Epilogo

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Epilogo
por António Feijó


Como um captivo, aqui te deixo, Pensamento,
As asas d'oiro amarfanhadas,
Com o esforço que fiz de forma e sentimento,
Nestas estrophes mal rimadas...

Os meus olhos, a noite immensa perscrutando,
Viram-te bello e refulgente;
E ao teu contacto, a Alma em trevas, despertando,
Illuminou-se de repente.

A cadeia, que ao lodo obscuro a tinha presa,
Fundiu-se ao beijo que lhe deste;
E a alma liberta, ao sol da Graça e da Belleza,
Abriu, cantando, a asa celeste!

Descendo para mim d'outras espheras, vinhas
Banhado ainda em luz sublime;
Via-te bem, sentia os encantos que tinhas,
Mas a palavra não te exprime.

E quem hoje te vê, n'estas imagens frias,
Encarcerado em duro engaste,
Nem por sombras suppõe com que esplendor fulgias,
Quando aos meus olhos te mostraste!

Nem as outras visões que ficaram sem forma
Em nebulosa inconsistente,
A espera d'essa luz que ao vir de ti transforma
O pó da terra em oiro ardente...