Eu ouvi!

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Eu ouvi!
por José da Silva Maia Ferreira
Poema publicado em Espontaneidades da minha alma.


Vibrada no espaço de noite mui linda
Ferindo minh’alma com maga inflexão
Cadente eu ouvia de um Anjo da terra
Do imo do peito mui terna canção!

Dizia saudade — em accento magoado,
Sonoro — mavioso, inspirado por Deos —

Tão maga harmonia só era emanada
Do côro dos Anjos — dos Anjos dos Céus!

Casava co’as horas tardias da noite
De noite tão bella, de almo luar —
A voz merencoria qu’attento escutava
Lembrando continua meu triste penar.

Que doce soffrer infiltrou em minh’alma
Os sons desferidos por Virgem mimosa
Dizia o meu fado sem ella o sentir,
Lembrava-me a vida passada e saudosa!

Ouvi, como ouviram no monte Sinai
Os magos mandados á voz do Senhor,
Humilde e curvado o meu agro porvir —
Dos labios da Virgem, nos cantos d’amor!

E triste e pungido por este escutar
Que tanto extasiou-me, porque era saudoso —
A passos mais lentos, que a dôr que soffri —
Deixei, apartei-me do canto harmonioso!