Descrição da Ibiapaba

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa

Descrição do sítio da Serra de Ibiapaba[editar]

- VIII -

Descrição do sítio da Serra de Ibiapaba; sua dificultosa subida; sua altura, que excede às nuvens; condição de seus moradores; e, chegados a elas os missionários, quanto obram.

Ibiapaba, que na língua dos naturais quer dizer Terra Talha, não é uma só serra, como vulgarmente se chama, senão muitas serras juntas, que se levantam ao sertão das praias de Camuci, e, mais parecidas a ondas de mar alterado que a montes, se vão sucedendo, e como encapelando umas após das outras, em distrito de mais de quarenta léguas; são todas formadas de um só rochedo duríssimo, e em partes escalvado e medonho, em outras cobertas de verdura e terra lavradia, como se a natureza retratasse nestes negros penhascos a condição de seus habitadores, que, sendo sempre duras, e como de pedras, às vêzes dão esperanças, e se deixam cultivar. Da altura destas serras não se pode dizer coisa certa, mas que são altíssimas, e que se sobe, às que o permitem, com maior trabalho da respiração que dos mesmos pés e mãos, de que é forçoso usar em muitas partes. Mas, depois que se chega ao alto delas, pagam muito bem o trabalho da subida, mostrando aos olhos um dos mais formosos painéis que porventura pintou a natureza em outra parte do mundo, variando de montes, vales, rochedos e picos, bosques e campinas dilatadíssimas, e dos longes do mar no extremo dos horizontes. Sobretudo, olhando do alto para o fundo das serras, estão-se vendo as nuvens debaixo dos pés, que, como é coisa tão parecida ao céu, não só causam saudades, mas já parece que estão prometendo o mesmo que se vem buscar por êstes desertos. Os dias no povoado da serra são breves, porque às primeiras horas do sol cobrem-se com as névoas, que são contínuas, e muito espêssas. As últimas escondem-se antecipadamente nas sombras da serra, que para a parte do ocaso são mais vizinhas e levantadas. As noites, com ser tão dentro da Zona Tórrida, são frigidíssimas em todo o ano, e no inverno com tanto rigor, que igualam os grandes frios do Norte, e só se podem passar com a fogueira sempre ao lado. As águas são excelentes, mas muito raras, e a essa carestia atribuem os naturais ser toda a serra muito falta de caça de todo o gênero; mas, bastava para toda esta esterilidade ser habitada ou corrida há tantos anos de muitas nações de tapuias, que, sem casa nem lavoura, vivem da ponta da frecha, matando para se sustentar, não só tudo o que tem nome de animal, mas ratos, cobras, sapos, lagartixas, e de todas as outras imundícias da terra. Quase na mesma miséria vivem igualmente os tobajarás, pôsto que puderam, sem muita dificuldade, suprir a necessidade da terra com os socorros do mar, que lhe fica distante vinte e cinco léguas, e, sôbre ser mui abundante de todo o gênero de pescado, está oferecendo de graça o sal nas praias, em uma salina natural de mais de duas léguas; mas é tão grande a inércia desta gente, e o ócio em que excedem a todos os do Brasil, que por milagre se vê um peixe na serra, vivendo de mandioca, milho, e alguns legumes, de que também não têm abundância, com que é entre êles perpétua a fome, e parece que mais se mantêm dela que do sustento. Não foram novas aos padres as incomodidades do sítio, de que já tinham certas notícias, como dos costumes dos moradores, os quais acharam em tudo no estado em que acima os descrevemos, posto que foram recebidos dêles com grandes demonstrações de gôsto e humanidade, e com aquela admiração e aplauso que sempre acham nesta gente todas as coisas novas. A primeira em que entenderam os padres foi em levantar igreja, de que êles não só foram os mestres, senão os oficiais, trabalhando por suas próprias mãos, assim pelo exemplo como pela necessidade, porque era pouca a diligência com que os moradores se aplicavam à obra. A do edifício espiritual se começou juntamente, porque desde o primeiro dia começaram os padres a ensinar a doutrina no campo, a que concorriam principalmente os pequenos, que muito brevemente tomaram de memória as orações, e respondiam com prontidão a tôdas as perguntas do catecismo. Mas, depois que os padres lhes ensinaram a cantar os mesmos mistérios, que compuseram em versos e tons muito acomodados, viu-se bem com quanta razão dizia o padre Nóbrega, primeiro missionário do Brasil, que com música e harmonia de vozes se atrevia a trazer a si todos os gentios da América. Foram daqui por diante muito maiores os concursos e doutrinas de todos os dias, e maiores também as esperanças que os padres conceberam de que por meio desta música do céu queria o divino Orfeu das almas encantar estas feras destas penhas, para as trazer ao edifício da sua Igreja. A primeira pedra que se lançou nêle, e o primeiro fruto que se começou a colhêr foi o batismo de muitos adultos, e de todos os inocentes, porque nenhum pai houve que não trouxesse a batizar todos os seus filhos, dos quais muitos foram logo chamados ou arrebatados ao céu antes dos anos do entendimento, para que a malícia dos mesmos pais lhos não pervertesse.


Estratégias de Conversão[editar]

- IX -

Impedimento que põe o demônio à fé. Meios de que usa. Desacêrto de um capitão português. Perigo da fortaleza do Ceará.

