Discurso sobre a História da Literatura do Brasil/IV

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Discurso sobre a História da Literatura do Brasil por Gonçalves de Magalhães
Capítulo IV


Pode o Brasil inspirar a imaginação dos poetas e ter uma poesia própria ? Os seus indígenas cultivaram porventura a poesia ?

Tão geralmente conhecida é hoje esta verdade que a disposição e caráter de um país grande influência exerce sobre o físico e o moral dos seus habitantes que a damos como princípio e cremos inútil insistir em demonstrá-lo com argumentos e fatos, por tantos naturalistas e filósofos apresentados. Aí estão Buffon e Montesquieu que assaz o demonstram. Ainda hoje, poetas europeus vão beber no Oriente as suas mais belas inspirações; Byron, Chateaubriand e Lamartine sobre seus túmulos meditaram. Ainda hoje se admira o tão celebrado céu da Grécia e da Itália, o céu que inspirou a Homero e a Píndaro e o que inspirou a Virgílio e Horácio. Vimos esse céu que cobre as ruínas do Capitólio e do Coliseu. Sim, é belo esse céu, mas o do Brasil não lhe cede em beleza! Falem por nós todo os viajores que, por estrangeiros, não os tacharão de suspeitos. Sem dúvida que eles fazem justiça e o coração do Brasileiro, não tendo por hora muito do que se ensoberbeça quanto às produções das humanas fadigas, que só com o tempo se acumulam, enche-se de prazer e palpita de satisfação, lendo as brilhantes páginas de Langsdorff, Neuwied, Spix et Martius, Saint-Hilaire, Debret e de tantos outros viajores que revelaram à Europa as belezas da nossa pátria.

Este imenso país da América, situado debaixo do mais belo céu, cortado de tão pujantes rios, que sobre leitos de ouro e de preciosas pedras rolam suas águas caudalosas; este vasto terreno revestido de eternas matas onde o ar está sempre embalsamado com o perfume de tão peregrinas flores que em chuveiro se despencam dos verdes doceis [sic] formados pelo entrelaçamento de ramos de mil espécies; estes desertos remansos onde se anuncia a vida pela voz estrepitosa da cascata que se desempenha, pelo doce murmúrio das auras e por essa harmonia grave e melancólica de infinitas vozes e quadrúpedes; este vasto Éden, entrecortado de enormíssimas montanhas sempre esmaltadas de copada verdura, em cujos topes o homem se crê colocado no espaço, mais perto do céu que da terra, vendo debaixo de seus pés desenrolar-se as nuvens, roncar as tormentas e rutilar o raio; este abençoado Brasil com tão felizes disposições de uma pródiga natureza, necessariamente devia inspirar os seus primeiros habitantes; os Brasileiros - músicos e poetas - nascer deviam. E quem o duvida ? Eles foram e ainda o são.

Por alguns escritos antigos, sabemos que algumas tribos indígenas se avantajam pelo talento da música e da poesia, entre todas, os Tamoios, que no Rio de Janeiro habitavam ,eram os mais talentosos. Em seus combates, inspirados pelas cenas que os rodeavam, repetiam hinos guerreiros com que acendiam a coragem nas almas dos combatentes e, nas suas festas, cantavam em coros alternados de música e dança, cantigas herdadas de seus maiores.

Em um manuscrito antigo, cujo autor ignoramos quem seja*, lemos o seguinte: "São havidos estes Tamoios por grandes músicos entre o gentio e bailadores os quais são mui respeitados dos gentios por onde quer que vão". Não era só a tribo dos Tamoios que se distinguia pelo gênio musical e poético, também os Caetés a ainda mais os Tupinambás que em paz vivam com os primeiros e pela língua e costumes mais com aqueles se assemelhavam. No mesmo manuscrito, lemos ainda: "Os Tupinambás se prezam de grandes músicos e a seu modo cantam com sofrível tom os quais têm boas vezes [sic] mas todos cantam por um tom e os músicos fazem motes de improviso e suas voltas que acabam no consoante do mote, os quais cantam e bailam juntamente em roda."

