Echos de Pariz/V

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V

O 14 de julho — Festas officiaes — O Sião

 

Pariz está amuado com a Republica. E, para mostrar bem visivelmente o seu despeito, não embandeirou, não illuminou, não dançou e não berrou, na festa nacional de 14 de julho. Nunca tivemos, com effeito, um 14 de julho mais silencioso, mais apagado, mais vazio, mais descontente: — accrescendo que o sol tambem amuou e o horisonte todo appareceu colgado de longas e fuscas nuvens de crépe. Nas ruas, desertas, com a sua poeira imperturbada, só aqui e além alguma bandeira tricolor pendia, esmorecida, da varanda das repartições ou dos cafés. Nenhuma guela enthusiasmada rouquejava a Marselheza. As filas de fiacres dormiam pelas esquinas. E o prestito do snr. Carnot e da revista de Longchamps pelos Campos Elysios, entre esquadrões de couraceiros, trazia a lentidão e a gravidade enfastiada de um enterro civico.

Nem um Vive Carnot! Nem uma palma ao velho Saussier, governador militar de Pariz, e ao seu muito emplumado estado-maior! E quando Pariz não applaude os pennachos — é que Pariz está realmente macambuzio.

Uma tal taciturnidade, uma tal apathia não provém só dos parizienses estarem despeitados, porque a policia republicana e o governo republicano os acutilaram consideravelmente. É certo que em cada bairro se formou uma commissão para desorganisar a festa e promover uma melancolia de protesto: — mas essas commissões só impediram luminarias que já estavam decididas a não illuminar, e só fecharam nas gavetas bandeiras que realmente nunca tinham tencionado tremular. A verdade é que Pariz e a França cada vez se desinteressam mais da festa de 14 de julho. Ella nunca foi essencialmente popular. Se o povo dançava, é porque o Estado lhe estabelecia uma orchestra nas praças, entre lanternas chinezas: — e onde quer que haja uma flauta e uma rebeca, com luzes entre verdura, immediatamente raparigas e rapazes se enlaçarão para uma polka. Mas espontaneamente, se o Estado não fornecer a orchestra (como succede desde os ultimos annos) não ha povo que a alugue e que dance só porque em certo dia, ha cem annos, se derrubou uma certa fortaleza. Em que póde a tomada da Bastilha enthusiasmar o povo? Querem dizer que ella era a summa e o symbolo do despotismo monarchico e do direito divino. Mas esse despotismo, na Bastilha, só se exercia sobre os fidalgos. A plebe não gosava a honra de ser encarcerada na Bastilha. Se a sua destruição deve regosijar uma classe, será a classe nobre, a aristocracia do bairro Saint Germain. A essa competia alugar a orchestra e polkar no dia 14 de julho. Em vez d’isso, a aristocracia, n’essa data illustre, volta a face com tedio, cerra as vidraças, foge para o campo, a esconder-se nos parques. Lamenta portanto a perda da Bastilha. Quereria ainda, no meio de Pariz, as quatro grossas torres onde pudesse ser sepultada pro vita ao bel-prazer d’El-rei. Ora, se a aristocracia, que é a interessada, não se regosija com o dia que a libertou — porque se ha-de regosijar o povo de Pariz?

Além d’isso, festas decretadas, impostas por lei, nunca se tornam populares, nem duram, porque são horrivelmente ficticias. É o que succede com os anniversarios de Constituições. Nos primeiros tempos, quando ainda vivem os homens que fizeram a Constituição, lá se vão pondo pelas janellas alguns molhos de bandeiras, e lá se accendem algumas centenas de lanternas, que fazem sahir á noite para a rua as famílias, a «gosar a illuminação». Depois os annos passam, pouco a pouco se vae esquecendo o facto mesmo de que existe uma Constituição, a municipalidade diminue as lamparinas, já ninguem sáe á rua, e a data gloriosa só fica interessando os estudantes que têm feriado. Em Lisboa, a festa da proclamação da Carta Constitucional está reduzida a quatro lampeões muito baços e muito tristes, que se penduram no alto do Castello de S. Jorge. Já ninguem sabe mesmo que ha uma festa. Na verdade, já ninguem sabe que ha uma Carta Constitucional.

