Dyptico

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Dyptico
por António Feijó


I M. ***

Perguntas d'onde vem a timidez estranha,
Este quasi terror com que te fallo e escuto,
Como se a sombra hostil d'uma grande montanha,
Que se erguesse entre nós, me cobrisse de luto.

Ignoras a razão d'este absurdo respeito
Com que te beijo a mão, que estendes complacente,
— Fria do ardor que tens concentrado no peito,
Que mão fria é signal de coração ardente.

E admiras-te de ver que os olhos baixo, e tremo,
— Se passas como um sol de planetas cercado--
Sem dar mostras sequer d'esse orgulho supremo
De quem se sente eleito entre todos, e amado!

Não podes conceber que uma paixão tão alta
Se vista de recato ou de pudor mesquinho...
Mas, se é sincero, o Amor só a occultas se exalta,
Faz-se tanto maior quanto é discreto o ninho.

E tudo o que tu crês fingida gravidade
É uma intima oblação, pois nas almas piedosas
O Verdadeiro Amor é feito de humildade:
Sobre o annel nupcial não ha pedras preciosas.

II EU E TU

Dois! Eu e Tu, num ser indissoluvel! Como
Brasa e carvão, scentelha e lume, oceano e areia,
Aspiram a formar um todo,--em cada assomo
A nossa aspiração mais violenta se ateia...

Como a onda e o vento, a lua e a noute, o orvalho e a selva
— O vento erguendo a vaga, o luar doirando a noute,
Ou o orvalho inundando as verduras da relva--
Cheio de ti, meu ser d'effluvios impregnou-te!

Como o lilaz e a terra onde nasce e floresce,
O bosque e o vendaval desgrenhando o arvoredo,
O vinho e a sêde, o vinho onde tudo se esquece,
— Nós dois, d'amor enchendo a noute do degrêdo,

Como partes d'um todo, em amplexos supremos
Fundindo os corações no ardor que nos inflamma,
Para sempre um ao outro, Eu e Tu, pertencemos,
Como se eu fôsse o lume e tu fôsses a chamma...