Deixai que deste álbum na folha delicada

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Deixai que deste álbum na folha delicada
por Cruz e Sousa
Poema agrupado posteriormente e publicado em O Livro DerradeiroOutros Sonetos


(5 dez. 1882)

Embeberam-me a pena em fel!

Antônio (Mendes Leal)


Deixai que deste álbum na folha delicada
Eu venha difundir meus rudes pensamentos
Deixai que as pobres rimas, uns nadas poeirentos
Eu possa transudar da mente entrenublada!...

Deixai que de minh’alma na fibra espedaçada
Eu busque inda vibrar uns cantos tardos, lentos!...
Bem cedo os vendavais, aspérrimos, cruentos
Ai! Tudo arrojarão à campa amargurada!

Porém qu’importa isso! dos mares desta vida
Nos pávidos, estranhos, enormes escarcéus
Se alguma coisa val, és tu, ó luz querida!...

Rasguemos do porvir os áditos, os véus!...
Riamos sem cessar, embora em dor sentida!...
Também as nuvens negras conglobam-se nos céus!