Encarnação (José de Alencar)/XV

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Encarnação (José de Alencar) por José de Alencar
Capítulo XV


Voltando de reconduzir os seus hóspedes, Hermano aproximou-se do sofá onde Amália sentara-se.

— Estou caindo de sono, disse a moca conchegando-se com um gesto gracioso na longa capa de caxemira que lhe cobria as espáduas, e as vestes de noiva.

— Por que não se recolhe? perguntou o mando.

Ela hesitou um instante; mas afinal erguendo-se com um faceiro assomo para romper o casto enleio, dirigiou-se ao toucador e ali achou sua criada.

Às pressas açodadamente, como costumava quando recolhia-se tarde e fatigada dos divertimentos, trocou as sedas e atavios por um alvo e fresco roupão de cambraia com fitas escarlates, delicioso traje no qual ela parecia vestida de sua candidez e de seu pudor.

Sentou-se então no divã.

Estava tão fatigada! Tinha dançado como uma menina de colégio que vai ao seu primeiro baile. Não sentia o cansaço do corpo somente; o espírito também havia sofrido as emoções daquela noite e dos dias anteriores. Era feliz, tão feliz, que sua alma carecia de repouso.

Reclinou a cabeça no recosto do divã, e insensivelmente o seu lindo talhe descaiu lânguido. As pálpebras cerravam-se a seu pesar: mas ela fazia um esforço para abri-las. Tinha um vago susto de abandonar-se ao sono ali, sozinha; e também vexame de que Hermano viesse encontrá-la a dormir.

O marido entrou no toucador e chegando uma cadeira sentou-se defronte cautelosamente, para não perturbar o repouso da noiva. Ela não o sentira entrar; mas abrindo os olhos viu-o em face a contemplá-la com enlevo.

Sorriu-se, e dando-lhe a mão que ele guardou entre as suas, adormeceu como uma criança. A presença de Hermano inspirou-lhe nesse momento a mesma confiança, que outrora o afago materno; o amor a ninou.

Hermano demorou-se algum tempo a admirar a graça de Amália assim adormecida Involuntariamente seu pensamento enleando-se nas reminiscências o transportou ao passado, à noite de seu primeiro casamento.

De repente, tornando daquele recordo ao presente volveu o olhar em tomo e ficou atônito de ver ali em face dele a mulher que pouco antes admirava, a esposa a quem se ligara havia poucas horas.

Ergueu-se pálido, desmudado, espavorido, e afastou-se.

No dia seguinte, eram dez horas da manhã quando um raio de sol brilhante e alegre entrou pelo aposento de Amália como para festejá-la. Durante a noite, a moça acordara, e tonta do sono, buscara no próximo aposento o leito, onde refugiou-se.

Pela manhã a mucama abriu a janela do toucador; e uma réstia de sol batendo no espelho refrangera acariciando o rosto mimoso da moça pousado em um ninho de rendas.

Ela abriu os olhos e saltou da cama, alegre como um passarinho.

— Sinhá quer tomar alguma coisa? perguntou-lhe a mucama.

— Eu quero almoçar, que estou com muita fome.

— Mando pôr na mesa?.

— Não; aqui mesmo, no toucador.

Amália teve então uma idéia que lhe sorriu Sentou-se à sua secretária, um mimo de marcenaria, e escreveu a seguinte canta em papel que ali achou, com o seu monograma:

"D. Amália Veiga de Aguiar tem a honra de convidar seu marido Carlos Hermano de Aguiar para almoçar em sua companhia, hoje, às onze horas, no seu toucador. O ménu fica por conta do convidado.".

A moça fechou o seu convite e mandou-o entregar a Hermano de quem senta a falta perto de si. Ela não o censurava pela ausência; mas parecia-lhe que ele devia ter-se apressado em saudá-la logo pela manhã, e sobretudo nesse primeiro dia em que dormira na sua casa.

Hermano acudiu pressuroso ao convite; e os dois noivos almoçaram jovialmente perto de uma janela, que dava para o jardim, ouvindo cantar os passarinhos e aspirando a fragrância das flores que o vento, soprando nas roseiras esparzia sobre a mesa.

O resto do dia passaram nesse mesmo devaneio amoroso lendo recitando versos, recordando a breve história de sua afeição, e estremecendo ainda dos incidentes que os ameaçavam tantas vezes de uma separação eterna.

No meio destes lirismos, Amália escreveu à mãe uma carta cheia de ternuras; e D. Felícia veio fazer à filha uma rápida visita que a encheu de júbilo por ver seu contentamento.

O jantar foi a reprodução do almoço. Comeram ali mesmo no toucador em uma mesa volante, servidos pela mucama. Amália achava encanto nessa solidão a dois, em que nenhum olhar estranho e indiscreto vinha perturbar a sua casta felicidade.

