Discurso do Marechal Costa e Silva ao tomar posse no cargo da Presidência da República (15 de março de 1967)

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Discurso de posse como Presidente da República
por Artur da Costa e Silva


DISCURSO PROFERIDO NO PALÁCIO DO PLANALTO, EM BRASÍLIA, A 15 DE MARCO DE 1967,

DEPOIS DE RECEBER A FAIXA PRESIDENCIAL DAS MÃOS DO MARECHAL HUMBERTO DE ALENCAR CASTELLO BRANCO.


É com grave emoção que recebo das mãos honradas de Vossa Excelência as insígnias simbólicas da magistratura suprema da República. Tenho consciência nítida e profunda da significação desta ato e deste momento. Para eles vêm confluir as esperanças e as incertezas, as aspirações e as realidades de um novo simples e bom, sofredor e paciente, tocado do sentimento caloroso da terra em que nasceu e da sua vocação para a grandeza.

Quem deixa um cargo desta altitude, nas condições em que Vossa Excelência o faz, não leva, apenas, a tranquilidade de uma consciência alta e límpida, que se empenhou, dia por dia, no cumprimento dos deveres mais ásperos, que jamais pesaram sobre o espírito e o coração de um homem de Estado, em tempos dos mais tormentosos da vida nacional; deixa também, como sinal de sua passagem, traço luminoso e vivo, que é diretriz, lição, exemplo. Em verdade, o Governo de Vossa Excelência constitui-se em diretriz de decisão,de firmeza e constância numa hora espessa, de inquietudes, incertezas e vacilações; lição de austeridade e espírito público, exemplo de'coragem e honradez. Eis aí virtudes que me parecem pertencer à própria essência do exercício do cargo que Vossa Excelência ilustrou tão vivamente.

A Presidência da República não í apenas uma forma de exercício administrativo. É muito mais do que um cargo executivo. É, acima de tudo, um posto de comando moral. Assim a compreendo e assim quero exercê-la, com a suprema aspiração de ser útil ao meu Pais, na medida humilde do que sou.

Não me iludo com as provações e tropeços que me esperam, os fluxos e refluxos da opinião pública, a desconexão dos esforços, os emperramentos da máquina administrativa, as incertezas políticas, os choques de ambições, os desacordos, as divergências e as discórdias que caracterizam a vida pública. Conheci intimamente as vicissitudes que a paciência e a tolerância têm de afrontar para atingir o termo de cada dia de governo. Sei como se tentou e se continuará tentando associar os inconciliáveis — inflação e prosperidade — e dissociar os que só conseguem marchar juntos — desenvolvimento e educação.

Senti, acima de tudo, as dificuldades ingentes que as dimensões extraordinárias do nosso Pais levantam a qualquer ação do administrador. Posso afirmar que assisti, ao desdobrar-se dos atos mais penosos de um governo, que, sendo inicialmente de preparação, conseguiu ser muito mais do que isso e muito realizou. Nele tomei parte ao lado de Vossa Excelência. Foi uma das fases mais dificultosas do nosso regime republicano, em que o Governo teve de desdobrar-se entre as imposições imperativas da ordem e da autoridade, sem deixar de acudir aos anseios de liberdade e, de mistura com eles, enfrentar as incompreensões, a má-fé e a cobiça do poder.

Trago, pois, para exercício da Presidência, uma larga lição de experiência — propiciada pela ação direta, pela observação e pela reflexão — do trato da coisa política, que requer paciência e tolerância contínuas, e do trato da coisa pública, que impõe esforço constante de inteligência, coragem e tenacidade. Acima de tudo, trago preparados espírito e coração. Confio em que não decairei, jamais, da confiança dos meus concidadãos e da rica herança que recebo das mãos honradas de Vossa Excelência. E peço a Deus que me conceda a graça de ser sempre justo e isento, firme na palavra empenhada e inflexível na ação necessária, e consagre a minha esperança de fazer pelo Brasil o que ele espera e merece.