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Eneida Brazileira/VI

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LIVRO VI.


Assim prantêa, e ás naus demitte as redeas;
Vai-se a Cumas euboica e manso aborda.
Tenaz dente as fundêa; ao largo aproam,
E as curvas pôpas a ribeira cobrem.
5Moços na praia hesperia ardidos saltam:
Quem sementes de chamma em siliciosas
Vêas cata; quem, denso alvergue ás feras,
Esmouta a selva, e os rios mostra achados.
O piedoso varão penetra o alcaçar
10Em que Apolo preside, e as profundezas
Onde á horrenda Sibylla ânimo e alento
O delio vate inspira e abre os futuros.
Sobem da Trivia os lucos e aureos tectos.
  Dedalo, he fama, dos minoios reinos
15Fugindo, ao céo fiou-se em lestes pennas,
Por via insólita ao gelado Arcturo
Audaz navega; e alfim na cidadella
Chalcidica assentando, os remos de azas
Te sagra, ó Phebo, e erige um bravo templo.
20Nas portadas insculpe o morto Andrógeo,
E em castigo os Cecrópidas multados
Ah! na perda annual de sete filhos;
A urna está do sorteio. Ao mar suberba
Corresponde fronteira a gnosia terra:
25Aqui do touro o amor cruel, e ao furto
Submettida Pasiphe, e a raça mista
Poz, monumentos da nefanda Venus,
Minotauro biforme; aqui da estancia
Afadigosa o enrêdo inextricavel;
30Dolos que, da princeza apaixonada

Com pena, o mestre solve, e em taes desvaires
Cegos vestigios por um fio rege.
Não fôsse, Icaro, a dôr, nessa obra prima
Teu caso entrara: foi graval-o em ouro,
35Duas vezes fallece a mão paterna.
Mais perlustraram tudo, se expedido
Não regressasse Achates com Deiphobe
De Glauco, a Phebe e Apollo consagrada;
Que se endereça ao rei: «Não mais, Enéas,
40De espectaculos basta; ora te cumpre
De intacta grei matar novilhos sete,
Sete ovelhas do rito.» E ao santuario,
Aviado o sacrificio, os Teucros chama.
Rasgou-se antro espaçoso em roca eubéa,
45Com cem bôcas, cem largas avenidas,
Donde oraculos cem troa a Sibylla.
Já no limen a virgem: «Toca os fados
A interrogar; o deus, eis o deus» clama.
Subito, ás portas, o semblante muda,
50A voz não uma, não composta a coma;
Rabido incha-lhe o peito, arqueja e offega;
Maior parece, em tom mortal não soa,
Quando a bafeja de mais perto o nume:
«Tu cessas, Phrygio, de orações e votos?
55Cessas? pois de outro modo a casa attonita
Não se escancara.» Dice, e emmudeceu.
Aos Teucros frio horror nos ossos coa,
E orou do íntimo o rei: «[1]Phebo, a quem sempre
D’Ilio o mal consternou, que a troica frecha
60De Páris dirigiste contra Achilles,
Tu guia, o pelago arrostei que abrange
Terras taes, e os Massylos tam remotos,
E o dilatado chão que as Syrtes orlam:
Já que aportámos na arredia Italia,
65De Pérgamo a desgraça aqui termine.

Vós ó deuses e deusas, que empecera
Dardania e a glória sua, he justo que ora
Todos poupeis a geração dos Phrygios.
E tu me dá, santissima vidente,
70(O indevido não peço) em Lacio os numes
Nossos fixar e os vagabundos lares.
De marmore massiço a Phebo e á Trivia
Templos e festas crearei phebéas.
A ti no reino espera-te um sacrario,
75Que te guarde as respostas e os arcanos
Dictados, alma vate, á gente minha;
Hei-de eleitos ministros dedicar-te.
Não confies, t’o rógo, ás folhas versos,
Nem dos ventos ludibrio aos ares voem:
80Tu mesma os cantes.» Á oração poz termo.
Torva e indocil ao deus, por sacudil-o
Do anciado peito, a debacchar braveja:
Tanto elle mais fatiga a bôca irosa,
E o fero coração lhe opprime e doma.
85Eis do antro os cem portões, de si patentes,
Vaticinios despedem pelas auras:
«Oh! quite emfim do pégo, em terra a transes
Mais graves te prepara. Ham de ir os Troas
A Lavino, socega; antes comtudo
90Lá não têr ido: guerra, horrida guerra,
Do sangue o Tibre inchado espumar vejo.
Nem dorios arraiaes, nem Xantho ou Símois,
Te faltarão; tambem de deusa filho,
Ha no Lacio outro Achilles: nunca os Teucros
95Tenaz deixará Juno. A quem, na angústia,
A que italas nações, a que cidades
Não tens de supplicar! E sempre a causa,
Uma hóspita mulher, um tóro externo.
Tu não fraquêes; mais que a sorte ousado,
100Resiste aos males. De livrar-te o meio