Do respeito religioso que tais bárbaros consagram aos seus homens inspirados, uma prova nos dá o mesmo autor dizendo: "Entre os gentios são os músicos muito estimados e, por onde quer que vão, são bem agasalhados e muitos atravessam já o sertão por entre os seus contrários sem lhes fazerem mal".

Tal veneração os [sic] seus cantores lembra-nos esses trovadores que, de país em país, peregrinavam e ante os quais se abriam as portas dos castelos dos senhores da idade média e ainda a respeitosa magnanimidade do grande conquistador antigo para a família do Lírico grego. É que à poesia e à música e dado o assenhoriar-se da liberdade humana, vibrar as fibras do coração, abalar e extasiar o espírito. Por meio dessas duas potências sabiamente empregadas pelos Jesuítas missionários do Brasil, os selvagens abandonavam os seus bosques e se amoldavam ao cristianismo e à civilização*. Só as teorias de alguns homens que se inculcam de positivos, e mal estudam a natureza, desmerecer podem a importância social dessas duas irmãs e apenas considerá-las como meras artes de luxo e de recreação dos ociosos. Mas não é nosso intento agora tecer o panagírico [sic] da poesia e da música.

Os apóstolos do Novo Mundo, tão solícitos entre os Indígenas do Brasil, na propaganda da fé católica, compunham e traduziam em língua túpica [sic] alguns hinos da Igreja, para substituir aos seus cânticos selvagens, mas não consta que se dessem ao trabalho de recolher, ou de verter em língua portuguesa, os cânticos dos Índios. Posto que nenhum documento sobre isso tenhamos, contudo, talvez, a todo tempo alguns se encontrem na poeira das bibliotecas conventuais, com especialidade nas da Bahia. Que precioso monumento para nós não fora desses povos incultos que quase têm desaparecido da superfície da terra, sendo tão amigos da liberdade que, para evitar o cativeiro, caíam, de preferência, debaixo dos arcabuzes dos Portugueses que tentavam submetê-los ao seu jugo tirânico! Talvez tivessem eles de influir na atual poesia brasileira como os cânticos dos bardos influíram na poesia do Norte da Europa, harmonizando seus melancólicos acentos com a sublime gravidade do cristianismo.

Do que fica dito, podemos concluir que o país se não opõe a uma poesia original, antes a inspira. Se até hoje a nossa poesia não oferece um caráter inteiramente novo e particular, é porque os nossos poetas, dominados pelos preceitos, limitaram a imitar os antigos que, segundo diz Pope, é imitar mesmo a natureza, como se a natureza se ostentasse em todas as regiões e, diversos sendo os costumes, as religiões e as crenças, só a poesia não pudesse participar dessa atividade, dessa variedade, nem devesse exprimi-la. Faltou-lhes a força necessária para se despojarem do jugo dessas leis arbitrárias dos que se arvoram em legisladores do Parnaso. Depois que Homero, inspirado pelo seu próprio gênio, sem apoio de alheia crítica, se elevou à grandeza da epopéia, criação sua, e Píndaro do mesmo modo à sublimidade da lírica, vieram, então, os críticos e estabeleceram as regras. Convém, é certo, estudar os antigos e os modelos dos que se avantajaram nas diversas composições poéticas, mas não escravizar-se pela cega imitação. "O poeta independente", diz Schiller, "não reconhece por lei senão as inspirações de sua alma e, por soberano, o seu gênio".

Só pode um poeta chamar-se grande se é original, se de seu próprio gênio recebe as inspirações. O que imita alheios pensamentos, nada mais é que um tradutor salteado, como é o tradutor um imitador seguido e igual é o mérito de ambos. E por mais que se esforcem, por mais que com os seus modelos emparelham, ou mesmo que os superem, pouca glória por isso lhes toca, tendo só, afinal, aumentado a daqueles.

Como não estudamos a história só com o único fito de conhecer o passado, mas sim com o fim de tirar úteis lições para o presente, assim,