Deus (Luís Delfino)

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Deus
por Luís Delfino
Publicada em Rosas Negras.


Of Heaven, and from eternal splendours flung
For his revolt...
Milton — Paradise Lost

Deus existe? — ou é Deus somente um nome vão?...
E bato às portas de oiro e de opala da aurora,
Donde o sol — velho leão — noite e estrelas devora;
E às estrelas da noite em louco turbilhão...
 
Ao mar, ao vento, ao raio, ao tempo, ao abismo em fora,
Ao argueiro, e à montanha, às lavas, e ao vulcão,
Ao passado, ao porvir, ao berço, à cova.. Embora!...
Cala-se a natureza ou me responde: — Não.
 
Subo à minha alma então: chamo-a, interrogo-a... Nada...
E ela fica a oscilar, no abismo pendurada,
Vendo o espaço afundar-se em outro espaço sem fim...
 
Só entre o torvelim dos caos em labirinto,
Como com seu bordão na areia um cego, — o instinto
Sobre a poeira dos sóis grava um trêmulo — Sim.