Te abre graia cidade, o que nem pensas.»
Do adyto canta ambages taes medonhos,
Muge na gruta, o vero embrulha em trevas:
Á furibunda os freios bate Apollo,
105N’alma excitada estimulos vertendo.
Muda a Sibylla, mais quieta a sanha,
Começa o teucro heroe: «Nenhum trabalho,
Por novo e inopinado, estranho ó virgem:
Um por um antevi, ponderei todos.
110Pois que he do inferno a entrada e aqui, me affirmam,
Do revêsso Acheronte o lago obscuro,
Ir, só te imploro, ao caro pae me caiba:
Mostra-me e patentêa as sacras portas.
Eu, nestes hombros, d’entre a chamma e infindas
115Chuças hostis o arrebatei, salvei-o;
Elle infermo comigo affrontou mares,
O pélago aturava e o céo minazes,
Com mais vigor do que á velhice he dado.
Requerendo ordenou-m’o, e humilde que hajas
120Dó do filho e do pae deprecar venho:
Tudo se te faculta; Hecate em balde
Não te prepoz, ó casta, ao luco averno.
Se Orpheu poude avocar da espôsa os manes,
Em thracia accorde cithara fiado;
125Se, com alterna morte o irmão remindo,
Pollux tanto essa via anda e desanda,
(Porque a Theseu citar e o grande Alcides?)
Eu provenho tambem do rei supremo.»
Dest’arte orava, ás aras apoiado;
130E ella accrescenta: «Anchisea e diva estirpe,
Descer a Dite he facil; dia e noite
Seus cancellos o Tartaro franquêa:
Tornar atrás e á luz, eis todo o ponto,
Eis todo o afã. Do recto Jove amados,
135Ou por virtude ardente ao céo subidos,

Poucos, filhos dos deuses, o alcançaram:
Medeia um bosque, e sinuoso em tôrno
Enfuscado o Cocyto a espriguiçar-se.
Mas vezes duas se tranar a Estyge
140E a lobrega morada vêr cubiças,
Se tanto folgas do ímprobo trabalho,
Ouve e á risca o executa. Arvore opaca,
Dicado á inferna Juno, occulta um ramo
N’haste e nas folhas aureo: em valle umbroso
145O encobre e fecha a denegrida selva.
Sem que destronque o aurícomo rebento,
No Orco ninguem se interna: he dom que exige
E instituiu Prosérpina formosa.
Um fóra, brota o novo, e do luzente
150Metal frondesce a vara. Em alto a mira,
Indaga, e achando respeitoso o apanhes;
Que, a te ser destinado, elle espontaneo
Logo te cederá; senão, com fôrça
Nem duro ferro poderás sacal-o.
155Porêm, desta consulta emquanto pendes,
Ai! mal sabes que as naus te incesta agora
De amigo exanime o feral cadaver:
No sepulcro o aposenta; em negras rezes
Encete a expiação. He como aos vivos
160O ínvio reino sombrio e estygios lucos
Has de avistar.» Calou-se, e os labios cerra.
De olhos fixos, tristonho, eventos cegos
A cogitar, a gruta Enéas larga:
Trilhando-lhe a pégada, o fido Achates
165Volve iguaes pensamentos. Sôbre o socio
Que, ao dizer da Sibylla, enterrar devem,
Travam conversação comprida e vária;
Té que a Miseno vêm de indigna morte
Jazer em sêcco; o Eólides Miseno,
170Sem superior com bronze alticanoro

No incitar os varões e accender Marte.
Pagem de Heitor, pugnava á sua ilharga,
No lituo singular, na lança eximio.
Extincto o grande Heitor ás mãos de Achilles,
175O fortissimo heroe juntou-se a Enéas,
Não somenos senhor. Mas quando, enchendo
Acaso o mar com resonante concha,
Louco a tanger os deuses desafia,
Á falsa fé, de inveja entre uns penedos
180O afogou (se he de crêr) Tritão nas vagas.
Todos, mórmente o pio Enéas, fremem,
Cercam-no pranteando; e obedientes
Á douta guia, ao céo funerea pyra
D’arvores cumulada erguer porfiam.
185Covil de feras, velha mata exploram:
Prostra-se o pinho alvar, grita o machado
No sôbro rijo, nas fraxíneas traves;
O fendivel carvalho as cunhas racham;
Vem dos montes tombando ingentes ornos.
190Primeiro no trabalho, exhorta os socios,
Dos mesmos instrumentos se arma Enéas;
E a mata olhando immensa, mil cuidados
No ânimo revolvendo, em preces rompe:
«Oh! se nesta espessura esse aureo garfo
195Deparassemos nós; como ai! tam certa
Foi contra ti, Miseno, a prophecia.»
Inda fallava, e ante elle duas pombas
Do céo voando na verdura pousam.
As aves maternaes o egregio cabo
200Conhece e brada: «Se ha caminho, ó guias,
Inclinai vosso adejo aos bosques onde
Rico sombrêa o ramo ao pingue solo!
No lance, ó diva mãe! não me falleças.»
Então retem-se a observar das pombas
205A tendencia e os sinaes. Pascendo aos vôos,

Só quanto a vista alcance dos que as seguem,
Ellas avançam: perto das gargantas
Do pestilente Averno, alando-se ambas,
Sulcam o ethereo fluido, e emfim descahem
210Na duplice anhelada arvore, donde
Reluz discorde brilho entre a ramagem.
Qual visgo sohe, no alheio pé gerado,
Verdecer e enramar-se ao brumal frio,
Nos troncos enrolando os croceos gomos;
215Na enzinha opaca tal vegeta esse ouro,
E a folheta crepita á branda aragem.
Delle, inda assim tardio, ávido Enéas
Péga, rapido o quebra, e á vate o leva.
Não menos a Miseno os seus lamentam,
220Na praia honras prestando á ingrata cinza.
Formam de achas de roble e piceas têas,
De atras folhas tecida, a excelsa pyra;
Põem-lhe adiante exequiaes cyprestes,
No alto a decoram de fulgentes armas.
225Aquecem caldeirões que em ondas fervem,
Lavam-lhe o frio corpo, e todo ungido,
A gemer e a chorar, no esquife o deitam;
Vestem-lhe o usado purpurino manto:
Outros o ingente féretro carregam,
230Triste mister, sustendo, ao modo avíto
Averso o rosto, os sotopostos fachos;
Conjunto na fogueira o incenso fuma,
Viandas, copas de infundidos oleos.
Com vinho, assente a cinza e quêda a chamma,
235O borralho poroso e o resto apuram;
Coryneu colhe a ossada em eneo cado:
De fausta oliva um galho ensopa n’agua,
Tres vezes borrifando asperge os socios,
Tres profere as novissimas palavras.
240Da campa sôbre a mole impoz Enéas

