Era um anjo!

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Era um anjo!
por José da Silva Maia Ferreira
Poema publicado em Espontaneidades da minha alma.


No album do Sr. F. V. da Cunha.


Em uma noite sonhei
Estar sentado junto a mim —
Mimoso Anjo do céo
D’azas brancas de setim —
Era fermoso — innocente,
Quando branda e docemente
De seus olhos descerrava
O ceruleo d’oiro manto
Que mostrava o seu encanto
Que d’amor extasiava.

Sobre mim poisou a face
Sua face de jasmim,
E querendo dispertar-me —
De seus labios de carmim
Ouvi com voz sonora
Que arrebata e que namora
Dizer-me, ó Santo Deus! —
Dôces palavras d’amor
Que exprimiam com fervor
Os ardentes votos seus!

Despertei, e do sonhar
A realidade senti

Não sei se era um anjo
O corpo gentil qu’eu vi:
Porém tinha o seu candor —
Era do mundo o primôr —
E se não era do céo
Porque azas não trazia
Com suave melodia
Repetia o canto seu!

Tinha nos labios candura
Nos olhos meiguice e amor —
Era lindo — como é linda
A primavera da flôr
Era puro como é pura
Na desgraça e desventura
A consoada maternal —
E ingenuo quando dizia
Que o amor qu’elle sentia
Na terra não tinha igual.

Ouvi o anjo da terra
Que p’los do céo me fallava —
Que juras d’eterno amor
Tão meigamente jurava —
Imprimi então um beijo
Que a fez córar de pejo —
Nos seus labios de coral —
E de prazer tão subido

Soltei após um gemido —
O gemido do meu mal!

Neste enleio mergulhado —
Fujamos — eu lhe bradei
Do mundo qu’insano olvida
Da natura a doce lei —
Delle audazes zombemos
E a outro mundo voemos
Onde possamos fruir —
Quer aos roncos das procellas
Quer em céo azul d’Estrellas
A vida do teu sorrir!