Estética e Pontaria

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Estética e Pontaria
por Humberto de Campos
Conto publicado em Grãos de Mostarda


A roda não podia ser mais encantadora, mais fina, mais distinta, nem a palestra mais agradável, mais alta, mais sutil. Conversava-se sobre estética feminina, vindo à bulha uma ilustre senhora, figura mundana de alto destaque, mas em quem o "decolletée" denuncia um colo desproporcionado, posto, com as modas atuais, em inteira liberdade.

— A Lúcia — explicou mme. Vieira do Prado — é um caso curioso, nesse gênero.

E contou:

— Imaginem vocês que ela, um dia, foi à minha casa, pedir o meu conselho, sobre o suicídio. Como o seu caso só pudesse ser liquidado pela morte, recomendei-lhe o veneno. Ela recusou. Lembrei-lhe o punhal. Não quis. Falei-lhe do tiro, receitando-lhe uma bala na cabeça. Achou que ficaria desfigurada, e impugnou a idéia. Afinal, ficou resolvido um tiro no coração. Ela faria a pontaria no lado esquerdo do peito, ficando combinado que, para que a bala atingisse, certeira, o órgão da vida, ela encostasse o cano do revólver no bico do seio. Ela fez isso, e puxou o gatilho.

— E não acertou no coração? — indagou alguém, com vivacidade.

Mme. Vieira do Prado sorriu:

— Qual nada!

E com gravidade, ao ouvido de cada um:

— A bala pegou... no joelho!