O remo do varão, o arnez e a tuba,
No monte Aereo, que he Miseno agora
E ha-de este nome conservar perenne.
Isto feito, prosegue e as ordens cumpre.
245De amplo hiato espelunca alta e lapídea,
Fusca selva a munia e lago immano,
Sôbre o qual transvoar impune as aves
Nunca poderam, tal das fauces turvas
Odor exhala pelo azul convexo;
250Donde em grego o lugar chamou-se Aornon.
Quatro almalhos alli tergi-nigrantes
A vate expõe, nos téstos vinho entorna,
Entre os cornos tosquia, e em sacro fogo
Lança em primicia o pello; vocifera
255Hecate no Erebo e nos céos potente.
Facas ao sangradouro, alguns em taças
Cruor tepido aparam. Mesmo á espada
Enéas das Eumenides á madre
E á Terra irmã cordeira preta immola,
260E a ti, Prosérpina, uma toura;
Alça da Estyge ao rei nocturnas aras;
Em holocausto as vísceras bovinas,
Derrama azeite no debulho ardente.
Eis sob os pés, ao primo albor do dia,
265A remugir o chão, mover-se os cumes
Do arvoredo; e na sombra, ao vir a deusa,
Surde um canino huivar. «Profanos, longe,
Oh! longe deste bosque, a vate exclama:
Tu, Phrygio (aqui denodo, aqui firmeza),
270Desembaínha o ferro, a estrada invade.»
Nisto, furiosa estranha-se na gruta;
Com não tímido passo a iguala Enéas.
Deuses! que imperio sôbre as almas tendes,
Caladas sombras, Phlegetonte e Chaos,
275Taciturnos vastissimos contornos,

Dai-me o que ouvi narrar, dai-me os arcanos
Do abysmo descoser caliginoso.
D’erma noite iam sós no escuro involtos,
Por vã plutonia estancia e vacuos reinos,
280Qual se anda á luz fallaz da incerta Lua
Por matas, quando Jove embrusca o pólo
E ás cousas tira a côr tristonha treva.
No vestibulo mesmo, ás fauces do Orco
Se aninha o ultriz Remorso, e o Lucto e o Medo;
285Pallidos Morbos e a Velhice triste,
Má conselheira a Fome e a vil Penuria,
Visões de horror; da mente os ruins prazeres,
E a Morte e a Lida, e o Somno irmão da Morte:
De fronte a lethal Guerra, e em ferreo catre
290As Furias, e a Discordia insana que ata
Cruentos nastros na viperea grenha.
No centro, annosos braços largo e opaco
Olmo expande, e nos ramos se diz moram
A cada folha os sonhos vãos pegados.
295Monstros mil aos portaes, biformes Scyllas,
Os Centauros, as Górgonas se alojam,
Mais o animal de Lerna horri-stridente,
E o phantasma tricorpore e as Harpyas.
Eis de pavor o gume saca Enéas,
300Tem-se á espera; e, se a mestra não lhe adverte
Que eram sem corpo avoejantes vidas
E oucas fórmas subtis, elle investira
E de aço inutil açoutara sombras.
Daqui parte o caminho do Acheronte,
305Que em funda bólha férvida voragem,
E ao Cocyto arrebeça arêa e lodo.
Fero esqualido arraes guarda estas aguas,
Charonte hediondo, cuja barba espessa
Branquêa inculta, os lumes lhe chammejam,
310E aos hombros suja capa em nó lhe pende:

Puxando á vara, ou mareando as vélas,
Em cymba enfarruscada os vultos passa;
Velho, mas como um deus, robusto e verde.
Tropel confuso ás margens se arremessa:
315Bravos guerreiros de alma luz privados,
Varões, meninos, mães, innuptas virgens,
Jovens ante seus paes á queima entregues:
Quantas no outono as despegadas folhas
Cahem aos primeiros frios; ou quam bastas
320Glomeram-se aves do alto pégo á terra,
Quando alêm-mar a temperados climas
Gelido anno as envia e as afugenta.
No transporte rogando a preferencia,
Avidas mãos á opposta riba estendem:
325Brusco admitte o barqueiro estes e aquelles;
Muitos porêm da praia arreda esquivo.
A Enéas o tumulto espanta e abala:
«Porque, ó virgem, das almas o concurso
Busca este rio? porque enxotam-se umas,
330E o vao lívido a remo as outras varrem?»
Breve torna a longeva: «Ó nobre cabo,
Diva prole certissima, o estagnado
Cocyto vês profundo e a crua Estyge,
Por quem temem faltar jurando os numes.
335Pobre turba inhumada he quanto avistas;
Charonte, o arraes; sepultos, os que embarcam.
Nem pode algum, se os ossos não descansam,
Montar a margem torva e rouca vêa:
Cem annos volteando anciosos vagam;
340O estanque alfim revêr, transpôr conseguem.»
O Anchisiades pára, e a sorte iniqua
Detem-se a contemplar. Devisa afflicto
Mestos, sem funeraes, Leucaspe e Oronte,
Chefe da lycia esquadra; os quaes, de Troia
345Partidos, por tormentas sossobraram,

