Discurso sobre a História da Literatura do Brasil/II

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Discurso sobre a História da Literatura do Brasil por Gonçalves de Magalhães
Capítulo II


O Brasil, descoberto em 1500, jazeu três séculos esmagado debaixo da cadeira de ferro em que se recostava um Governador colonial com todo o peso de sua insuficiência e de seu orgulho. Mesquinhas intenções políticas, por não dizer outra coisa, ditavam leis absurdas e iníquas que entorpeciam o progresso da civilização e da indústria. Os melhores engenhos em flor morriam, faltos desse orvalho protetor que os desabrocha. Um ferrete ignominioso de desaprovação , gravado na fronte dos nascidos no Brasil, indignos os tornava dos altos e civis empregos. Para o Brasileiro, no seu país, obstruídas e fechadas estavam todas as portas e estradas que podiam conduzi-lo à ilustração. Uma só porta ante seus passos se abria: era a porta do convento, do retiro, do esquecimento ! A religião lhe franqueava essa porta, a religião a fechava sobre seus passos; e o sino que o chamava ao claustro anunciava também sua morte para o mundo. O gàanio em vida sepultado, cerca de místicas imagens, apenas saía para catequizar os índios no meio das florestas virgens, ou para pregar aos colonos, nos dias de repouso, as verdades do Evangelho. Mas em vão. As virtudes do cristianismo não se podiam domiciliar nos corações desses homens, encharcados de vícios e tirados, pela maior parte, dos cárceres de Lisboa para vir povoar o Novo Mundo. Deus nos preserve de lançar o opróbrio sobre ninguém. Era então um sistema o de fundar colônias com homens destinados ao patíbulo; era basear uma Nação nascente sobre todas as espécies de vícios e de crimes. Tais homens para seus próprios filhos olhavam como para uma raça degenerada e inepta para tudo. Quanto aos índios, esses infelizes perseguidos eram, a ferro e fogo, como se fossem animais ferozes. Nem eles em outra categoria eram considerados pelos seus arrebanhadores. Sabe-se que necessário foi que uma bula do Papa Paulo III os declarasse verdadeiros homens e capazes, por isso, da fé de Crsito, sem o quê, talvez, os Europeus os houvessem de todo exterminado ! Da barbaridade de tais homens, traça Simão de Vasconcelos um quadro bem triste, dizendo: "os Portugueses que ali estavam e começavam a povoar esses lugares, viviam a modo de gentios e os gentios, com o exemplo destes, iam fazendo menos conceito da lei de Cristo e, sobretudo, que vivam aqueles Portugueses de um trato vilíssimo, salteando os pobres Índios, ou nos caminhos, ou em suas terras, servindo-se deles e anexando-os contra todas as leis da razão". E mais abaixo diz ainda: viviam ( os Portugueses) do rapto dos Índios, e era tido o ofício de salteá-los por valentia e por ele eram os homens estimados"*

Tal era o estado daqueles tempos ! Que podemos nós ajuntar a essas citações ? Tal era toda a indústria, arte e ciência dos primeiros habitantes portugueses das terras de Santa Cruz ! Triste é, sem dúvida, a recordação dessa época, em que o Brasileiro, como lançado em terra estrangeira, duvidoso em seu próprio país, vagava, sem que dizer pudesse: "isto é meu, neste lugar nasci !". Envergonhava-se de ser Brasileiro e, muitas vezes, com o nome de Português se acobertava para ao menos aparecer como um ente da espécie humana e poder alcançar um emprego no seu país. Destarte, circunscrito em tão curto estádio, estranho à nacionalidade e sem o incentivo da glória, ia este povo vegetando oculto e arredado da civilização.

Quem não dirá que Portugal, com esse sistema opressor, só curava de atenuar e enfraquecer esta imensa colônia, porque conhecia sua própria fraqueza e ignorava seus mesmos interesses ? Quem não dirá que ele temia que a mais alto ponto o Brasil se erguesse e lhe ofuscasse a glória ? Assim é que um bárbaro senhor algema seu escravo, receoso que ele lhe fuja e só lhe desprende os braços para seu serviço em rústicos trabalhos. A Economia política t em combatido vitoriosamente o erro que desde muito grassava na política, que um povo não pode prosperar senão à custa de outro povo e com sacrifício de tudo que o rodeia. A política, essa que, à imitação dos Romanos e de todos os povos dos baixos tempos, Portugal exerceu sobre o Brasil.

O tempo sancionou as verdades que a história e a memória recente dos fatos nos recordam e o tempo, prosseguindo em sua marcha, irá mostrando qual é o destino que a Providência tem marcado a este Império da América. A Deus não praza que esse perigoso fermento que entre nós gira, esse germe da discórdia, resaibo (?) ainda de não apurada educação, e sobretudo a escravidão, tão contrária ao desenvolvimento da indústria e das artes e tão perniciosa à moral, não impeçam sua marcha e engrandecimento.

Parecerão, talvez, estas considerações fora do objeto a que nos propomos, mas intimamente a ele se ligam e o explicam. Ainda uma vez e por outras palavras diremos que o nosso propósito não é traçar cronologicamente as biografias dos autores brasileiros mas sim a história da literatura do Brasil, que toda a história, como todo drama, supõe uma cena, atores, paixões e um fato que, progressivamente, se desenvolve, que tem sua razão e um fim. Sem estas condições, não há história, nem drama.