Festas nacionaes, festas para celebrar uma ideia ou um facto historico, nunca causarão no povo enthusiasmo, nem o tornarão festivo, porque o povo não se importa, nem com ideias, nem com a historia, é por natureza simplista, só se move por sentimentos simples e individuaes, e assim como só se afeiçoa a individuos, só comprehende festas celebradas em honra de individuos. Por isso, as unicas festas que profundamente animam o povo, são as religiosas, as dos santos. Para o povo, os santos, os santos populares e democratas, como S. João, S. Pedro, Santo Antonio, são individuos que elle conhece, com quem conversa nas orações, com quem convive, que tem dentro de casa sobre o altarinho domestico e de quem recebe constantemente serviços e patrocinio. A vida d’esses santos, as suas façanhas, a sua face barbada ou rapada, as suas vestes, os seus attributos, tudo lhe é familiar — e elles são como verdadeiras pessoas de familia, ligadas a toda a histoira domestica, e por isso profundamente amadas. Quando chega o dia da sua festa, os «seus annos», é com genuino fervor que se arranjam ramos de flores, e se cozinha um prato de dôce, e se accendem á noite luminarias, e se dança no terreiro, e se atiram alegres foguetes. A folgança de cada lar faz o festival de toda a cidade; — e é o doce amigo, o padroeiro que está no céu, que se celebra com carinho, na certeza que elle vê a festa, e se mistura a ella do alto das nuvens, e sorri de reconhecimento e ternura aos seus amigos da terra. Mas se, em vez de S. João ou de S. Pedro, fôsse imposto ao povo o dever de celebrar um grande acontecimento da Egreja, como a conversão de Constantino ou os artigos do concilio de Nicéa, não haveria nem uma luminaria, nem um foguete. E o povo diria com razão: — «S. João é um amigo meu, muito intimo, cuja imagem eu tenho á cabeceira, a quem devo favores e que festejo com immenso prazer; mas essa Nicéa que eu não sei onde é, e esse Constantino com quem nunca travei relações, não valem para mim o preço de uma lamparina.»

É o que succede com as festas nacionaes por acontecimentos publicos. Pertencem muito ao dominio dos principios e aos movimentos sociaes para que o povo, que é todo individualista, sinta por elles a menor migalha de enthusiasmo ou carinho. Para que a Republica pudesse ter uma grande festa, devia organisal-a em favor de um grande republicano. Mas ahi é que está a difficuldade. Qual grande republicano? Nenhum reune a admiração unanime.

Se se decretasse a festa de Robespierre, todos os liberaes-girondinos protestariam com furor e haveria sangue.

Se se decretasse a festa de Danton, todos os jacobinos auctoritarios desceriam á rua com cacetes. Em verdade vos digo, só o céu nos envolve a todos, e só S. João póde ser festejado sem descontentar a ninguem.

Ha, ao que parece, uma grave, muito grave novidade internacional.

A França e a Inglaterra estão arrufadas. Mais: estão franzindo terrivelmente, uma para a outra, o sobr’olho e fallando com azedume de casus belli. Este latim, que significava outr’ora caso de guerra, quer apenas dizer hoje, na moderna linguagem internacional, que dous amigos se zangam, se tratam de pulhas e malcreados, se mostram mutuamente o punho, e mutuamente se voltam as costas.

Este rompimento de relações entre a França e a Inglaterra, tem por motivo o Sião. O Sião é um reino do Extremo Oriente, muito rico, e portanto muito appetecivel. Tem um rei bastante curioso, segundo se deprehende da sua photographia, porque da cinta para cima anda vestido á chineza, e da cinta para baixo á Luiz XV! E todo o reino, ao que dizem, participa assim da Asia e da Europa. As suas fortalezas offerecem uma architectura phantasista de magica — e estão armadas de canhões Krupp. Além do seu rei, Sião possue toda a sorte de riquezas naturaes, em plantações e em minas. É portanto um delicioso e proveitoso paiz para possuir. Se eu tivesse meios de me apoderar de Sião, já esse reino seria meu, e eu exerceria lá os meus direitos de conquistador com doçura e magnanimidade. Mas não tenho meios de me apoderar de Sião. A França tem. A Inglaterra tambem. E ambas, muito naturalmente, se encontram ha annos n’esses confins do Oriente, lado a lado, com o olho guloso cravado sobre Sião. E não as censuro. Eu proprio, como disse, se possuisse exercitos e frotas, teria já empolgado Sião. O animal inconsciente foi posto sobre a terra para nutrir o animal pensante — e por isso com bois se fazem bifes. Os paizes orientaes são feitas para enriquecer os paizes occidentaes — e por isso com os Egyptos, os Tunis, os Tonkins, as Cochinchinas, os Siãos (ou Siões?) se fazem para a Inglaterra e para a França boas e pingues colonias. Eu sou civilisado, tu és barbaro — logo, dá cá primeiramente o teu curo, e depois trabalha para mim. A questão toda está em definir bem o que é ser civilisado. Antigamente, pensava-se que era conceber de um modo superior uma arte, uma philosophia e uma religião. Mas, como os povos orientaes têm uma religião, uma philosophia e uma arte, melhores ou tão boas como as dos occidentaes, nós alteramos a definição e dizemos agora que ser civilisado é possuir muitos navios couraçados e muitos canhões Krupp. Tu não tens canhões, nem couraçados, logo és barbaro, estás maduro para vassalo e eu vou sobre ti! E este, meu Deus, tem sido na realidade o verdadeiro direita internacional, desde Ramézes e o velho Egypto! Que digo eu? Desde Cain e Abel.