Austro n’agua involvendo a nau e a gente.
Seu piloto apresenta-se, que ha pouco
Na róta libya, emquanto observa os astros,
Da pôpa resvalou, foi de mergulho.
350Na escuridão lhe grita ao lubrigal-o:
«Que deus a nós roubou-te, ó Palinuro,
E te afundou no ponto? Nunca em falha,
Só nisto, Apollo achei, pois me cantava
Incolume n’Ausonia abordarias:
355E eil-a a promessa!» O nauta replicou-lhe:
«[2]Nem de Phebo a cortina, ó forte Anchiseo,
Te[3] illudiu, nem ha deus que me afundasse.
Regendo o curso, ao leme eu me aferrava;
Arrancado com fôrça, elle comigo
360Se precipita. Aos crespos mares juro,
Nada temi por mim, senão que a tua
Nau, sem leme, sem mestre, perecesse,
Crescendo os escarcéos. Violento Nôto
Me rojou pelo immenso equoreo golphão
365Tres noites invernaes: ao quarto lume
De cima de uma vaga enxergo a Italia.
Vou nadando, e em seguro já me agarro,
Grave e molhado, ás quinas de um rochedo,
Quando, encontrar suppondo grosso espólio,
370Homens crueis a ferro me acommettem.
Ora o vento, a maré, me joga á praia.
Pela jucunda luz, celestes auras,
Pelo augmento de Iulo e por Anchises,
Desta ancia me descarga: ou tu me enterra,
375Que o podes indo a Velia; ou, se ha maneira,
Se a genitriz, invicto rei, t’a indica
(Nem creio navegar desassistido
Queiras taes rios e a palude horrivel),
Dá-me a dextra e me leva pelas ondas;
380Do remanso da morte eu goze ao menos.»

«Donde, o atalha a Sibylla, ó Palinuro,
Donde esse impio desejo? não mandado
A severa corrente olhar das Furias,
Traspassando insepulto a estygia borda!
385Não penses em dobrar com rôgo os fados.
Mas por confôrto e allívio attento escuta:
Dessa comarca, instados por assombros,
Ham-de os vizinhos suffragar teus ossos,
Com dons solemnes tumular-te, e o sítio
390Terá de Palinuro o nome eterno.»
Deste nome se paga, e um tanto as penas
Do coração modera e desafoga.
Marchando avante, ás aguas se appropinquam.
Do lago o arraes, que os avistou no mudo
395Bosque andando, á ribeira encaminhados,
Os saltêa e os exprobra: «Tu, quem sejas,
Nestas margens armado o que pretendes?
Nem mais um passo; aqui sómente as sombras
E a soporosa Noite e o Somno habitam:
400Os vivos não transporta o casco estygio.
Nem me gabo de haver tomado Alcides,
Pirithôo e Theseu, bem que invenciveis
Prole fôssem divina: aquelle trouxe
Dos pés do throno o guardião do inferno
405Tremente e agrilhoado; ao régio tóro
Subtrahir a senhora os dous tentaram.»
Curto responde a Amphysia: «Taes insídias
Não temas; estas armas não te offendem:
No antro ladrando eterno, exsangues sombras
410Assuste o gran’porteiro; ao tio casta,
Recatada Prosérpina se encerre.
Tam guerreiro quam pio, ao Orco Enéas
Desce ante o pae. Se a filial virtude
Não te abranda e commove, eil-o (descobre
415Na veste o ramo occulto), reconhece-o.»

De ira as entranhas tumidas se applacam;
Nem mais tugiu. Da haste fatal mirando
O veneravel dom, não visto ha muito,
Vólta a cerulea pôpa e á riba encosta.
420Abancadas ao longo afasta as almas,
Faz praça, e a bórdo o capitão recebe.
Ao pêso a barca nas costuras geme,
Rimosa da lagoa aos sorvos bebe;
Alêm depõe a salvo a guia e o Phrygio,
425Em morraçal verdoso e limo informe.
Com trifauce latir Cerbero ingente,
Deitado em cóva opposta, o reino atroa.
Seus serpentinos collos já se erriçam;
Lança-lhe a vate um somnorento bolo
430De mel e confeições, que, as tres gargantas
Escachando glotão, raivoso engole;
E, os costados em terra, entorpecido,
Por toda a gruta o corpo enorme estira.
Sopito o monstro, a entrada occupa Enéas,
435E lesto evade a irremeavel onda.
Logo se ouve ao limiar vagido e chôro,
Tenros ais dos que ao seio em que mamavam
Arrebatou, privou do doce alento,
Immergiu dia infausto em lucto acerbo.
440Por crime falso á morte os condemnados
Estam perto. Os lugares não se assinam
Sem sortes, sem juiz: rodando a urna,
Chama ao silente povo e inquire Minos,
E das vidas conhece e dos peccados.
445Cá vizinham suturnos os que, insontes
A luz odiando, as almas desataram,
Víctimas do suicidio. Oh! quanto agora
Prefeririam padecer no mundo
Cru trabalho e pobreza! Ha lei que o veda,
450E, em vóltas nove circumfusa a Estyge,

Triste e inamavel, os refreia e prende.
Não mui distantes, os lugentes campos
(He seu nome) estendidos se dilatam;
Onde os que empeçonhou de amor a febre
455Myrtedo cobre de secretas sendas,
Nem da paixão tyranna a morte os livra.
Lá Procris, Phedra, Eryphile passêa,
Mesta do filho atroz mostrando os golpes;
Tambem Pasiphe, Laodamia e Evadne;
460Cenis, de femea transformada em homem,
Por fadario a seu sexo reduzida.
No bando, fresca a chaga, errava a Tyria
Nos desvios da selva: assimque Enéas
Ao pé chegou no escuro a destinguil-a,
465Qual do mez no comêço alguem nas nuvens
Apontar vê Lucina ou cuida vêl-a,
Meigo e amoroso lagrimando falla:
«Infeliz Dido! o nuncio não mentiu-me,
Desesperada a ferro te finaste!
470E autor eu fui! Raínha, aos céos t’o juro,
No imo centro se ha fé, larguei teu pôrto
A meu pezar: forçaram-me os supremos,
Que, no imperio da noite me afundando,
Por brejos, por tojaes, a andar me obrigam;
475Nem cri tamanha dôr causar partindo.
Tu foges? tu me esquivas? tem-te; os fados
Este último colloquio nos concedem.»
Tal a Dido, que irosa e torva o encara,
Embrandecia o heroe com pranto e mágoas:
480Ella aversa no chão pregava os olhos;
Nem mais seu rosto á practica se move
Que dura silice ou marpesia rocha.
Infensa escapa-se, e em retiro umbroso
Do marido Sicheu se abriga ao peito,
485Que terno corresponde a seus cuidados.

