Dias tristes

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Dias tristes
por Cruz e Sousa
Texto publicado em Missal

Apesar do sol, que imensa tristeza para certos seres, que dias tristes, esses, de uma melancolia e dolorosa névoa...

Os ruídos todos, o esplendor da luz, convergindo em foco para o coração, deslumbram, fascinam de modo tal e tão e tão profundamente, que o abatem, infiltrando-lhe essa tristeza infinita que não se define e que está, como um fundo de morbidez, nas almas contemplativas e nômades, que vão armar a sua tenda nas desconhecidas e longínquas paragens abstratas do Pensamento.

Dias triste, muita vez, os dias de sol.

Mergulhado o espírito na onda profunda de desejos irresistíveis, como numa intensa e luxuriosa paixão, os aspectos que se lhe manifestam na Natureza são amargos, atravessados dessa pungência aflitiva, dessa magoante desolação e atormentadora ironia que há na essência de todas as coisas e idéias.

E, como o pensar dá uma grande tristeza, põe no cérebro uma incomparável tortura, o Pensamento, à evidência da luz, da alegria do sol, deixa-se possuir de um nervosismo triste, de um meio luar turvo e trágico de impressões agudas, dilacerantes.

Os dias tristes, para raras naturezas intelectuais, são quase sempre os dias triunfantemente alegres, sonorizados de pássaros, quando há uma alta irradiação no ar, um repouso, uma paz feliz em toda a vegetação e que o sol, numa vitória astral, vai, como um deus pagão, em festins de luz...

Como que filtros de dolorimento partem de todas essas luminosidades, todo esse fulgor solar verte uma nostalgia cruciante, que fere e fende o peito, incisivamente, como as flechas letalmente envenenadas dos hindus.

Quanto a mim, amargamente sinto esses dias tristes.

À larga luz de um templo vasto, na suntuosidade de uma festa católica, quando pela infinidade de rutilantes lustres acesos há facetas de estrelas, íris fulgurantes e pelos doiramentos dos altares borboleteiam faíscas, acendem-se chamas nas velas amareladas, e vozes flébeis, numa compunção religiosa, sobem para as naves com a vaporosidade dos brancos incensos, dentre músicas festivas, - um angustioso anseio me insufla, me enche infinitamente o peito.

E, batido de uma pungência, vibrado de uma recordação, alanceado por uma idéia, subitamente para logo, toda a aparente radiação de alegria foge e eu me vejo então dentro dos meus dias tristes em que alguém, dos longos do Passado, acena-me, ou com um lenço amoroso, para as recônditas e virgens emoções do coração, ou com uma bandeira de combate, para as impulsivas faculdades do cérebro.

Se um riso me aflora aos lábios, nervosamente, se uma verve satânica os inflama; se uma esfuziante sátira os eletriza, é ainda assim uma maneira de ser triste, apunhalante sarcasmo às tempestades mentais que se dão por dentro, - humorismo doente, que para se convencer de que é alegre e de que é são, flori em rosas de riso, abre em Via Láctea de riso.

O esplendor das salas iluminadas, na abundância de cristais e flores, entre auroras de mulheres e luxuosas roupagens, dá-me também, a pouco e pouco, um abatimento, um afrouxamento aos nervos e daí nasce-me logo, como uma tentaculosa planta negra e de morte, essa indescritível tristeza, que é a feição ingênita de tudo, que cobre tudo como que de uma neblina crepuscular sensibilizante...

Assim também, ao almoço, pelas claras manhãs, quando a toalha branca da mesa, as flores das jarras, o pão, o vinho, atitude correta das pessoas, a limpidez simpática da hora, fazem lembrar resplandecências, alvuras claras, paramentações de altar para a evangélica celebração da Missa, um sentimento de inexplicável tristeza me invade, nascido de toda essa disposição harmoniosa de objetos e de pessoas. E, abstratamente, como num nebuloso sonho, durante toda a alimentação desenrola-se lenta, vagarosa e fluida no meu ser, uma surdina oceânica que parece estar, na plangência de sons abafados, lembrando todas as abundantes fontes de afeto que para mim já para sempre secaram, todos os astros prodigiosos de enternecedor carinho que para mim já eternamente se apagaram.

Mas esses dias tristes, as horas, os momentos desses nevoeiros d’alma, tão densos, tão cerrados, nascem apenas de uma Visão que se adora, que nos abre inefavelmente os braços, que o espírito ama no seu recolhimento, na sua cela sombria e muda! essa Visão seráfica, nervosa histérica, ideal - a Santa Teresa mística da Arte.