Sofreu mal o demônio que se lhe tirassem das mãos êstes despojos tenros, que êle desde o nascimento tinha já marcados por seus, e temendo dêstes princípios que viria pouco a pouco a ser lançado daquele castelo infernal, que é a chave de tantas outras nações, que tão absolutamente estava dominando, determinou fazer-se forte nêle com todas as suas forças e astúcias, e com as mesmas fazer a esta missão a mais cruel e porfiada guerra, que jamais se tem experimentado até hoje na conquista espiritual de todas as gentilidades do Brasil. Tinham vindo os padres a Ibiapaba com ordem, não de fazerem ali residência, mas de verem a disposição da gente e do lugar, e, com aviso aos superiores, esperarem a resolução do que haviam de seguir. Daqui tomou ocasião o demônio, e daqui forjou as suas primeiras armas, metendo em cabeça a todos os principais que os padres não vinham a tratar da sua salvação, senão da sua ruína, e que eram espias dissimulados dos portuguêses, para avisarem do que passava na serra, e, quando estivessem mais descuidados, os entregarem a todos em suas mãos, os maiores para serem justiçados pelos delitos passados, e os outros para serem vendidos por escravos em perpétuo cativeiro. Não se sabe de qual nasceu primeiro êste diabólico pensamento, mas como todos estavam criminosos, e deviam tanto à justiça do céu e da terra, a própria consciência lhes assoprava êste fogo dentro dos corações e os de Pernambuco, em que eram maiores as culpas e maior e temor, eram os que mais criam, e confirmavam tudo, não havendo ação, nem movimento, nem palavra, nem ainda silêncio dos padres, de que não fizessem novo argumento, e convertessem no mesmo veneno. Isto só se falava entre todos, sôbre isto se discorria e se bebia, que é o tempo e o lugar de seus mais vivos discursos. Estas eram as profecias dos feiticeiros, êstes os conselhos dos velhos, êstes os temores e os prantos das mulheres, olhando todos dali por diante para os padres, não como pais e defensores seus, mas como espias inimigos, e traidores de sua pátria, de suas vidas e de suas liberdades, e como tais se retiravam, e retiravam a todos da casa e conversação dos padres, fugindo até da igreja, da doutrina, das pregações, e ainda da mesma Missa, que era o que o demônio pretendia. Sucedeu por êste tempo fazer viagem o governador André Vidal do Maranhão para Pernambuco por terra, com aviso, que lhe fizeram os padres, que estava seguro o caminho; e como o governador trazia grande escolta de soldados e índios, tiveram pôr certo os de Ibiapaba que aquêle aparato se encaminhava a conquistá-los, e dissimuladamente chamaram todos os tapuias da sua confidência, e os tiveram em ciladas enquanto o governador passou pelas suas praias; e depois que estêve em lugar que já não podia voltar atrás, tornaram a desfazer esta prevenção com tanta dissimulação e secreto, que não chegou à notícia dos padres senão daí a anos. Quase começaram a se aquietar com êste desengano os temores dos da serra, e a verdade dos portuguêses também começou a triunfar das falsas e indignas suspeitas que dêles tinham; mas o demônio, que não aquietava, levantou em outra parte um novo incêndio, para tornar a cegar com o fumo dêle aos que já parece queriam abrir os olhos. Nos arredores da fortaleza do Ceará, distante de Ibiapaba sessenta léguas, vivem duas nações de tapuias gentios, confederadas ambas com os portuguêses, mas inimigas entre si; uns se chamavam ganacés, outros juguaruanas. Estavam êstes ocupados no mato em cortar madeira do precioso pau violete para o capitão da fortaleza, quando os ganacés, levando consigo alguns índios cristãos, de duas aldeias avassaladas que ali temos, deram de repente sobre êles, e, tomando-lhes as mulheres e filhos, se vinham retirando com a prêsa. Fizeram aviso os juguaruanas ao capitão da fortaleza, em cujo serviço estavam, o qual lhes mandou de socorro vinte e quatro soldados portuguêses, com ordem que os ajudassem, e pelejassem contra seus inimigos, podendo mais neste caso, como sempre pode, a razão da cobiça que a do estado, a qual ditava que se guardasse neutralidade com ambas as nações, pois ambas eram nossas aliadas. Chegaram os soldados aos ganacés, que se tinham feito fortes em uma roboleira do bosque, e, desordenando mais a desordenada ordem que levavam, um dêles, que não era branco, persuadiu aos fortificados que entregassem em confiança suas armas, em sinal de paz, para se retirarem debaixo das nossas. Mas os juguaruanos, que já tinham recuperado a prêsa, tanto que viram a seus inimigos desarmados, sem lhes poderem valer os soldados portuguêses, deram sobre êles, e em um momento quebraram as cabeças a todos, que é o seu modo de matar, sem ficar, de quinhentos que eram, nem um só com vida. Foi êste um caso que grandemente alterou os ânimos de todos os índios do Ceará, e muito mais os vassalos e aliados, vendo que à sombra de nossas armas, de que êles esperavam a defensa, fora a mesma, e por estilo tão indigno, que os metera como cordeiros nas mãos de seus inimigos. Clamavam contra os interêsses do capitão e contra a lealdade dos soldados, o que lhes ensinava a dor, e justa ira, e talvez se precipitavam em ameaças contra a fortaleza, e contra a vida de quantos estavam nela.

Guerras[editar]

- X -

São chamados os padres para sossegarem os índios; diferenças entre êstes; acode no maior fervor da briga o padre Antônio Ribeiro, a cujas voz suspendem todas as armas, e ficam em paz; reforma tudo êste grande missionário, e parte a Pernambuco em busca de remédio, mas sem efeito.

Posta a fortaleza neste apêrto e receio, receberam os padres cartas do capelão e almoxarife, em que lhes representavam o estado de tudo, e lhes pediam que por serviço de Deus e de el-rei quisessem acudir com tôda a pressa àquela força, pois só a sua presença, e a muita autoridade que têm com os índios, poderia obrar em seus ânimos, tão justamente irados, o que importava à conservação de todos. Por esta causa, e por pertencerem também aquêles índios a esta missão, resolveram os padres partir logo ao Ceará; mas, vendo que com a notícia desta jornada tornavam a reverdecer as suspeitas dos de Ibiapaba, houve de ficar ali um dos padres, como em reféns do outro, e foi só àquela emprêsa o padre Antônio Ribeiro, que, como tão eloqüente na língua, e exercitado em conhecer e moderar os ânimos desta gente, sobretudo ajudado com particular favor de Deus, pôs tudo em poucos dias em paz. Primeiro aquietou, não sem dificuldade, os índios cristãos das aldeias, que, como vassalos de el-rei, e criados em maior política, sabiam melhor sentir e encarecer a causa da sua dor; e com, êles ficaram também quietos os ganacés, primeiros movedores desta tragédia, ajudando não pouco a sua mesma culpa a se comporem com o sucesso, Só os juguaruanas, como provocados sem causa, e como insolentes com a vitória, não cessavam de ameaçar contìnuamente a ambas as aldeias, em uma das quais deram de repente ao tempo que o padre estava levantando a hóstia; mas, acabada a Missa, com a pressa que pedia o perigo, estando já alguns da aldeia mortos, e feridos quase todos, que não chegavam a quarenta, sendo quatrocentos os bárbaros que combatiam uma fraca estacada de que estava cercada, o padre se subiu intrèpidamente sobre ela por meio das frechas, e, não pedindo pazes, nem rogando, senão repreendendo e ameaçando o castigo de Deus aos bárbaros, deu Deus tanta eficácia a estas vozes, e ao império delas, que, suspendendo os arcos e frechas, se retiraram logo todos. E dali a três dias, em presença do padre e do capitão da fortaleza, vieram a fazer pazes, que se celebraram solenemente entre estas e as mais nações ofendidas. Enquanto isto se obrava. não atendia o padre com menos cuidado à doutrina dos índios cristãos, os quais achou na mesma confusão e miséria em que estavam os de Ibiapaba, e, se se pode cuidar, ainda maior, pela maior vizinhança e comunicação que haviam tido dos holandeses, se bem o respeito da fortaleza e o presídio os tinha feito menos rebeldes e insolentes que os outros. Ensinaram-se os inocentes, e batizaram-se todos os hereges, e se reconciliaram com a igreja muitos que estavam casados ao modo de Holanda, e se receberam com os ritos católicos. Enfim, as duas povoações, que eram compostas de gentios e hereges, ficaram de todo cristãs. Restava sòmente a fortaleza por render, onde em certo modo se pode dizer que estava e está o demônio mais forte pela cobiça dos capitães e torpezas dos soldados. A êstes tirou o padre trinta índias, as mais delas casadas, de que se serviam com pública ofensa de Deus, e sem pejo dos homens, indo-as buscar livremente às aldeias, e tomando-as, se era necessário, por força a seus maridos. Dos maridos se estavam servindo igualmente os capitães para seus interêsses, com tanta opressão dos miseráveis, e tão pouca e tão enganosa satisfação do contínuo trabalho ou cativeiro, em que os trazem, sem descansar jamais, que se podia duvidar quais eram dignos de maior lástima, se as mulheres no torpe serviço dos soldados, se os maridos no injusto dos capitães. Trataram os índios com o padre de pôr remédio a êstes danos, que não eram menos consideráveis para os mesmos portuguêses, se aqueles vícios deixaram olhos abertos. Representou-se por meio mais efetivo retirarem-se aquelas aldeias dali para Pernambuco, donde todos os anos, assim como vêm e se mudam os soldados portuguêses, assim viessem e se mudassem os índios necessários ao serviço da fortaleza, e com esta proposta passou o mesmo padre a Pernambuco, posto que não foi admitida, como nunca serão aquelas em que o bem temporal ou espiritual comum se encontra com o interêsse dos particulares que governam. Na viagem visitou o padre as relíquias das antigas aldeias de Pernambuco e Rio Grande que achou espalhadas por aquêles largos e trabalhosos caminhos, e tornou a visitar as do Ceará, batizando, doutrinando, casando e confessando a todos aquêles desamparadíssimos índios, os quais davam graças a Deus de que tudo isto se lhes fizesse de graça, quando muitos dêles viviam como gentios, por não terem com que pagar os sacramentos.