Longo tracto, a chorar o injusto caso,
Compungido e saudoso o Teucro a segue.
Vam por diante; as veigas já pisavam
Só de claros guerreiros frequentadas.
490Aqui Tydeu, Parthenopeu famoso,
Adrasto occorre de pallente imagem.
Aqui, mortos no prelio e tam carpidos,
Em fileira os Dardanidas encontra:
Suspiroso a Thersílocho e Medonte,
495Glauco e os tres Antenoridas contempla,
E a Polybetes consagrado a Ceres,
E Ideu que inda menêa e o carro e as armas.
Á dextra e á sestra as almas se apinhoam:
Não basta olhal-o, não; retêl-o agrada,
500Achegar-se e indagar da vinda as causas.
Logoque, pela treva o arnez fulgindo,
O avistam graios cabos e as phalanges
Agamemnonias, trepidos recuam:
Uns, como quando aos barcos se acolheram,
505Costas viram; no erguer a voz sumida,
A alguns na bôca hiante o grito morre.
O Priameo Deiphobo entre estes anda,
Lacero enormemente o corpo e a cara,
De beiços, mãos e orelhas cerceado,
510E de um gilvaz deforme o nariz troncho.
Com vergonha o supplício infame encobre;
E a custo o reconhece o nóto amigo:
«De Teucro ó sangue illustre, armipotente,
A quem, Deiphobo, tal crueza aprouve?
515Quem tanto ousou? Na noite ouvi suprema
Que, de matar cansado, succumbiras
Confundido no vasto morticinio.
No Rheteu vezes tres chamei-te a vozes,
Vão túmulo erigindo; que o teu nome
520E armas protegem: nem te achei, nem pude

No patrio chão depôr-te em me ausentando.»
«Nada omittiste, o Priamides clama;
Tudo a Deiphobo e aos manes seus pagaste.
Nestes males, amigo, me abysmaram
525Da Lacena o flagicio e o meu destino:
Esta a memoria que de si deixou-me.
Soubeste (e ha quem se esqueça) em gostos falsos
Passada aquella noite. O fatal bruto
Quando, prenhe de armada infantaria,
530Arduos muros saltou; fingindo coros,
Ella as Phrygias guiava em tôrno ás órgias;
E, entre as evantes manejando um facho,
Do alto castello os Danaos convidava.
No thalamo infeliz me deito, oppresso
535De pesadume e lida; e caio em manso
Lethargo, semelhante ao somno eterno.
Põe-me a guapa consorte as armas fóra,
E até da cabeceira a fida espada;
A Menelao acena e as portas abre;
540Julgando assim mimosear o amante,
E o labéo extinguir da antiga offensa.
Que mais? o quarto assaltam; a exhortal-os
O Eolides malvado os acompanha.
Deuses! igual supplício os Gregos lastem,
545Se com justiça impreco esta vingança.
Mas vivo, eia tambem, que urgente caso
Te trouxe cá? dos mares foi capricho?
Mando celeste? por que azar á estancia
Vens turbida e funesta, ao Sol negada?»
550Phebo em rosea quadriga o meio do eixo
Pelo ether já transpunha, e em taes colloquios
Ia-se o tempo dado; a companheira
Em resumo os adverte: «Avança, Enéas,
A noite, e em chôro as horas consumimos.
555Parte-se a estrada aqui: de Dite aos paços

Corre á direita, e alêm nos fica o Elysio;
No impio Tartaro, á esquerda, os máos padecem.»
Deiphobo então: «Sibylla, não te agastes;
Ao número me aggrego, e ás sombras tórno.
560Vai, glória nossa, vai; logra outros fados.»
Nisto, o passo torcendo, se retira.
Repara, e em sestra penha o heroe descobre
Tartarea tri-murada fortaleza,
Que rapido a rolar sonantes pedras,
565Cingem do Phlegethonte igneas torrentes.
De inteiriças columnas diamantinas
O portão da fachada, a demolil-o
Nem vale humano esfôrço, nem divino:
Ferrea tôrre se eleva; e de atalaia,
570Traçada opa sanguenta, sempre alerta,
Lá Tisiphone o portico defende.
Entram ais a estrugir, do açoute os golpes;
Arrastam-se grilhões; retinnem ferros.
Pára, e assombrado o estrondo haurindo Enéas:
575«Quaes as culpas? quaes dellas os castigos?
Explica, ó virgem: que alarido aquelle?»
E a vate: «Inclito chefe, ao justo o limen
Sceleroso he vedado; mas dos deuses,
Quando Hecate prepoz-me ao bosque averno,
580Mostrou-me os tratos, me levou por tudo.
O durissimo Gnosio Rhadamanto
He quem manda; e os indaga e pune os crimes,
E a confessar constrange os que expial-os
Para a tardia morte differiram,
585De os têr furtado ao mundo em vão contentes.
Ultriz, logo insultando os azurraga
Tisiphone; e a chamar as outras Furias,
Destorce com a esquerda e assanha as cobras.»
Eil-as de par em par as sacras portas
590No quicio horrísono a ranger. «Attentas