Através das espessas trevas em que se achavam envolvidos os homens neste continente americano, viram-se alguns espíritos superiores brilhar de passagem, bem semelhantes e essas luzes errantes que o peregrino admira em solitária noite nos desertos do Brasil; sim, eles eram como pirilampos que, no meio das trevas, fosfoream. E poder-se-á, com razão, acusar o Brasil de não ter produzido inteligências de mais subido quilate ? Mas que povo escravizado pôde cantar com harmonia, quando o retinido das cadeias e o ardor das feridas sua existência torturaram ? Que colono tão feliz, ainda com o peso sobre os ombros e, curvado sobre a terra, a voz ergueu no meio do universo e gravou seu nome nas páginas da memória ? Quem, não tendo a consciência da sua livre existência, só rodeado de cenas de miséria, pôde soltar um riso de alegria e exalar o pensamento de sua individualidade ? Não, as ciências, a poesia e as belas-artes, filhas da liberdade, não são partilhas do escravo, irmãos da glória, fogem do país amaldiçoado, onde a escravidão rasteja e só com a liberdade habitar podem.

Se refletirmos, veremos que não são poucos os escritores, para um país que era colônia portuguesa, para um país onde, ainda hoje, o trabalho do literato, longe de assegurar-lhe com a glória uma independência individual, e um título de mais reconhecimento público, parece, ao contrário, desmerecê-lo e desviá-lo da liga dos homens positivos que, desdenhosos, dizem: é um poeta ! sem distinguir se apenas é um trovista ou um homem de gênio, como se dissessem: eis aí um ocioso, um parasita, que não pertence a este mundo. Deixai-o com a sua mania.

Aí canta o poeta por mera inspiração celeste, por essa necessidade de cantar, para dar desafogo ao coração. Ao princípio, cantava para honrar a beleza, a virtude e seus amores. Cantava ainda para adormentar as amarguras da alma, mas logo que a idéia da pátria apareceu aos poetas, começaram eles a invocá-la para objeto dos seus cânticos. Sempre, porém, como o peregrino no meio dos bosques que vai cantando sem esperança de recompensa, o poeta brasileiro não é guiado por nenhum interesse e só o amor mesmo, da poesia e da pátria o inspira. Ele pode dizer com o épico português:

Vereis amor da pátria, não movido
De prêmio vil.

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Se em total esquecimento muitos deles existem, provém isto, em parte, da língua em que escrevem, que tão pouco conhecida é a língua portuguesa na Europa, principalmente em França, Inglaterra e Alemanha, onde mais alto soa o brado da fama e colossal reputação se adquire. Em parte, sobre nós deve recair a censura, que tão pródigos somos em louvar a admirar os estranhos, quão mesquinhos e ingratos nos mostramos para com os nossos e, deste jeito, visos damos que nada possuímos. Não pretendemos que a esmo se louve tudo o que nos pertence, só porque é nosso; vaidade fora insuportável. Mas por ventura vós que consumistes vossa mocidade no estudo dos clássicos latinos e gregos, vós que ledes Racine, Voltaire, Camões ou Felinto Elíseo e não cessais de admirá-los, muitas vezes mais por imitação que por própria crítica, dizei-me: apreciastes vós as belezas naturais de um Santa Rita Durão, de um Basílio da Gama e de um Caldas ?

Toca ao nosso século restaurar as ruínas e reparar as faltas dos passados séculos. Cada Nação livre reconhece hoje mais que nunca a necessidade de marchar. Marchar para uma Nação é engrandecer-se moralmente, é desenvolver todos os elementos da civilização. É pois mister reunir todos os títulos de sua existência para tomar o posto que justamente lhe compete na grande liga social, como o nobre recolhe os pergaminhos da sua genealogia para na presença do soberano fazer-se credor de novas graças. Se o futuro só pode sair do presente, a grandeza daquele se medirá pela deste. O povo que se olvida a si mesmo, que ignora o seu passado, como o seu presente, como tudo o que nele se passa, esse povo ficava sempre na imobilidade do império Indochinês.

Nada de exclusão, nada de desprezo. Tudo o que poder concorrer para o esclarecimento da história geral dos progressos da humanidade merecer deve a nossa consideração. Jamais uma Nação poderá prever o seu futuro, se não conhece o que ela é comparativamente com que ela foi. Estudar o passado é ver melhor o presente, é saber como se deve marchar para um futuro mais brilhante. Nada de exclusão; a exclusão é dos espíritos apoucados, que em pequena órbita giram, sempre satélites, e só brilhantes de luz emprestada. O amante da verdade porém, por caminhos não trilhados, em tudo encontra interesse e objeto de profunda meditação; como o viajor naturalista que se extasia na consideração de uma florzinha desconhecida, que o homem bronco tantas vezes vira com desprezo. O que era ignorado, ou esquecido, romperá destarte o envoltório de trevas, e achará devido lugar entre as coisas já conhecidas e estimadas.

Depois de tantos sistemas exclusivos, o espírito eclético anima o nosso século; ele se levanta como um imenso colosso vivo, tendo diante dos olhos os anais de todos os povos, em uma mão o archote da filosofia aceso pelo gênio da investigação, com a outra aponta a esteira luminosa onde se convergem todos os raios de luz, escapados do brandão que sustenta. - Luz e progresso; eis sua divisa.

Não, oh Brasil, no meio do geral movimento tu não deves ficar imóvel e apático, como o colono sem ambição, e sem esperanças. O gérmen da civilização, lançado em teu seio pela Europa, não tem dado ainda os frutos que devia dar; vícios radicais têm tolhido seu desenvolvimento. Tu afastaste de teu colo a mão estranha que te sufoca; respira livremente, cultiva com amor as ciências, as letras, as artes e a indústria, e combate tudo o que entrevá-las pode.