Desconfiança dos Tabajara[editar]

- XI -

Desconfiança dos da Serra de Ibiapaba, tendo aos missionários por traidores. Quando padece o padre Pedro Pedrosa, que ficou só na serra; necessidade a que chega, e descômodo destas missões.

Enquanto o padre Antônio Ribeiro se deteve nesta comprida missão, estêve o padre Pedro Pedrosa padecendo as conseqüências dela, que foram persuadirem-se de novo os de Ibiapaba que a jornada ao Ceará, e de Pernambuco, foram só a prevenir dobrados socorros, com que os arrancar a todos das suas serras, chegando a desconfiar das mas muralhas inacessivas com que as fortificou a natureza, e fazendo, como soldados velhos da guerra do Brasil, uma estrada oculta pelo mato, que, no caso que não se pudessem defender, lhes servisse para a retirada, a qual já tinham disposta para partes tão remotas do interior da América, que nunca lá pudesse chegar o nome, quanto mais armas dos portuguêses. Sendo esta a opinião que êstes índios tinham de um dos padres, já se vé qual seria o tratamento que fariam ao outro. Ficou o padre Pedro Pedrosa entre êles só, e sem saber ainda mais que poucas palavras da língua; mas a mesma necessidade, e não ter outra com que se dar a entender, lha fêz aprender copiosamente dentro em poucos meses, estudando, mais ainda que a mesma língua, as razões com que havia de falar e persuadir a esta enganada gente o pouco fundamento de seus temores, e das desconfianças que tinham concebido contra os padres, que por êles estavam padecendo tantos trabalhos, e tinham arriscado tantas vêzes as vidas. Mas nenhuma razão ou demonstração bastava para que vissem ou quisessem ver a sua cegueira. Assim estava o padre aqui mais como prisioneiro das suas ovelhas que como pastor delas, continuando porém sempre em lhes dar o pasto da verdadeira doutrina, a que acudiam poucos, e os mais pequenos, rogando por todos a Deus, e oferecendo por sua conversão os mesmos agravos e ingratidões que dêles continuamente estava recebendo. Alguns meses não teve o padre quem lhe fosse acender uma candeia, deitando-se todo êste tempo sobre ter comido duas espigas de milho sêco, que assava por sua própria mão; mas nisto eram menos culpados os que tinham obrigação de o sustentar, pelas esterilidades do sítio. Muitas vêzes, a horas de jantar, mandou com um prato pedir uma pequena de farinha pelas portas, sendo êle o que fazia o fogo para cozer algumas ervas agrestes, e o que varria a pobre casinha com as mesmas mãos sagradas com que a tinha feito. Dêste tempo é que ficaram ao padre as notícias, que nos dá, de serem tanto saborosas as lagartixas, pela parte de alguma que algum mais misericordioso lhe ofereceu por grande caridade. Tal é a miséria ou o castigo do sítio em que vive esta pobre gente, e por cuja conservação fazem tantos extremos. Quando aqui chegamos, havia quatro meses que os padres não comiam mais que folhas de mostarda, cozidas em água e sal, mas estas com pouca farinha, porque nem os que a lavram a tinham. Alguma jornada fizeram de mais de sessenta léguas, em que levavam a matalotagem na algibeira, que era um pouco de milho debulhado, que, a não ir tão bem guardado, se não pudera defender à fome dos companheiros, e isto é o com que se jejuam as quaresmas e com se festejam as páscoas; mas é já boa de contentar a natureza - e muito mais a graça - e dá Deus tantos sabores a êstes manjares, que não fazem cá saudades os regalos da Europa. Dias houve também caminhando em que passaram os padres só com os cardos do mato, e outras vêzes com as raízes de certa árvore agreste, cavadas por sua mão, a que chamam mandu-rapó, por ser mantimento das emas, que digerem ferro. Mas tinham os padres muito mais que digerir na dureza e rebeldia dos corações da gente com que tratavam, os quais com nenhum exemplo se compungiam, com nenhum benefício se abrandavam, e com nenhum desengano queriam acabar de se desenganar, permitindo-o assim Deus, ou em castigo da sua mesma obstinação, ou para outros maiores fins da sua Providência.

Ameças aos Padres[editar]

- XII -

Chega o padre Antônio Ribeiro de volta à serra; alegria com que é recebido; nova desconfiança dos índios que determinam matar os padres; sabem estes da traição, e persistem ainda na serra.