Qual, sentada ao vestibulo, o vigia
Medonha catadura? pois mais seva
Cincoenta atras guelas hydra enorme
Dentro arreganha; e o Tartaro em despenho
595Se abysma, o dôbro do que a vista abrange
Desde baixo ao luzente Olympo ethereo.
Lá fulminados os Titães mancebos,
Filhos da Terra, nas profundas rolam.
Vi de gigante corpo os dous Aloidas,
600Que, o céo mesmo escalando, acometteram
Derribar do seu throno o rei supremo.
Vi Salmoneu penando, que o sonido
E os fuzis do Tonante arremedara:
Tocha a brandir, em carro de dous tiros,
605Por Elide ia ovante, e á fôrça os povos
O adoravam por deus; com o estrupido
Dos cornípedes nescio em erea ponte
Trovões fingia e o fogo inimitavel:
Jupiter, fachos não, não fúmeas tedas,
610Sim contorce um corisco d’entre as nuvens,
E em turbilhão sulphureo o precipita.
Tambem da mãe commum o alumno Tycio
Por geiras nove, oh pasmo! estira os membros:
Roe-lhe abutre cruel de bico adunco
615O figado immortal; e, esquadrinhando
Para o supplício as visceras fecundas,
A fome ceva, no âmago se encarna;
De renascer as fibras não descansam.
Dos Lapithas, Ixion, de Pirithôo
620Que direi, sôbre os quaes já já desaba
Atra imminente rocha? Ante elles brilham
Em leitos geniaes pilares de ouro,
Banquetes regios de exquisito luxo:
Perto encostada, a principal das Furias
625Attingir lhes prohibe as iguarias,

Surge o facho a vibrar, minaz troveja.
Quem teve odio aos irmãos, durante a vida,
Poz mãos nos paes, urdiu contra o cliente;
Os que amuados thesouros incubando,
630Maxima turba, nada aos seus partiram;
Os mortos no adulterio; os de impias armas
Sequazes, desleaes contra os senhores,
No encêrro a pena aguardam. Não a inquiras,
Nem que sentença ou caso os tem submersos:
635Qual pedra ingente galga, ou de uma roda
Estreito aos raios pende; está sentado
Preso o infeliz Theseu e estará sempre;
Phlegyas, miserrimo a bradar nas trevas,
Nunca cessa: «Aprendei no exemplo horrivel
640Justos a ser, a não zombar dos numes.»
Este vendeu a patria a ruim tyranno;
Leis, as fez e defez peitado aquelle;
Outro invadiu nefando o leito á filha:
Réos que a tenção damnada executaram.
645Nem com voz ferrea, bôcas cem, cem linguas,
Podera eu numerar da culpa as fórmas,
A variedade e os nomes dos castigos.»
Depois a idosa Amphrysia: «Anda, accrescenta,
Acaba a empresa, a rota apressuremos.
650Dos Cyclópes forjados vejo os muros,
No arco da frente as portas, onde a offerta
Depôr se nos prescreve.» Dice, e opacas
Vias a par correndo, o espaço vencem,
Tocam já nos batentes. Elle a entrada
655Occupa; e, de agua viva asperso o corpo,
No frontespicio o ramo á deusa crava.
Completo o rito e o voto, emfim chegaram
A jucundos vergeis e amenas veigas,
Da bem-aventurança alegres sitios.
660Ether mais largo purpurêa os campos,

Que alumia outro Sol, outras estrellas.
Em graminea palestra alguns se exercem,
Brincam na fulva arêa em lucta e jogos;
Parte o compasso bate, e baila e canta;
665E ao Thracio, que dedilha ou pulsa as cordas
Com plectro eburneo, em roçagante loba,
A septívoca lyra accorde falla.
Nota-se alli de Teucro a estirpe egregia,
Nados em melhor quadra heroes magnanimos,
670Dardano autor de Troia, Assaraco, Ilo;
Sem dono ao longe arnezes, coches vagos,
Lanças no chão pregadas, e pascendo
Livres soltos corséis pela campanha.
De armas e carros o que em vivos tinham
675Gôsto, amor de nutrir nedios cavallos,
Esse da terra ao seio os acompanha.
Eis em festins na relva, á dextra e á sestra,
Ledo péan em côro outros modulam
N’um laureo bosque odoro, donde acima
680O Eridano caudal volve entre selvas.
Lá, da patria em defesa os vulnerados,
Os sacerdotes castos, os poetas
Que o puro estro phebeu não profanaram,
Os inventores das polidas artes,
685Os que renome obrando mereceram,
A todos nivea banda as frontes orna.
Circumdada a Sibylla os interroga,
E a Museu mais, que os hombros sobreleva
Do attento bando em meio: «Almas ditosas,
690E tu propheta eximio, onde, ensinai-me,
Onde Anchises reside? em busca delle
Do Erebo os grandes rios trasnadámos.»
Foi breve o heroe: «Nenhum tem certo o alvergue;
Sombrios lucos, vicejantes margens,
695De arroios frescas varzeas habitâmos.

