um gesto humano que sorri. Eu contemplava uma dessas raras alvoradas do navegante, em que no aspecto do mar se lê o nome de Deus, e no sussurro da brisa se escuta o hymno da creação.

Onde estavamos nós? No recife de um ilheu, vizinho das costas de Normandia, cujo nome se me varreu da memoria. A caldeira em que nos achavamos teria tres vezes o comprimento do chasse-marée e ainda menor largura. Olhei para a entrada, e os cabellos eriçaram-se-me ao vê-la. Custava a perceber como o nosso baixel a atravessára sem se fazer em pedaços: era um labyrintho de rochedos agudos quasi indelineavel.

Mestre João Legris, não sei por qual razão nautica, pretendêra fundear junto aos penedos que defendem a bôca daquella abra, até que chegasse a manhan. Ao lançar ancora a amarra se partíra roçando pelas rochas. Este successo desastrado arrancára da bôca do arraes a energica exclamação, que tão terrivel fôra ferir-me os ouvidos no meio das minhas dolorosas cogitações. Felizmente uma vaga monstruosa, erguendo o chasse-marée sobre o dorso, o arrojou por entre os parceis, talvez por cima delles, e nos salvou da morte, que aliás sería inevitavel.

A saída do recife deu mais trabalho aos nossos marinheiros do que lhes dera a entrada. O sol ía já mui alto quando abrimos todas as vélas ao vento. Este era de feição; e dentro em poucas horas aportámos a Granville.


  1. Aguardente.
  2. Actualmente (1843) brigadeiro Celestino Soares.
  3. Textual.