Descendo a encosta do Parnaso

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Descendo a encosta do Parnaso
por António Feijó


A João Arroyo

Hvad er en Digter? Et ulykkeligt Menneske, der gjemmer dybe Qvaler
i sit Hjerte, men hvis Laeber ere dannede saaledes, at idet Sukket
og Skriget strömme ud over dem, lyde de som en skjöne Musik.

Kirkegaard.


Quando moço, cantei, mas em formas discretas
Que nunca o meu segredo ousassem revelar,
Tudo o que sem mysterio a muitos outros poetas
Soube o Amor e a Paixão em voz alta inspirar.

Feliz, o Amor... nem mesmo ephémero sorriso
Deixou nessas canções memoria do seu rastro;
Desditoso, ficou como um luar indeciso,
Chamma d'oiro escondida em vasos d'alabastro.

A Dor, mal comprimida em gritos suffocados,
— O abandono, a traição, o esquecimento, o ciume--
Ennublou muita vez os meus olhos magoados,
Mas se ao labio acudia, era apenas queixume...

Éstos do coração, sobresàltos do instincto,
— Amor ideal, vehemente impulso do desejo,--
Tudo vinha em surdina ou echo mal extincto,
No meu verso expirar, como um simples arpejo.

Se a angustia me opprimia em continua tortura,
Para allivio a esse mal, que ninguem consolava,
Como alguem que a si proprio illudir-se procura,
Precisando de ouvir a minha voz--cantava!

Echo do meu soffrer, de tão fundo partia,
Que deixando ao passar todo o amargo travor,
Essa voz, rara vez, murmurando trahia
O secreto pungir da primitiva dor.

Mas de cada palavra ou gesto contrafeito
Em que ella se disfarça, a alma profunda evoca
Os lamentos e os ais suffocados no peito,
Todos os gritos vãos que morreram na boca!

No escrinio da Canção as lagrimas vertidas,
Brilham sob a expressão em que a Dor se transforma,
Como gotas de luz, d'olhos tristes caidas,
A tremer no cristal transparente da Fórma.

Mal se adivinha a dor, no esmalte que a reveste;
Mal se vê no sorriso um esgar de tristeza;
A Dor, na alma do artista, é como um dom celeste,
Que lhe ornamenta a vida e se expande em belleza.

Mas por entre o fulgor das gemmas, no artificio
Da phrase que a primor o artista cinzelou,
Quem soffreu sente ainda o estertor do supplicio,
O desespero e a dor d'onde a estrophe brotou.

A Arte [f]az da paixão arabescos risonhos;
Muda em graça verbal todo o grito pungente;
— Galateia a scismar, olhos cheios de sonhos,
Que a um sopro vão partir da pupilla dormente...

Harpa de Sylpho aereo a ressoar no vento,
Caricia quasi etherea, o Verso é um desafogo...
— Mel na boca a sorrir, emquanto o soffrimento
Sobre a nossa alma imprime os seus lábios de fogo!

D'esse beijo profundo, as angustias e as dores,
Se em imagens procura o artista convertê-las,
Espinhos entrelaça em grinaldas de flores,
E lágrimas combina em mosaicos d'estrellas.

Mas o vulgo, á belleza e á graça inaccessivel,
O espirito banal, nunca pode sentir,
A mágoa que por trás da palavra insensivel,
Como ave triste, espreita, emboscada, a carpir!

Só almas d'eleição commungam no mysterio
Que á Dor empresta o encanto e a seiva que a renova,
Como á flor que sorri num chão de cemiterio,
O amargo coração que se desfaz na cova.

Só ellas, através d'um molde tão restricto
Como esse em que a palavra as emoções fixou,
Alcançam entrever não sei quê d'infinito
No minuto de sonho em que a Dor se embalou...