Mas, se o folgais de achar (o atalho he facil),
Esta encosta montemos.» E, a guial-os,
Do cume ostende as nítidas campinas,
E a virente convalle os vai descendo.
700Meditabundo Anchises, nelle inclusas,
As almas resenhava a tornar prestes
Á luz superna; e dos queridos netos
O número talvez recenceava,
Seus costumes e acções, fortuna e fados.
705Quando assomava Enéas pela grama,
O ancião jubiloso alonga as palmas,
E as faces rosciando a voz desprega:
«Venceste, emfim, piedoso a dura estrada,
Como esperava! Es tu, meu caro Enéas?
710Ouvir-te os nótos sons, render-t’os posso!
Para agora isto os calculos me davam:
Certo não me enganou meu pensamento.
Por que terras jogado, por que mares,
Por que perigos, filho, eu te recebo!
715Quanto receei que a Libya te estorvasse!»
E elle: «A tua, meu pae, a tua imagem
Cá me attrahe, occorrendo austera e assidua.
Hei no Tyrrheno a frota. Ao nosso amplexo
Ah! não te esquives, dextra a dextra unamos.»
720E ao discursar, em lagrimas desfeito,
Foi tres vezes nos braços apertal-o,
Tres abarcada a sombra se lhe escapa,
Como aragem fugaz, ligeiro somno.
Eil-o em secreto valle descortina
725Selva escusa de arbustos sussurrantes:
Em tôrno ao brando Lethes, que alli mana,
Voam povos sem conto; e, qual nos prados
Se em flores várias por sereno estio
Senta o enxame e se espalha entre açucenas,
730Do estrépito murmúra o campo todo.

Inscio, atalhado, a causa indaga Enéas,
Que rio este he, que gente em cópia tanta
Lhe enche as ribas. «Aos corpos destinados,
Dice o padre, almas sam que eterno olvido
735N’agua lethéa descuidosa bebem.
Muito ha que t’ás mostrar e expôr-te anhélo
Dos meus a descendencia; afim que ainda
Te regozijes mais da Italia achada.»
Pois[4] he crivel, meu pae, que almas sublimes
740Aos tardos corpos, resurgindo, voltem?
Oh! desejo de vida insano e triste!
«Não fiques mais suspenso; eu vou por ordem
Cada cousa expender-te: escuta, ó filho.
Desde o princípio intrínseco almo espirito
745Céos e terra aviventa e o plaino undoso,
O alvo globo lunar, titaneos astros,
E nas vêas infuso a mole agita,
E ao todo se mistura: homens e brutos,
Volateis gera e anima, e o que de monstros
750O crystal fluido esconde. Ha nas sementes
Ignio vigor divino, emquanto a noxia
Materia o não retarda, nem o embotam
Orgãos terrenos, moribundos membros.
Daqui vem dôr, prazer, cubiça e medo;
755E á clara alteza os miseros não olham,
Em cega negregura encarcerados.
Nem perdem, quando a luz vital se extingue,
De todo as fezes e mundanos vicios:
Muitos, concretos longamente, he fôrça
760Que nellas durem por teor pasmoso.
Em tratos pois seus erros pagam todas:
Qual pende aos ventos; qual da culpa as nódoas
Lava em golpho espaçoso, ou dile ao fogo.
Cada um soffre em seus manes: poucos temos
765Ao depois do amplo Elysio as doces veigas;

Té que, perfeito o gyro, a mão do tempo
Gasta o impresso labéo, depura a flamma,
O senso ethereo e simples aura afina.
Voltos mil annos, as convoca em turmas
770Ao rio um deus; porque ellas, do passado
Esquecidas, revêr a esphera queiram,
E entrar de novo nas prisões corporeas.»
Cessa Anchises; a Enéas e a Sibylla
Traz ao mais basto da ruidosa turba;
775Um combro toma; donde a extensa fila
Devise dos que vem, e a todos possa
Os traços discernir. Então prosegue:
«Eia, a glória que os Dárdanos espera,
Do italo tronco os descendentes nossos
780Que a fama illustrarão dos seus maiores,
Hei de explicar-te, e aprenderás teus fados.
Notas? proximo á luz por sorte, um joven
Se arrima em hasta pura: ás auras, misto
Latino sangue, surgirá primeiro,
785Silvio, posthumo teu, de nome albano;
Que tardio, a ti já na eterna vida,
Te ha-de Lavinia produzir nas selvas;
Rei, de rêis gerador, por onde os nossos
Tem de vir de Alba-longa a ser senhores.
790Segue-se Procas, dos Troianos honra;
Capys e Numitor; mais Sylvio Enéas,
Que te avive e recorde, e, obtendo o reino
Cobrar, te imite bellicoso e pio.
Olha, os mancebos quanta fôrça ostentam!
795Aos que civil carvalho ensombra as testas,
Esses Nomento e Gabios e Fidenas,
Esses Collacia te alçarão nos montes,
Eximia no pudor; Pomecia altiva,
Castro d’Inuo juntando, e Bola e Cora:
800Ermos ignotos, no porvir famosos.

Será do avô refúgio o Marcio Romulo,
De Ilia, prole de Assaraco, nascido.
Vês que o elmo lhe adornam dous cocares,
E o padre o marca de esplendor sidereo?
805A inclita Roma, por auspicios delle,
O orbe, Enéas, fecunda em grandes homens,
No imperio ha de abranger, na mente o Olympo,
Sete montanhas n’uma só cidade:
Qual torreada, ufana mãe dos deuses,
810Corre em Phrygia no coche a Berecinthia,
Que cem netos celícolas abraça,
Todos em alto grau, ditosos todos.
Volve os olhos, contempla os teus Romanos.
Julio ahi tens e a geração de Ascanio,
815Para exaltar-se ao pólo. A ti bem vezes
Eis, eis o promettido, Augusto Cesar,
Diva estirpe, varão que ao Lacio antigo
Ha-de os saturnios seculos dourados
Restituir, e sôbre os Garamantes
820E Indos seu mando propagar; dos signos
Clima alêm situado, alêm das rótas
Do anno e de Sol, por onde aos hombros vira
O celífero Atlante o eixo ardente
De estrellas tauxiado. Os caspios reinos
825Já do agouro da vinda se horrorisam;
E a meotica plaga e as septiduplas
Fozes do Nilo turbidas trepidam.
Nem o que a cerva erípede varara,
Que apaziguara as matas do Erymanto,
830E a Lerna com seu arco estremecera,
Tanto peregrinou; nem victorioso
Libero, que do Nysa expede os tigres,
E dobra os cumes com pampineas redeas.
E inda estender a fama duvidâmos,
835Ou n’Ausonia assentar nos tolhe o medo?