Foi mais festejada a vinda do padre Antônio Ribeiro, quando o viram entrar pela aldeia principal, só, e sem os exércitos imaginados, que o demônio lhes tinha formado nas fantasias. Mas durou pouco aos padres o gosto desta vitória da sua verdade, porque no mesmo tempo receberam uma carta do padre Antônio Vieira, em que lhes dava notícia de haverem resoluto os superiores que aquela missão, vistas suas impossibilidades, se não continuasse, e que os padres se voltassem outra vez ao Maranhão, notificando esta ordem, e a causa dela, aos índios, e levando consigo aos que os quisessem seguir. Não chegou às mãos dos padres nenhuma destas ordens, que eram do padre provincial do Brasil, e do padre visitador desta missão, como adiante se dirá, mas em ordem à execução delas declarou o padre Pedro Pedrosa aos principais o aviso que tinham recebido, representando-lhes o serviço de Deus e de Sua Majestade, que continha aquela resolução, e quão conveniente lhes era, não só para a salvação, senão ainda para as comodidades da vida a mudança do lugar. Não tinha acabado de dizer o padre, quando já estava lida a resposta no semblante de todos, os quais rebentaram, dizendo: Eis aqui como era verdade o que até agora todos cuidávamos, e como os padres não tiveram nunca outro intento, senão de nos arrancar de nossas serras, para nos fazerem escravos de seus parentes, os brancos. - O maior principal, que tem grande sagacidade, respondeu direitamente à proposta desta maneira: Se, por sermos vassalos de el-rei; quereis que vamos para o Maranhão, estas terras também são de el-rei; e se por sermos cristãos e filhos de Deus, Deus está em toda a parte. - Com esta resposta sucinta se recolheram a seus conselhos secretos, nos quais se decretou que por meio dos tapuias tirassem a vida aos padres, como já tinham feito os mesmos tapuias ao padre Francisco Pinto, e que, para dissimulação do delito, sairiam êles fingidamente à sua defensa, e fariam grandes prantos por sua morte. Decretada esta cruel sentença, sem os padres terem dela a menor notícia, com o mesmo segrêdo despediram aos tapuias que lhes fôsse declarar o intento, e os ensaiasse para a tragédia. Eram os tapuias, que foram escolhidos para a execução os...... , e o dia o de quinta-feira de Endoenças, em que os padres estão mais ocupados; e êles, concorrendo também para os ofícios daquela semana, se queriam também fingir mais divertidos. Tudo estava já preparado para o sacrifício, e só as vítimas estavam inocentes de tudo. Quando Deus, que nunca desampara aos que o servem, tocou o coração a um dos principais, e adjunto na, mesma consulta, o qual foi secretamente avisar aos padres de tudo o que contra êles estava traçado. Com êste aviso, que bem se via era do céu, se aparelharam os padres com grande ânimo para darem a vida por tão........ causa, e dali por diante, pondo-se mais afetuosamente nas mãos de Deus, com contínuas orações e penitência, estavam esperando a todas as horas do dia e da noite que a morte lhes entrasse pelas portas, tendo ajustado entre si de a receberem de joelhos, e com as mãos levantadas ao céu. Enquanto, chegava, ou tardava o dia aprazado, resolveram-se os padres a não esperar mais por êle. Descobriram ao principal como lhes era manifesta a traição que lhes tinha armado, que para matar dois religiosos sem armas não eram necessárias as flechas dos tapuias, que em suas mãos os tinham, sem poderem resistir nem quererem fugir; que bastava um velho, o mais fraco da aldeia, para lhes tirar as vidas, e que êles as dariam por bem empregadas, se Deus, pelo sacrifício de seu sangue, perdoasse aos tobajarás êste pecado, e todos os outros, de que se não queriam emendar; que estivessem certos que do céu não haviam de pedir para êles castigo, senão misericórdia. Ficou assombrado o bárbaro de ver que os padres sabiam o que êle tinha por tão secreto, negava com a boca tudo, mas confessava-o com o coração, o qual lhe dava tais pancadas no peito, que não se estavam vendo, mas parece que se estavam ouvindo. Enfim, como as traças eram do demônio, que só tem força enquanto estão encobertas, neste dia desarmou em vão toda esta máquina. O inferno ficou confuso, e os padres deram infinitas graças a Deus, e os autores ficaram corridos e arrependidos, mas nem por isso emendados, tendo sempre altamente fixado na memória e no entendimento o ponto de os quererem tirar de suas terras; e, posto que os padres tinham tão justas causas, e tão bastante motivo, nas cartas que receberam, para sacudirem o pó dos sapatos, e deixarem tão ingrata terra, resolveram-se, contudo, a não desamparar o pôsto a que a obediência os tinha mandado, sem verem primeiro a ordem em que a mesma obediência os mandasse retirar.


Olhar negativo sobre os costumes indígenas[editar]

- XIII -

Estado pernicioso dos índios da serra; suas ignorâncias, heresias e trato com, o demônio.

Será muito para louvar nos tempos vindouros a constância dêstes dois missionários; mas êles têm para si, e com razão, que não só deviam isto ao amor de Deus, por quem o padeciam, senão ao exemplo que o mesmo Deus lhes dava, porque, ainda que foi muito o que os padres sofreram a êstes índios, muito mais era o que Deus lhes estava sofrendo. Entre todos êstes, só um velho houve, que de si pediu aos padres que o casassem para sair de mau estado. Nenhum dos principais, sendo todos três cristãos, era casado em face da Igreja, nem o quiseram nunca ser, por mais que os padres os admoestavam; e todos, além da que chamavam mulher, tinham a casa cheia de concubinas. Alguns estavam casados juntamente com duas irmãs, e muitos com suas cunhadas porque receber o irmão vivo a mulher do irmão defunto é lei tão judaicamente observada entre êles, como se a tiveram recebido de Moisés, a quem também sabem o nome. Aquêles, de quem o profeta diz que fizeram concêrto com o inferno parece que foram êstes. Um disse que antes queria ser irmão de Caim do que de Abel, por estar no inferno com êle; outro, que se lhe não dava do fogo do inferno, porque, se fosse lá, êle o apagaria; outro, que já sabia que havia de ir ao inferno, pelas maldades que cometera em Pernambuco, e assim não queria tratar do céu; outros chegaram a tanto, que blasfemaram de Deus como de tirano e injusto, por os haver de mandar a êles ao inferno. - Mande ao inferno - diziam - aos índios que o mataram; mas a nós que lhe não fizemos nenhum mal, por que nos manda ao inferno sem razão? Enfim, foram tais as coisas que disseram e fizeram sobre êste ponto, que os padres se retiraram de lhes falar no inferno, até que o conhecimento da grandeza de Deus e de suas culpas. lhes mostrassem quão dignos são os que o ofendem de tão temeroso castigo. Por outra via, tinha já procurado o demônio tirar-lhes do pensamento a fé e temor do inferno, espalhando entre êles um êrro aprazível semelhante à fábula dos Campos Elísios, porque dizem que os três principais das aldeias da serra têm debaixo da terra outras três aldeias muito formosas, onde vão depois da morte os súditos de cada um, e que o abaré, ou padre, que lá tem cuidado deles, é o padre Francisco Pinto, vivendo todos em grande descanso, festas e abundância de mantimentos; e, perguntados donde tiveram esta notícia, e se lhes veio algum correio do outro mundo, alegam com testemunha viva, que é um índio muito antigo, e principal entre êles, o qual diz que, morrendo da tal doença que teve, fôra levado às ditas aldeias; por sinal que uma se chama Ibirupiguaia, outra Inambuapixoré, a terceira Anhamari, e que lá vira todos os que antes dêle haviam morto, e entre êles a sua mulher, a qual o não quisera receber, e pelejaram com êle por ir desta vida sem levar um escravo que a servisse, e que depois disto tornara a viver. O índio, por sua pouca malícia, parece incapaz de haver composto esta história, e, assim, julgam os padres que foi sem dúvida ilusão do demônio para o enganar a êle, e por meio dêle aos outros, e, quando menos, para pôr em opiniões um ponto tão importante como o do inferno. Na veneração dos templos, das imagens, das cruzes, dos sacerdotes e dos sacramentos estavam muitos dêles tão calvinistas e luteranos, como se nasceram em Inglaterra ou Alemanha. Estes chamam à Igreja igreja de Moanga, que quer dizer igreja falsa, e à doutrina morandubas dos abarés, que quer dizer patranhas dos padres; e faziam tais escárnios e zombarias dos que acudiam à igreja a ouvir a doutrina, que muitos a deixaram por esta causa. Um disse que de nenhuma coisa lhe pesava mais, que de ser cristão e ter recebido o batismo. O sacramento da confissão é o de que mais fugiam e mais abominavam; e também havia entre êles quem lhes pregasse que a confissão se havia de fazer só a Deus, e não aos homens. Foram testemunhas certos portuguêses que vieram à serra, que a tempo que o padre levantou a hóstia, um, por zombaria dos que batiam nos peitos, se pôs a bater na parede da igreja. Estava outro para comungar, em ocasião que um principal lhe mandou recado para que fosse beber com êle; e como respondesse que estava para receber o Senhor, disse o principal que não conhecia outro Deus senão o vinho, porque êle o criara, e o sustentava. Outras muitas coisas diziam, que é certo lhas não ensinaram os hereges, senão o demônio por si mesmo. Exortava o padre a certo gentio velho que se batizasse, e êle respondeu que o faria para quando Deus encarnasse a segunda vez, e, dando o fundamento do seu dito, acrescentou que, assim como Deus encarnara uma vez em uma donzela branca para remir os brancos, assim havia de encarnar outra vez em uma donzela índia para remir os índios, e que então se batizaria. Consoante a esta profecia é outra, que também acharam os padres entre êles, porque dizem os seus letrados que Deus quer dar uma volta a êste mundo, fazendo que o céu fique para baixo, e a terra para cima, e assim os índios hão de dominar os brancos, assim como agora os brancos dominam os índios. E com estas esperanças fantásticas e soberbas os traz o demônio tão cegos, tão desatinados e tão devotos seus, que chegou a lhes pedir adoração, e êles a lha darem. Não há muitos anos que um velho dos de Pernambuco, feiticeiro, levantou uma ermida ao diabo nos arrabaldes da povoação, e pôs nela um ídolo composto de Penas, e pregou que fossem todos a venerá-lo, para que tivessem boas novidades, porque aquêle era o que tinha poder sobre as sementeiras; e como a terra é mui sujeita à fome, foram mui poucos os que ficaram sem fazer sua romaria à ermida. Estava o velho assentado nela, e ensinava como se haviam de fazer as cerimônias da devoção que era haverem de bailar continuamente de dia e de noite, até que as novidades estivessem maduras, e os que cansavam, e saíam da dança, haviam de beijar as penas do ídolo, no qual afirmavam alguns que ouviram ao demônio falar com o velho, e outros que se lhe mostrou visível, vestido de negro. Tiveram os padres notícia do desaforo, foram logo queimar o ídolo, e levantar em seu lugar uma cruz dentro e outra fora, mas no dia seguinte amanheceram ambas as Cruzes feitas pedaços; tanto sofre Deus, e tanto tem sofrido a êstes ímpios contra sua Igreja, contra seus sacramentos, contra sua divindade e contra suas cruzes; e tanto ensina a sofrer com o seu exemplo aos que também ensinou com a sua doutrina, que deixassem crescer a cizânia, para que se não perdesse o trigo.

