Eu (Augusto dos Anjos, 1912)/Versos de Amôr

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Versos de Amor

A um poeta eròtico

 

Parece muito doce aquella canna.
Descásco-a, provo-a, chupo-a... Illusão trêda!
O amor, poeta, é como a canna azêda,
A toda a bocca que o não prova engana.

Quiz saber que era o amor, por experiencia,
E hoje que, emfim, conheço o seu conteúdo,
Pudéra eu ter, eu que idolátro o estudo,
Todas as sciencias menos esta sciencia!

Certo, este o amor não é que, em ancias, amo
Mas certo, o egoista amor este é que acinte
Amas, opposto a mim. Por conseguinte
Chamas amor aquillo que eu não chamo.

Opposto ideal ao meu ideal conservas.
Diverso é, pois, o ponto outro de vista
Consoante o qual, observo o amor, do egoista
Modo de ver, consoante o qual, o observas.

Porque o amor, tal como eu o estou amando,
É espirito, é ether, é substancia fluida,
É assim como o ar que a gente péga e cuida,
Cuida, entretanto, não o estar pegando!

É a transubstanciação de instinctos rudes,
Imponderabilissima e impalpavel
Que anda acima da carne miseravel
Como anda a garça acima dos açudes!

Para reproduzir tal sentimento
Daqui por diante, attenta a orelha cauta,
Como Marsyas — o inventor da flauta —
Vou inventar tambem outro instrumento!

Mas de tal arte e especie tal fazêl-o
Ambiciono, que o idioma em que te eu falo
Possam todas as linguas declinal-o
Possam todos os homens comprehendel-o!

Para que, emfim, chegando á ultima calma
Meu pôdre coração rôto não role,
Integralmente desfibrado e molle,
Como um sacco vasio dentro d’alma!

 

Pau d’Arco — Agosto — 1907.