Diccionario Bibliographico Brazileiro/D. Anna Theophila Filgueiras Autran

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Diccionario Bibliographico Brazileiro por Sacramento Blake
D. Anna Theophila Filgueiras Autran


D. Anna Theophila Filgueiras Autran - Filha do doutor Henrique Antran da Matta Albuquerque e de dona Eduarda de Amorim Filgueiras Autran, nasceu na cidade da Bahia a 28 de dezembro de 1856.

Uma das proposições, qúe escrevi em seguida á minha dissertação inaugural, foi a seguinte: « A firmeza é um apanagio mais do bello sexo do que do homem », proposição em que fui arguido pelo meu illustrado e venerando mestre o conselheiro Manoel Mauricio Rebouças. Depois, porém, desenvolvendo a mesma proposição n'um artigo que publiquei em um dos periodicos litterarios da côrte, eu disse que, si as mulheres não se davam ás sciencias e ás lettras com o mesmo amor ou perseverança comque se dão os homens, era isto devido sómente á sua educação, toda outra; mas não porque não sejam dotadas do mesmo grau de intelligencia; e que, quando cultivada esta, ellas marchavam na vanguarda das sciencias como aquelles que as sciencias mais se dedicam, citando para o comprovar os nomes das D'Estael, Ricoboni, Sevignac e outras.

Dona Anna Autran é mais uma prova do que então aventurei. Não conheço no céo da inteliigencia patria uma estrella que mais cedo brilhasse, sem deixar nunca de ostentar seu brilho. Dos apontamentos que da Bahia recebi a respeito de dona Anna Autran, subministrados por pessoa de sua familia, e portanto authenticos, consta o seguinte:

« Aos quatro annos de idade já apresentava uma notavel aptidão para as lettras, ora decorando com facilidade versos, orações e pequenos discursos, ora argumentando com uma logica nunca vista nesta idade sobre pontos de arithmetica e religião.

« Um anno depois jà lia qualquer escripto que se lhe apresentasse, e aos nove annos incompletos finalisava os seus primeiros estudos com louvor e admiração de seus proprios mestres.

« Aos dez annos começou a sua vida litteraria com a estréa de uma poesia repassada de ternura e melancolia; e aos doze principiou a dar publicidade a alguns escriptos.

« Com quatorze sustentou pela imprensa uma renhida discussão litteraria por alguns mezes - A mulher e a litteratura - com uma das primeiras capacidades de sua provincia, etc. »

Escreveu:

- A mulher e a litteratura: serie de artigos publicados no Diario da Bahia de 15 de julho a 15 de novembro de 1871 - São os artigos da discussão a que se referem os apontamentos que possuo. Era seu contendoro o distincto e illustrado jornalista Bellarmino Barreto, de quem se trata neste volume.

- Devaneios: poesias. Bahia, 1877, 253 pags. in-8º- Precedem este livro o juizo critico do doutor Filgueiras Sobrinho e de Domingos Joaquim da Fonseca, a dedicatoria a seu pai, e o prologo. Contém 54 composições poeticas.

- Suspiros hungaros - Sahiu este escripto no Diario da Bahia do 20 de julho de 1878.

- Os desterrados da Siberia - No Monitor da Bahia, de 28, 29, 30 e 31 de outubro e de 1 de novembro de 1879.

Das diversas composições poeticas, que dona Anna Autran tem exparsas, umas impressas, outras manuscriptas por mãos diversas, transcrevo a seguinte, que se acha no « Novo almanak de lembranças luso-brazileiro para o anno de 1873 » publicado em 1872, quando tinha a autora quinze para dezeseis annos:

- Teus olhos.

      Ai de mim.
Já não sei qual'fiquei sendo
      Depois que os vi.
                      (G. DIAS.)

     Teus olhos lindos, brilhantes,
a fitar meus olhos vi;
olhei outra vez, olhei-os,
e ainda olhavam para mi...
Baixei os melus - e corando,
Olhei de novo e tremi...

    Tremi de enleio? Talvez.
Tremi de amores? Não sei!...
Deixei de olhar-te? Mentira,
por muitas vezes te olhei...
e sempre, sempre teus olhos
os meus fitando encontrei.

    De livre -vil-me escrava
quando via os olhos teus;
medrosa, não queria olhar-te,
não queria, sabe-o Deus;
mas não sei que mage encanto
te volvia os olhos meus!...

   Busquei fugir-te debalde,
foi debalde que o busquei;
que sempre, sempre teus olhos
nos meus pregados achei;
eu tinha mêdo d olhar-te,
e sempre, sempre te olhei.

   Mas quando não vi teus olhos
fitar os meus com ardor,
ainda senti mais vivo
o seu fogo abrazador...
a causa inqueri, chorei...
o pranto disse-me amor.

Parece-me que não me levarão a mal, transcrevendo, quando trato de poetas, principalmente de senhoras, algum trecho de poesia. Ao menos penso tornar mais amena a leitura deste livro.