Algumas ocnversões[editar]

- XIV -

Fruto que se colheu neste estéril campo; proveitos temporais que resultaram destas duas missões; sucesso extraordinário, e castigo de Deus em alguns índios.

O fruto que se tem colhido no meio desta esterilidade não tem sido tão pouco que se hajam de dar por mal empregados tantos trabalhos, quando os mesmos trabalhos per si não foram um grande fruto. Enquanto os grandes viviam na obstinação e rebeldia que dissemos, os pequenos, de quem é o reino do céu, o iam povoando em tanto número, que são já mais de quinhentos os inocentes batizados pelos padres, que com a graça do batismo estão gozando da glória. Ao princípio tiveram os padres três igrejas nas três aldeias, e depois fizeram outra, em que uniram todas três. Estas quatro igrejas são hoje relicários preciosíssimos, em que não há lugar em que não esteja engastado algum corpo com tôda a certeza santo, que é grande consolação, e ainda devoção, para os que vieram a estas serras cavar êstes tesouros; e vê-se claramente haver Deus enviado os dois missionários da Companhia só a colhêr estas flôres, para as meter, como diz a Escritura, no ramalhete dos predestinados, porque no tempo em que morreram mais de quinhentos inocentes, não chegaram a morrer quinze dos adultos, alguns dos quais acabaram com os sacramentos daquela hora, e com grandes esperanças de sua salvação; e outros, para temor dos mais, com evidentes sinais de sua perdição e condenação eterna. Dos pequenos de maior idade se batizaram também muitos que ainda estavam pagãos, ou tinham dúvida no batismo. Muitos também receberam em legítimo matrimônio as mulheres, com que viviam em pecado; outros, tocados da heresia, abjuraram o êrro ou ignorância, e se reconciliaram com a Igreja. Assim que, ainda que o corpo estava geralmente tão enfêrmo e tão contagioso, a muitos dos membros aproveitavam os remédios, e a muitos os preservativos. Os males que com a presença dos padres se têm evitado, não são de menos consideração ao bem espiritual dêstes índios, nem de menor utilidade ao espiritual e temporal de todo o estado. O caminho do Maranhão ao Ceará e a Pernambuco, que estava totalmente fechado pelas hostilidades desta gente, está hoje franco e seguro. As praias e navegação de tôda a costa está livre, e melhorada com o seu comércio. Sobretudo, estão reduzidos os tobajarás à obediência e vassalagem de Sua Majestade, sem armas nem despesas, e estão inimigos jurados dos holandeses, em cuja confederação era a Serra de Ibiapaba o maior padrasto que tinha sobre si o Estado do Maranhão, e o que só temeram todos os soldados velhos desta conquista. Nos vícios da fereza e desumanidade estão também muito domados; já não matam, já não comem carne humana, já não fazem cativeiros injustos, já guardam paz e fidelidade às nações vizinhas, tudo por benefício da assistência dos padres. Haverá dois anos que exortaram os padres aos tapuias curutis que quisessem deixar a vida de corso, e viverem aldeados com os tobajarás, com casa e lavoura; e quando já vinham os curutis com suas famílias para se meter nas aldeias, que os mesmos tobajarás lhes tinham oferecido, estava traçado entre êles de os esperarem em cilada dali a duas léguas, e os matarem e cativarem a todos. Soube o padre Pedro Pedrosa a traição três horas antes, quando já os tobajarás estavam juntos e armados; e bastou saberem os principais que o padre o sabia, para desistirem da emprêsa, e ainda para cobrirem e negarem os intentos que tiveram nela. Foi êste o maior argumento do respeito que têm aos padres, ainda quando parece que nos não respeitaram, porque não há mais forte tentação para esta gente que a de matar, e fazer cativos. Assim vão despindo os vícios da barbaria, com que começam a ser homens, e se espera que renunciarão também aos demais, para que acabem de ser cristãos. Confirma muito esta esperança o ter-se visto em muitos casos que não só chama Deus esta gente por meio ordinário de seus ministros, os pregadores, mas que parece quer render por si mesmo a sua rebeldia, como a de Saulo. Estavam um dia ouvindo missa o maior principal, e ao tempo que o padre levantou o Senhor, e todos o adoravam, êle viu sòmente os dedos do padre, e não viu a hóstia, com que ficou assombrado; recolhendo-se à casa tremendo, examinando a causa de Deus se lhe não querer mostrar, ocorreu-lhe que devia de ser sem dúvida porque em o dia de antes tinha dito umas palavras de pouco respeito ao mesmo padre que disse a Missa, que era o padre Pedro Pedrosa; passou a noite sem dormir, veio ao outro dia ouvir a Missa do mesmo padre, e pedir perdão a Deus do que tinha feito; e quando se levantou a hóstia, viu-a, mas com a côr mudada, porque lhe pareceu envolta em uma nuvem negra, e lhe metia horror, posto que não tão grande como o dia de antes, em que se lhe havia totalmente escondido; foi no mesmo dia contar o caso ao padre, pedindo-lhe perdão da pouca reverência com que lhe havia falado, e dali por diante tornou a ver a hóstia branca, e como dantes via. Um dos blasfemos de que falamos acima chegou a dizer em presença de muitos que não tinha outro Deus senão o diabo; mas permitiu logo Deus que experimentasse em si mesmo quem era aquêle por quem o trocava, para castigo seu, e dos outros que o tinham ouvido. Entrou nele o demônio tão furiosa e desesperadamente, que se despedaçava a si e a quanto encontrava, fugindo todos dêle, e não havendo quem lhe parasse diante. Fizeram-lhe os padres os exorcismos por espaço de oito dias, com que o largou o demônio por então, posto que depois tornou por vêzes a o atormentar, mas já com menos fúria. Ficou tão ensinado com êste castigo, que dali por diante não saía da casa dos padres nem da igreja; e, andando sempre armado com as contas ao pescoço, deu pública satisfação ao escândalo que tinha dado, protestando que estava fora de si, e pregando em toda a parte que a divindade era só de Deus, e o demônio a mais mofina de todas as criaturas, e a mais abominável. Quando os padres logo chegaram à serra, receberam um índio com uma sua cunhada, com quem estava amigado, calando êle o impedimento, e não havendo quem acudisse a o descobrir. Nasceram dêste matrimônio um menino e duas meninas, e todos três saíram mudos. Admiram os mesmos índios a estranheza do caso, e têm assentado entre si que a causa de serem mudos os filhos é porque o pai também foi mudo, calando os impedimentos do matrimônio, e fazendo aquela injúria ao sacramento; e, verdadeiramente, era necessário um castigo tão prodigioso e tão permanente como êste, e que fosse crescendo e continuando-se com os mesmos sujeitos castigados, para que esta gente, que tão pouco reparo fazia dos impedimentos dos matrimônios, temesse exceder os limites, e violar a pureza dêste sacramento, e soubessem todos que o que se cala e encobre aos sacerdotes não se pode esconder a Deus, antes, dá brados à sua divina justiça, para que o castigue como merece.