No fim do crepúsculo, quando as sombras se condensavam entre as árvores, saíram os noivos à chácara para espairecer. Sem intenção e sem consciência, Amália dirigira o passeio justamente para aquele banco onde outrora Julieta sentava-se todas as tardes com o mando.

Hermano a princípio a tinha acompanhado sem observação, mas visivelmente contrariado, o que a noiva não percebeu por ter volvido os olhos para a casa paterna. Quando, porém, a moça ia sentar-se no banco, ele irrefletidamente impediu-lhe o movimento com o braço, e obrigou-a a afastar-se.

— Não se sente ai, Amália.

Amália, surpresa por aquele gesto, que não era um abraço, reconheceu o sito e adivinhou a razão da repugnância do narco. Sua alma confrangeu-se. O erro, o erro fatal, que ela tanto receou, estava consumado.

Calou-se, porém, e seguiu silenciosamente o marido que para que a ocorrência, falava-lhe com volubilidade dos planos que tinha para embelezamento da chácara, a fim de que Amália achasse ai todos os encantos, quando, fatigada da sociedade se deixasse ficar no seu retiro para repousar.

Notando afinal a mudez e esquivança da moça compreendeu que a impressão fora profunda; e para serenar-lhe o espírito renovou os protestos tantas vezes de que ela era sua felicidade, sua vida, sua alma.

— Iludiu-se, Hermano, e eu também. A sua felicidade, se alguém lha pode dar neste mundo, não sou eu; e Deus sabe que sacrifícios eu não fada para merecer esta graça!

Amália proferiu estas palavras com uma tristeza maviosa e afastou-se para que o mando, apesar do escuro, não lhe visse as lágrimas.

— Não tem razão, Amália. Se eu me lembrasse de oferecer-lhe uma flor, já usada por outra senhora, não a rejeitada ofendida? E me condenara, se eu procurasse antes para dar-lhe uma destas violetas, abertas agora mesmo com o sereno da noite, cheias de perfume e colhidas por mim em sua intenção? Pois assim deve ser também com as flores d'alma. Eu não pude nascer no dia em que a conheci, para que minha vida começasse com o meu amor. Quero, porém, despir-me do homem que fui, porque esse não lhe pertence. e portanto não existe mais.

— Então é por mim? perguntou a moça com surpresa.

— Pois duvidava?!

Amália sorriu. A nuvem se tinha desvanecido: seu céu de amor estava outra vez límpido e sereno.

Entretanto quando, ao recolher. ficou só como na véspera, pensou consigo que se Hermano a amasse, tanto quanto ela o amava não teria lembrança para quanto não fosse o seu amor. A filha não esquecia perto dele a mãe de quem nunca se apartara até aquele dia? Por que não esquecia ele também uma pessoa finada desde cinco anos?.

Achava alguma razão nas palavras do marido. mas dispensara de bom grado aquela delicadeza Desejada antes ser querida por Hermano com tanto anelo e transporte que tudo para ele fosse novo nessa casa, nesses sítios, cheios do passado.

Apreciava a pureza das flores d'alma recém-abertas ao seu influxo; mas também pensava que em uma alma completamente regenerada pelo amor, já não devia de haver flores murchas e fanadas, como eram essas recordações que pungiam o mando.

Os três primeiros dias depois do casamento, Amália e Hermano os passaram no mesmo delicioso a sós Comiam no retiro do toucador, não como casados da véspera, mas como namorados em partida campestre, às ocultas.

Esse cunho de improviso e de folia era o que mais encantava Amália. Ela que sempre fora menina e travessa queria descontar agora os dias de tristeza. A solenidade da vida conjugal e a serenidade da posição de dona de casa, assustavam a seu gênio faceiro. Assim esquivando-se a pretexto de recato e acanhamento. retardava o momento de assumir suas graves funções.

Chegou porém, o dia.

A mesa estava servida para o almoço. Amália tomou a cabeceira e o marido sentou-se ao lado.

— Onde está Abreu? perguntou o dono da casa Chame-o!

A voz de Hermano tinha uma severidade desusada Nunca Amália ouvirá aquele timbre Ela fitou o semblante do marido, e notou a expressão áspera de sua fisionomia e o olhar imperativo com que ele recebeu o velho criado.

Abreu aproximou-se da mesa com o passo passo dos soldados; dobrou a cerviz por um movimento de engonço, e perfilou-se.

Quando Hermano passou-lhe o prato destinado a Amália ele o conservou na mão imóvel. Foi preciso que o amo lhe desse ordem terminante:

— Para a senhora!

Então sem voltar-se, estendeu o braço e pôs o prato na cabeceira. Nem então, nem depois, durante todo o almoço, o seu olhar, que ele tinha sempre levantado, buscou a dona da casa.

Não a queria ver, e não a viu.