Fadiga

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Fadiga
por Humberto de Campos
Conto publicado em Grãos de Mostarda


Das seis ou oito mil costureiras francesa que o Rio de Janeiro hospeda atualmente, nenhuma era tão feliz nos negócios como aquela rapariguita de cabelos de ouro e olhos castanhos, que atravessava, sempre, à tarde, o pedaço mais movimentado da Avenida.

Efetivamente, era de admirar que, enquanto as outras empregadas de "atelier" patenteavam as suas dificuldades de vida, só aquela mocinha pudesse apresentar-se de meias de seda e com vestidos que valiam dois meses de ordenado, cada um.

Os sucessos de Mlle. Ninete haviam, porém, forçosamente, de comprometer-lhe o organismo; e de tal modo que, seis meses após a sua chegada ao Brasil, começava a graciosa parisiense a emagrecer, manifestando sintomas de uma grave alteração de saúde.

Sentindo-se dia a dia pior, correu Ninete ao consultório do Dr. Abel Porto, que, após um exame profundo e minucioso, lhe prescreveu um regime de vida:

— A senhora, — disse, — está carecendo de repouso; é preciso trabalhar menos; compreende?

— Mas, doutor... — aventurou a moça.

— Nada! Não tem isso nem aquilo. Trabalhe menos. A senhora não está assim de trabalhar?

— É, sim, senhor.

— Então? Agora é repousar. É descansar o corpo.

E abrindo a porta, para a cliente sair:

— Não se deite mais, durante o dia; sabe? Passe o dia em pé!