Novas conversões[editar]

- XV -

Favores divinos a outros índios; repentino estrondo que se ouviu na Serra de Ibiapaba na mesma noite em que chegaram os missionários; por muitas vias ordenam os superiores se retirem os podres da serra, e todas impediu Deus.

Mas não são só castigos e ameaças, com que Deus quer trazer a si os corações dêstes índios, senão também promessas e favores. Uma noite de Natal tinha praticado o padre Pedro Pedrosa, e quando disse a primeira Missa, viu uma índia na hóstia a Cristo, não menino, e envolto em panos pobres, senão em figura de homem vestido de grande formosura, majestade e riquezas, as quais oferecia com rosto mui agradável àquela índia, se ela o quisesse servir. Provou o efeito a verdade da visão, porque vivendo até aquêle tempo em estado alheio da graça de Deus, foi esta a primeira e a única que veio pedir aos padres a recebessem com o que não era seu marido, e fêz dali por diante vida tão reformada e tão cristã, e de tanto afeto e devoção às coisas espirituais, que nunca mais nem ela nem pessoa alguma de sua família, que era muito grande, faltou na igreja à Missa, e às duas doutrinas de cada dia, pegando esta mesma piedade a seu marido. Outro índio moço tem recebido grandes toques, favores e admoestações de Deus em sonhos, que o trazem mui abalado, e se lhe vêem nos desejos, nas palavras e nas resoluções. Uma noite sonhou que se achava na igreja, entre os que tomavam disciplina pelas sextas-feiras da quaresma, mas que êle a não queria tomar; e logo viu sair e caminhar para si um mancebo de muita formosura, o qual, apontando para um lugar alto, que estava coberto com uma cortina, lhe disse que ali estava Deus, mas que se não mostrava, senão aos que faziam penitência dos seus pecados. Então se resolveu a tomar a disciplina, como os demais, a qual acabada, se correu a cortina, e viu sôbre um trono resplandecente como o sol um ser de tanta formosura e grandeza, que ficara fora de si de espanto e de alegria, e que nunca mais perdera nem podia perder a memória do que tinha visto. Outra vez, estando êste índio doente de uma grande inchação, que lhe tomava desde o ombro até a cabeça, e lhe causava grandes dores, sem ter remédio, nem quem lho soubesse aplicar, veio encomendar-se a Deus com grande afeto e confiança. Adormeceu uma noite, e apareceu-lhe aquêle mesmo mancebo, que êle conheceu muito bem, o qual trazia na mão direita uma ave, e na esquerda umas ervas; perguntou-lhe que era o que pedia a Deus, e como dissesse que a saúde, aplicou o mancebo a ave ao lugar inchado, a qual picando com o bico a inchação, fêz um buraco, por onde se purgou a matéria, e logo, pondo-lhe em cima as ervas, ficou sã a ferida. Acordou nisto o enfêrmo, e achou que a inchação verdadeiramente estava rebentada, e brevemente cerrou, e em breve ficou são. Outra vez tornou a sonhar êste índio coisas semelhantes, ordenadas todas à sua salvação, e sendo sempre o ministro ou instrumento delas aquêle mancebo seu conhecido, que ao primeiro entendeu seria o seu Anjo da Guarda, mas ultimamente lhe apareceu em vestido de padre da Companhia. Finalmente, Deus tem nesta seara muitos escolhidos, e se o demônio trabalha tanto para arraigar a cizânia que tem semeado nela, é porque teme e prevê que há de ser lançado fora, de que parece deu um manifesto sinal no mesmo dia em que chegaram os padres, porque, ao cerrar da noite, se ouviu de repente um estrondo tão grande, como de coisa que rebentava que deixou assombrados a todos. Sucedeu isto junto à casa onde os padres estavam agasalhados, e dizem os índios que ali se costumava ver de noite uma figura medonha e afogueada e daquele ponto em diante nunca mais foi vista; o que podemos afirmar com toda a certeza é que a missão dêstes dois padres à Serra de Ibiapaba foi ordenada por particular providência de Deus, e que é vontade do mesmo Deus que assistam e continuem nela, de que nos tem dado tantos testemunhos, e tão claros, que se não podem duvidar. Já deixamos dito que assim os superiores da missão, como os do Brasil, ordenaram que os padres da serra voltassem outra vez para o Maranhão; mandaram-se estas ordens aos padres por muitas e repetidas vias, mas sempre Deus estorvou que chegassem, e por meios em que não só entrou a sua Providência, senão também o braço do seu poder. A primeira destas ordens mandou o padre Francisco Gonçalves, que, acabando de ser provincial do Brasil, veio visitar esta missão, e mandou-a no mesmo barco em que tinha vindo da Bahia; mas, porque o mestre estava desgostado do padre, por certa coisa em que lhe encontrou a vontade, tomou as suas cartas, em que vinha a ordem, e lançou-as ao mar em vingança, e entregou as dos outros padres. A segunda ordem enviada pelo padre provincial do Brasil, Simão Vasconcelos, ao padre Antônio Ribeiro, que estava em Pernambuco, e chegou esta ordem na tarde do mesmo dia em que o padre pela manhã se tinha embarcado e partido para a sua missão. Em Pernambuco, deu o mesmo padre provincial as duas cartas com a mesma ordem ao padre Ricardo Careu, quando de lá se embarcou para o Maranhão, uma para que se desse no Ceará, outra para que se desse em Juruquaquara, que são os dois portos que comunicam com a serra; e, sendo que esta viagem se faz sempre vento a pôpa, tomando-se todos os portos com grande facilidade, o de Ceará nunca o pôde tomar o barco. O de Juruquaquara tomou-o; mas, tanto que lançou ferro para mandar à terra, foi tal o vento e mares que se levantaram subitamente, que a requerimento de todos se houveram de fazer à vela para se não perderem. Neste mesmo tempo quiseram os padres ir esperar na praia pelo padre Careu, de cuja vinda tinham notícia, e no dia em que estavam para partir chegaram à serra alguns soldados, mandados pelo capitão do Ceará, que detiveram os padres alguns dias, e nestes passou o barco. Do Maranhão tornou o mesmo barco a partir para Pernambuco, vindo nêle uma via das mesmas cartas, para que de volta chegassem às mãos dos padres; mas depois de dois meses, em que por muitas vêzes intentou a passagem, tornou arribado ao Maranhão. Com esta tardança, e a primeira notícia de ter passado, trataram os padres de mandar correio por terra ao Maranhão, e depois de um mês de caminho voltaram com as mesmas cartas que levaram, porque os avisaram os teremembés que nas areias havia muitos tapuias de guerra. Insistiram outra vez os padres com segundos correios, e indo êstes passando o Rio Temona, em uma canoa pequena que levavam para as passagens, acometeu-os um tubarão de tão estranha grandeza e fereza, que, perseguidos, houveram de encalhar em terra, e foi entre umas pedras, onde a canoa se fêz em pedaços, e se tornaram com as cartas. Finalmente, se resolveram os padres a levarem em pessoa as mesmas cartas até tal parte do caminho, e entregá-las a tanto número de índios, e de tanto valor, que não voltassem. Estes foram por fim, os que chegaram, depois de haver ano e meio que por nenhuma via se sabiam novas daquela missão. Estavam detidas no Maranhão tôdas as ordens dos superiores, as quais haviam de levar êstes mesmos portadores dali a oito dias, que foi o têrmo que pediram para descansar, e o que tinham limitado pelos padres. Mas quatro dias depois da sua chegada chegou o governador D. Pedro de Melo, e com êle tais ordens de Sua Majestade, e do padre geral, que ficou suspenso por elas o efeito e execução das outras. De Sua Majestade vieram três cartas, em que encarregou ao Governador que o seu primeiro cuidado fosse procurar que na Serra de Ibiapaba estivessem alguns religiosos da Companhia, para terem à sua conta e obediência aquêles índios, e para segurança dos ditos missionários se fizesse o forte de Camuci, que o governador André Vidal tinha intentado. Do padre geral vieram patentes de visitador e superior da dita missão ao padre Antônio Vieira, que sempre fora do voto que a missão da serra se continuasse, tendo para isto razões de tanto pêso, que, mandando-as logo ao padre provincial, se conformou êle e todos os padres da província com elas. De sorte que, procurando-se com tanto cuidado, por novas vias diferentes, do mar e da terra, e em espaço de ano e meio, que chegassem aos padres da serra as ordens por que eram mandados retirar, Deus as impediu e estorvou tôdas por meios tão fora do curso natural das coisas, servindo-se para isso dos ventos, dos mares, dos rios, dos portuguêses, dos índios, dos tapuias, e dos mesmos peixes, para que se visse que era vontade sua que os padres não saíssem daquele lugar, e que os meios que sua Providência tem predestinados para salvação das almas se hão de conseguir infalìvelmente, ainda que seja necessário para isso tirar de seus eixos a toda a natureza.


