Esmeralda

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Esmeralda
por Cruz e Sousa
Texto publicado em Missal

No fundo verde da tela avulta em claro uma Cabeça macilenta, dolorosa, como que envolta num albornoz branco.

Toques da mesma cor garça põe-lhe leves nuances nos cabelos, nos olhos cismativos, anelantes, que têm a expressão de um desejo nômade.

Desse cromatismo de tons verdes, idealizou o artista o nome de sua viva cabeça imaginária - que parece uma dessas fisionomias raras que só naturezas especiais sabem distinguir e amar, uma dessas cabeças de mulheres singulares que a dolência da paixão enervante calcinou e turvou de dores.

Do golpe rubro da boca escapa-lhe um sentimento de amargor, que a travoriza e acidula, como se um acre veneno ardente lhe estivesse sangrando os lábios.

E essa boca, assim em golpe rubro, purpurejada por um vinho secreto de ilusão antiga, destacando álacre no palor do rosto frio, como que excita aos beijos, turbilhões de beijos como de chamas...

E descendo da boca aos seios alvos de lua, a imaginação vai fantasiosamente compondo todo o corpo de Esmeralda e despindo-o, à proporção que o vai compondo, despindo-o e gozando a carne cor de papoula.

E, as tintas, na tela, vivendo de impressionabilidade artística que um pincel de mão original e nervosa lhes infiltrou, como que exprimem, no colorido e no ideal da contemplativa Cabeça, a emoção vaga, aérea, de alguma formosa e amada Esmeralda virgem, perdida e morta dentre as verdes pedrarias do Marsolene...