Quem distante apresenta insignias sacras
E ramos de oliveira? as cãs e a barba
Do rei conheço que primeiro em Roma
Legislará, da exigua e pobre Cures
840Mandado a celso imperio. Ao depois Tullo
Irá da patria quebrantar os ocios,
Mover ás armas cidadãos remissos,
E as tropas aos triumphos desafeitas.
Anco succederá mais presumpçoso,
845Que d’aura popular já nimio folga.
Vêr queres os Tarquinios, e o severo
Vingador Bruto e os recebidos feixes?
Consul, tomando as sevas machadinhas,
Ai delle! immolará rebeldes filhos
850Á pulchra liberdade. Vário ajuizem
Disto os vindouros; ha-de o amor da patria,
E o de glória vencer desejo immenso.
Nota os Decios ao longe, os Drusos nota,
Manlio Torquato de cruel secure,
855E o dos pendões reconductor Camillo.
De armas fulgindo iguaes, os dous que observas,
Concordes hoje quando a noite os preme,
Ah! quanta excitarão, se a luz tocarem,
Guerra entre si, que estragos, que batalhas!
860Dos muros de Moneco e das Alpinas
Serras baixando o sogro, instructo o genro
Dos oppostos Eôos! A taes guerras
Não vos acostumeis, nem volteis, jovens,
Contra o seio da patria o esfôrço vosso.
865Tu, que provens do Olympo, antes perdoa;
Fóra os dardos arroja, ó tu meu sangue.
De Acheus pela matança aquelle insigne,
Triumphada Corintho, ao Capitolio
Ha-de o carro subir. Mycenas e Argos
870De Agamemnon, ess’outro ha de estruil-as,

A Eacide abater, do armipossante
Achilles garfo; os Teucros seus vingando,
E de Minerva o maculado templo.
Como olvidar-te, ó Cosso, ó Catão magno?
875Como os Gracchos, e os dous, terror da Libya,
Scipiões, raios da guerra? e na pobreza
O potente Fabricio? e a ti, Serrano,
Semeando os sulcos? Onde absorto, ó Fabios,
Me arrebatais? só tu, Maximo, aos nossos
880Detençoso a republica restauras.
Ham-de outros, sim, mais mollemente os bronzes
Respirantes fundir, sacar do marmore
Vultos vivos; orar melhor nas causas;
Descrever com seu radio o céo rotundo,
885O orto e sidereo curso: tu, Romano,
Cuida o mundo em reger; terás por artes
A paz e a lei dictar, e os povos todos
Poupar submissos, debellar suberbos.»
Com pasmo ouvido: «Attenta, ajunta o velho,
890Do espólio opimo ovante, eis vem Marcello,
E em talhe sobrepuja os varões todos.
Turbada em gran’tumulto, ha-de este a Roma
Cavalleiro assistir; prostrar o Gallo
Revôlto e os Penos, e as terceiras armas
895Ganhadas suspender[5] ao pae Quirino.»
Nisto, Enéas descobre um lindo moço
De fulgente arnez, mas pouco alegre,
De rosto e olhar cahido: «Ao varão, padre,
Quem acompanha? he filho? he da prosapia
900Delle talvez? Que sequito estrondoso!
Que ar de Marcello tem! Mas noite escura
Triste voa e a cabeça lhe circumda.»
Em lagrimas Anchises: «Não me inquiras
Dos teus o lucto ingente; apenas, filho,
905Á terra o mostrará destino avaro.

A durar este dom, crêrieis, deuses,
Nimio possante a geração romana.
Que ais no campo vizinho aos marcios muros!
Ou de que funeraes, entre o sepulcro
910Recente resvalando, ó Tiberino,
Testemunha serás! Nenhum mancebo
Da gente iliaca os avós latinos
Tanto ha de esperançar, nem de outro alumno
O romuleo paiz jactar-se tanto.
915Oh piedade! oh fé prisca! oh dextra invicta!
Ninguem impune o arrostaria armado,
Quer a pé remettesse, quer d’esporas
Os do espumeo ginete ilhaes picasse.
Guai[6]! joven miserando, asperos fados
920Se a romper chegas, tu serás Marcello.
Dai-me ás mancheias lirios, dai-me rosas:
De esparsas flores eu cumule o neto;
A alma do vão tributo ao menos logre.»
Assim, no espaço aereo vagueando
925Por essas regiões, tudo examinam.
Depois que o padre o instrúe, e de renome
No ardor o abraza, as imminentes guerras
Ao filho explana, e os povos de Laurento
E de Latino a côrte lhe annuncia,
930E como o risco evite e como o soffra.
Do Somno ha dous portões: sahida, contam,
O córneo facilita ás veras sombras;
Do que he de alvo marfim, terso e nitente,
Mandam falsas visões á luz os manes.
935Pelo eburneo, entretendo a vate e o filho,
Os encaminha Anchises e os despede.
Para as naus corta, aos seus reverte Enéas.
Corre a costa e a Caieta vai direito.
Da proa botam ferro, a pôpa atracam.




  1. No original, não há aspas nesse lugar.
  2. No original, não há aspas nesse lugar.
  3. No original, , erro tipográfico.
  4. Esta fala de Enéias não recebeu aspas na edição da Eneida Brazileira; no Virgilio Brazileiro é marcada por travessões.
  5. No original, está supender.
  6. No original "quai", erro tipográgico.