Cartas do Padre Antônio Vieira[editar]

- XVI -

Escreve o padre Antônio Vieira aos de Ibiapaba; respondem os índios, e mandam visitar o novo govemador do Estado, D. Pedro de Melo, e ao superior das missões, o padre Antônio Vieira; toma tudo melhor forma, e o procura arruinar o demônio.

Com as novas ordens que se mandaram aos padres, foram também cartas aos principais do novo superior da missão, em que lhes dizia que o seu intento e gôsto era dar-lho em tudo o que fosse justo, e que, suposto o amor que tinham às suas terras, que nelas ficariam com êles os padres para os doutrinar, contanto que a êsse fim se unissem todos, e se ajuntassem em uma só igreja. Foi esta nova recebida em Ibiapaba com grande aplauso e festas; e logo mandaram todos os principais, uns a seus irmãos, outros a seus filhos, acompanhados de mais de cinqüenta outros índios, a visitar o novo governador e superior da missão, e um deles, que hoje se chama D. Jorge da Silva, filho do principal mais antigo, para que passasse ao Reino; a beijar a mão a Sua Majestade em nome de todos. Foram recebidos êstes embaixadores com grande festa, que lhes fêz o governador em sua casa, e os padres em o colégio por muitos dias, e tornaram contentes e presenteados êles, com outros mais presentes para seus principais, que é costume mui custoso, e às vêzes mal empregado. Levaram também promessa do padre superior da missão que os iria visitar pelo São João do ano seguinte, com a qual esperança, e com a relação que deram os embaixadores, de quão benévola e liberalmente foram hospedados dos padres, se aplicaram todos à união das aldeias e ao edifício da nova igreja, concorrendo para ela com grande continuação e cuidado; enfim, parecendo, ou podendo parecer que já estavam desenganados das suas suspeitas, e seguros dos seus temores, e que tomavam todos deveras a doutrina dos padres. Mas o demônio ainda se não deu por vencido, e sôbre esta tão diferente urdidura tornou a tecer e continuar a mesma teia de desconfianças, que também lhe tinham saído. Partiu D. Jorge para Lisboa, ficando-lhes no Maranhão, por descuido, as cartas que o padre Antônio Vieira lhe tinha dado; mas bastou ser conhecido por índio da missão Maranhão, para que o conde de Odemira, que foi sempre grande protetor, como obra sua, o mandasse recolher em sua casa, e prover de todo o necessário com muita largueza, e o presenteou depois a el-rei, que Deus guarde, e o enviou outra vez para o Maranhão cheio de mercês de Sua Majestade e suas. Alguns meses antes do São João do mesmo ano mandaram também os principais de Ibiapaba muitos índios de sua nação, e outros de Pernambuco, para trazer à serra ao padre Antônio Vieira, na forma que lho havia prometido; mas como o padre, por enfermidade, e pela expedição das missões do mesmo ano se deteve no Pará até o fim dêle e princípio do seguinte, sôbre esta tardança tornou o demônio a introduzir em Ibiapaba, ou ressuscitar, as mesmas desconfianças dos padres, semeando entre êles, por boca de certos tapuias, que Jorge não fora mandado a Portugal, senão afogado no mar por ordem dos portuguêses, e que os demais os estavam já servindo, repartidos por suas casas e fazendas, como escravos, e que a vinda do padre seria com grande poder e acompanhamento de soldados, para lhes fazer a êles o mesmo. Creram fàcilmente tôdas estas traições os que tão costumados estão a fazê-las; e de uma povoação que pouco antes se tinha feito de três, se fizeram logo mais vinte povoações, para que assim divididos não pudessem ser cercados nem apanhados juntos. Esta foi a resolução que se executou de público, debaixo da qual estava dissimulada outra de maior desatino, que em terem assentado consigo que se até a Páscoa lhes não constasse de certo serem falsas aquelas novas, como os padres lhes diziam, dessem por averiguado o cativeiro dos seus, e tomassem satisfação e vingança dêle nas vidas dos mesmos padres. Tal era a vida que aqui viviam êstes dois religiosos, morrendo e ressuscitando cada dia; antes, morrendo sem ressuscitar, porque o perigo fundava-se na ingratidão e crueldade desta gente, que é a maior do mundo, e a segurança fundava-se na sua fé, que nunca guardaram.

