Encarnação (José de Alencar)/XXI

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Encarnação (José de Alencar) por José de Alencar
Capítulo XXI


Cinco anos permaneceram em abandono as ruínas da casa incendiada. Um ilhéu que alugara a horta para negócio, tratava da chácara.

Já se tinha desvanecido a lembrança do sinistro, quando uma manhã, cerca de onze horas, parou ao portão uma vitória descoberta, conduzindo pessoas com o aspecto muito conhecido de viajantes que desembarcam.

O assento principal era ocupado por uma senhora de rara formosura, trajada com elegância, e por um homem de parecer distinto, ainda moço apesar dos fios de prata que matizavam os seus cabelos negros.

Em frente a eles ficava uma gentil menina de quatro anos, na qual reproduzia-se como em uma miniatura a beleza da senhora, porém, com certo contraste de fisionomia Tinha as feições da mãe, os mesmos traços, a mesma expressão; mas os cabelos e os olhos eram castanhos, e não louros.

Um criado velho, que vinha ao lado do cocheiro saltara do carro e abrira o portão, enquanto o cavalheiro apeava-se com a família.

— Espera-nos aqui, Abreu, disse a senhora entregando a filha ao criado, e não deixe Julieta apanhar sol.

Tomando então o braço do marido, seguiu pelo passeio gramado da chácara na direção das ruínas que apareciam por entre as árvores e Indicavam o lugar onde fora a casa.

O incêndio desmoronando o teto e consumindo todo o madeiramento, deixara em pé as paredes do edifício de modo que de fora via-se como um esqueleto a antiga habitação com seus aposentos e divisões.

— Lembras-te, Hermano? perguntou a senhora fitando no marido seus grandes olhos cheios de luz.

— De tudo, Amália, respondeu simplesmente o marido.

Como para confirmar a sua asseveração, Hermano começou a recordar as reminiscências dos dias que ali vivera com Amália, apontando os menores incidentes e os lugares da casa em que tinham ocorrido.

Amália respirou do soçobro em que trazia a alma e que debalde tentava abafar. A casa, que a memória de Julieta enchia antigamente, agora não era mais povoada senão de sua lembrança.

Daí passaram à chácara e percorreram os sítios, em que tão viva era para Hermano a presença de sua primeira mulher. Essas recordações primitivas tinham sido apagadas pelas outras recordações mais recentes de seu amor por Amália.

Outrora o passado surgia com tanto vigor na vida desse homem que anulava o presente. Agora era o presente que reagia de modo a substituir-se ao passado. Hermano não se lembrava de ter amado nunca outra mulher senão a sua Amália e identificava tão completamente as duas esposas, que Julieta já não era para ele senão um primeiro nome daquela a quem se unira para sempre.

Afinal sentaram-se para descansar, em um sombrio formado pela copa de uma mangueira frondosa, donde pendiam ramas de maracujá.

Hermano recolheu-se, como para penetrar mais profundamente em suas recordações, e murmurou:

— Não me lembro do incêndio!

Amália conchegou se, e apoiando o rosto na espádua do marido começou a sussurrar-lhe ao ouvido, cobrindo a face com a mão para esconder o rubor:

— Tu me deixaste no baile... Eu tive um pressentimento cruel e corri... Felizmente ainda encontrei-te; estavas na sala em pé. Foi talvez o rumor de meus passos que te perturbou Eu prendi-te nos meus braços com receio que me fugisses. Tu me contaste tudo Querias morrer para não ser infiel a Julieta e tinhas preparado o incêndio que devia consumir o teu corpo, e a imagem daquela que h amavas. Eu também devia morrer, e consumir-me contigo. Foi então que nossos lábios se tocaram. Tu me pertencias. e eu salvei-te para o meu amor. Era preciso arrancar-te desta casa; quando partimos, sem que nos vissem deixei nela o incêndio que a devorou Depois partimos para a Europa e....

— E eu renasci para a felicidade, disse Hermano, cingindo a loura cabeça da moça e pousando-lhe um beijo na face.

— Esta manhã, vendo ao longe, de bordo do vapor a praia de Botafogo, tive medo, e por isso trouxe-te aqui apenas desembarcamos. Se estes lugares ainda conservassem para ti alguma sombra do passado, partiríamos hoje mesmo para Montevidéu, para qualquer parte do mundo, onde a tua felicidade não corresse perigo Mas estou tranqüila podemos reconstruir a nossa casa e viver aqui, onde nasceu o nosso amor.

— De tudo isto só uma coisa não compreendo. disse Hermano.

— O que? perguntou Amália assustada.

— Fica tranqüila; a alucinação passou; tenho a razão inteiramente livre. O que não compreendo é como sendo tu e Julieta tão diferentes uma da outra, têm aos meus olhos uma semelhança tão grande, que parecem a mesma.

Nesse momento as folhas rumorejaram.

A menina que estava impaciente pela mãe, iludira a vigilância do velho criado e correra para Amália cujo vestido descobrira através da folhagem.

— Olha! disse a moça apresentando ao marido o rostinho gracioso da filha.

— É verdade!