Em virtude, porém, d’um respeito innato pelas exterioridades (que data da folha de vinha) os homens crearam ao lado d’este descarado direito internacional um outro, o direito ceremonial, todo cheio de fórmulas e de mesuras, e segundo o qual não é permittido a qualquer nação apoderar-se d’outra com a simplicidade com que n’uma estrada uma creança colhe um fructo. Hoje está estabelecido, entre os povos civilisados, que para que o forte ataque e roube o fraco, é necessario ter um pretexto. Tal é o grande progresso adquirido.

Ora a França acaba de achar, com jubilo immenso, o pretexto para cahir sobre Sião. O pretexto é multiplo e complicado: ha uma vaga questão de fronteira n’uma região chamada Mekongo; ha uma canhoneira que ia subindo um rio e que apanhou um tiro siamez; ha um marinheiro que foi preso, ou que cahiu á agua; e ha uns siamezes que berraram hu! hu! Tudo isto é gravissimo. Parece tambem (e isso infelizmente é doloroso) que houve em tempos um negociante francez assassinado. E sobretudo succedeu que uns officiaes siamezes arvoraram a bandeira de Sião por cima da bandeira da França. Se não foram elles — foram seus paes, como disse o lobo ao cordeiro. Emfim, o que é certo é que o povo francez necessita, para sua honra, vingar a affronta feita ao pavilhão tricolor. E não ha duvida que os dias de Sião acabaram. A França tem o seu pretexto. Adeus meu bom rei de Sião, vestido da cintura para cima á chineza e da cintura para baixo á Luiz XV!

Calculem, pois, o furor da Inglaterra! Havia longos tempos que ella se installára ao pé de Sião, á espera de um pretexto para devorar aquelle bello bocado do Oriente — e é a França, a nação entre todas rival, que apanha o pretexto! É contra a França, não contra ella, que os siamezes berraram hu! hu! É sobre a bandeira da França, não sobre a d’ella, que os officiaes siamezes hastearam imprudentemente a bandeira de Sião! É a França emfim que está na deliciosa posse d’estas affrontas, que saboreia a preciosa felicidade de ser insultada — e que portanto tem o rendoso direito de se vingar! Tanta fortuna não deve ser tolerada — e a Inglaterra não a tolera. E já o declarou, através dos seus jornaes, através do seu parlamento: — «Uma vez que n’esta occasião Sião não pôde ser para mim, tambem não será para ti! Que a França faça o que julgar necessario á sua honra, mas que não toque, nem com uma flôr, na independencia de Sião! A autonomia de Sião é cousa sagrada. O mundo, para permanecer em equilibrio, precisa que Sião seja livre. Sião só para Sião (desde que não póde ser para a Inglaterra). E se a França attentar contra a independencia de Sião, ás armas!» Eis o que diz, n’um dizer mais diplomatico e solemne, aquelle excellente John Bull.

E aqui está como, de repente, por causa de um pedaço de terra e de um pouco de minerio, duas grandes nações, guardas fieis da civilisação e da paz, se assanham, ladram, investem, como dous simples cães vadios deante de um velho osso.

O que mais uma vez prova a suprema unidade do Universo, pois que nações, homens e cães, todos têm o mesmo instincto, o mesmo peccado de gula, e, deante do osso, o mesmo esquecimento de toda a justiça.