Viagem do Padre Vieira para a Ibiapaba[editar]

- XVII -

Parte o padre Antônio Vieira para a serra; valor com que empreende o caminho por terra com os mais companheiros; gastam vinte e um dias; chegam descalças, e com os pés em chagas; trata da reformação da cristandade; acaba com os índios coisas que pareciam impossíveis.

Chegaram estas notícias ao Maranhão quando chegou do Pará o padre Antônio Vieira, o qual se pôs logo a caminho para a serra, levando consigo a D. Jorge, que havia dois meses tinha chegado com sete padres que vieram do Reino, e levando também a todos os índios que tinham vindo de Ibiapaba, assim tobajarás como pernambucanos, os quais quis Deus que estivessem todos vivos, sãos e contentes. Começou o padre esta viagem por mar; mas, começando a experimentar segunda vez as incertezas e as dilatações dela, se pôs logo a caminho por terra, querendo também por si mesmo ver a grandeza dos rios, e o sítio e a capacidade das terras, por serem tôdas estas notícias absolutamente necessárias a quem há de dispor as missões. Os trabalhos da viagem foram os mesmos que já ficam contados, e puderam ainda ser maiores, por caminharem no mês de março, que é o coração do inverno, mas foi Deus servido que fossem os dias enxutos, como os do verão; só dois houve em que se padeceu alguma chuva, com que parece quis o céu mostrar aos caminhantes a mercê que lhes fazia; porque é qualidade destas areias que cada gota de água que lhe cai se converte em um momento em enxames de mosquitos importuníssimos, que se metem pelos olhos, pela boca, pelos narizes e pelos ouvidos, e não só picam, mas desatinam; e haver de marchar um homem molhado a pé, e comido de mosquitos, e talvez morto de fome, e sem esperança de achar casa nem abrigo algum em que se enxugar ou descansar, e continuar assim as noites com os dias, é um gênero de trabalho que se lê fàcilmente no papel, mas que se passa e atura com grande dificuldade. Vinha com o padre Antônio Vieira, além do irmão companheiro, o padre Gonçalo de Veras, um dos que novamente tinham chegado do Reino, e não sendo muito robusto de forças, vimos nêle, com grande admiração e edificação nossa, as fôrças e o desejo de padecer por Deus; porque, tendo saído quatro meses antes do colégio de Coimbra, levava todos êstes trabalhos com tanta constância, facilidade e alegria, como se nascera e se criara no rigor destas praias. Mas é graça esta própria dos filhos de Santo Inácio, que, pôsto se não criam nisto, criam-se para isto. Acrescentou muito o trabalho e incomodidades do caminho não quererem os padres ficar nêle os dias maiores da Semana Santa; e assim se apressaram, de maneira que acabaram tôda esta viagem em vinte e um dias, que foi a maior brevidade que até agora se tem vista; e como vinham a pé e descalços, muitos dias depois de chegarem lhes não sararam as chagas que traziam feitas nos pés; mas o tempo era de penitência, e de meditar nas de Cristo. Entraram na serra em quarta-feira de trevas pela uma hora; e logo na mesma tarde começaram os ofícios, que se fazem com toda a devoção e perfeição, por serem quatro os sacerdotes, e os índios de Pernambuco terem vozes e música de canto de órgão, com que também cantaram a Missa da quinta-feira, e à sexta-feira à Paixão, em que vieram todos adorar a cruz com grande piedade, e na tarde, ao pôr do sol, se fechou a tristeza daquele dia com uma procissão do entêrro, em que iam todos os meninos e moços em duas fileiras, com coroas de espinhos e cruzes às costas, e por fora dêles, na mesma ordem, todos os índios arrastando os arcos e flechas ao som das caixas destemperadas, que em tal hora, em tal lugar, e em tal gente, acrescentava não pouco à devoção natural daquele ato, O ofício do Sábado Santo, e o da madrugada da Ressurreição, se fêz com a mesma solenidade e festa, a qual acabada, começaram os padres a entender na reforma daquela cristandade, ou na forma e assento que se havia de tomar nela; e porque a matéria era cheia de tantas dificuldades, como se tem visto no discurso de toda esta relação, era necessária muita luz do céu para acertar em os maiores convenientes, e muita maior graça de Deus para os índios os aceitarem, e porem em execução; para alcançar esta luz e graça se tomou por padroeiro de toda a missão da serra a São Francisco Xavier, e se lhe fêz uma novena, em que, além dos exercícios ordinários da religião, que se aplicavam todos para esta tenção, se dizia todos os dias uma Missa do santo, e os padres juntos na igreja tinham pela manhã meia hora de oração mental, e de tarde outra meia hora; uma, a que precedia um quarto de lição espiritual, em que se lia uma meditação, a que também assistiam todos, rematando-se a oração de pela manhã com a Ladainha dos Santos, e à tarde com a de Nossa Senhora, à qual se achavam também os meninos da aldeia, e muitos outros homens e mulheres, por se acabar esta devoção na hora em que começava a doutrina. Estava neste tempo no altar uma devota imagem de São Francisco Xavier em hábito de missionário, batizando um índio; e esperamos que, assim como Deus tem feito êste grande apóstolo tão milagroso na Europa, na África e na Ásia, se estenderão também os favores da sua valia e intercessão a esta parte da América. A primeira, que se resolveu e executou logo, foi que todos os índios de Pernambuco saíssem, e fôssem para o Maranhão, como são idos, e se espera grande quietação e proveito espiritual de uns e outros, porque os pernambucanos, com a vizinhança e sujeição dos portuguêses, estando debaixo de suas fortalezas, acudirão a suas obrigações, como têm prometido, e poderão ser obrigados a isso por fôrça, quando o não façam por vontade; e os da serra, sem o exemplo e doutrina dos pernambucanos, que eram os seus maiores dogmatistas, ficarão mais desimpedidos e capazes de receber a verdadeira doutrina, e de os padres lhes introduzirem a forma da vida cristã, o que, endurecidos com a contrária, se lhes não imprimia. Assim mais se assentou com os principais, e com todos os cabeças da nação, que se tornariam logo a unir em uma só povoação, em que se faria igreja capaz para todos; que os que estão ainda por batizar se batizariam; que todos mandarão seus filhos e filhas à doutrina duas vêzes no dia, e à escola; que nenhum terá mais que uma mulher, recebendo-se com ela em face da Igreja; que se confessarão todos ao menos uma vez pela desobrigação da quaresma. Enfim, que guardarão inteiramente a lei de Deus e obediência à Igreja, na qual se criou um ofício de executor eclesiástico, chamado Braço dos Padres, e se proveu em um índio zeloso, e de grande autoridade, irmão do maior principal, para obrigar a todos a virem à igreja, e cumprirem com outras obrigações de cristãos, e os castigar e apenar, se fôr necessário. De tudo isto se fêz assento por papel, de que se deu uma cópia a cada um dos principais, querendo e pedindo êles que lhes ficasse, para que depois se lhes tome conta por ela, e se veja quem melhor a cumpriu. E por que a reformação começasse pelos maiores, e pelo ponto de maior dificuldade, os três principais foram os primeiros que se apartaram das concubinas, e se receberam com a mulher que por direito era legítima, fazendo ofício de pároco o padre superior da missão, e concorrendo com boa parte da despesa para a festa das bodas, que duraram por doze dias e doze noites contínuas.