Fausto (traduzido por Agostinho de Ornelas)/Prólogo no Teatro

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PROLOGO NO THEATRO
 

 
 
Director — Poeta dramatico — Gracioso.
 
 
DIRECTOR

Vós ambos, que me tendes tantas vezes
Em apertos e magoas soccorido,
Dizei-me, que futuro á nossa empreza
Agouraes n'estas terras d'Allemanha ?
Desejos tenho de agradar ás massas,
Pois ellas vivem, e viver nos fazem.
O theatro está prompto, esperam todos
Uma festa gosar. Já estam a postos,
Bem abertos os olhos, desejosos

De maravilhas ver. Sei por que modo
O publico favor ganhar se logra,
Mas em tal embaraço nunca estive,
Não 'stam affeitos ao melhor, é certo,
Mas, por meu mal, tem lido immensamente.
Que havemos de fazer, p'ra que pareça
Bem novo tudo, de conceitos rico
E demais, agradavel? Porque quero
Que á nossa casa corra a turbamulta
Em torrente compacta, e com arrancos
Repetidos, profundos, se comprima
Junto á porta de entrada; que de dia,
Ainda antes das cinco se dispute,
Á força d'encontrões; um logarsinho
Ao pé do bilheteiro, e como em tempo
De fome à porta dos padeiros, quebre
O povo a cara pra alcançar bilhete.
Tal milagre entre gente tão diversa
Faz o poeta— Amigo, opera-o hoje.

 
POETA

Não me falles da turba variegada,
A cuja vista o espirito nos foge.
Esconde-me o tropel tumultuoso,
Que ao abysmo nos quer, máo grado nosso,
Violento arrastar. Tu me transporta
A placido asylo onde somente
Pode pura alegria achar o vate,

Onde o amor e a amisade inundam,
Com mão divina de ventura o peito.
Al, o que surge então no fundo d'alma,
O que os labios à si murmuram timidos,
Mallogrado por vezes, outras bello,
Leva-o, devora-o rapido o momento.
Talvez que só depois de longos annos
Acabado e perfeito emfim pareça.
O que só brilho tem, dura um instante,
O verdadeiro bello ao porvir chega.

 
GRACIOSO

Não me tragam p'ra aqui tempos vindouros!
Supponhamos que eu fallar quizesse
Dos vindouros tambem ; quem divertira
Nossos contemporaneos? Rir-se querem
E tem direito a rir-se. A mim, parece-me,
Que o presente, de um homem sempre deve
Ter alguma valia. Quem com. graça
Se souber exprimir, não no irritam
Os caprichos do publico; deseja
Numeroso auditorio que mais prompto
Consiga commover. Eia pois, animo!
Mostrai-vos um primor; á phantasia
E seu brilhante sequito dai largas:
Paixões, razão, engenho e sentimento,
Em vossos cantos brilhem; mas cuidado,
Que nelles a loucura tambem entre.

 
DIRECTOR

E sobretudo sejam numerosos
Os lances; é p'ra ver que vem o publico,
E na vista acha o maximo deleite.
Se diante dos olhos se desdobra
Abundante espectaculo, que possa
Mirar a multidão boquiaberta,
Larga fama alcançaes, homem bemquisto
Do publico sereis. É só com massas
Que massas movereis. De toda a peça
Escolhe cada um, por fim, aquillo
Que mais lhe agrada. Quem offrece muito
Pode a muitos um pouco dar, e todos
Se retiram a casa satisfeitos.
Dando uma peça, dai-a já pedaços,
Só com guizado tal fareis fortuna;
É facil de servir, mais facil 'inda
D'imaginar. De que vos serve um todo
Harmonico, perfeito? Fal-o em postas
O publico illustrado.

 
POETA

E vós não vedes
Como é vil tal mister, quam mal cabido
Em verdadeiro artista? Por modelos,
De certos poetastros os escriptos
Pretendeis inculcar?

 
DIRECTOR

Essa censura
Molestar-me não pode. Quem deseja
Devéras trabalhar, servir-se deve
Do melhor instrumento. Recordae-vos,
Que tendes de rachar madeira molle,
E para quem escreveis não vos esqueça.
Se fastio aborrido arrasta este,
D'opiparo banquete saciado
Aquelle chega; e, peor inda, muitos
Vem frescos da leitura das gazelas ;
Distrahidos nos buscam como iriam
A qualquer mascarada. O que os attrahe
É só curiosidade. As lindas damas
Tambem sem serem pagas representam,
E ostentando galas em 'spectaculo
Ao publico s'offrecem. Da poesia
Lá nas alturas que sonhaes? Pois pode
A chusma d'um theatro compr'ender-vos ?
Attento consid'rae os amadores;
Frios são ou grosseiros. 'Stá pensando
Este em jogar, depois de ouvida a peça;
Aquelle espera noite delirante
Nos braços duma moça. P'ra tal gente
Não deis ás musas tratos, pobres tolos |
Digo-vos eu, mettei cousas infindas
Na vossa obra, e mais e mais ainda,

Que não podeis assim do alvo ir longe.
Os homens confundir buscai somente
Pois contental-os custa. Oh lá! que é isso?
Enthusiasmo ou dor?

 
POETA

Busca outro escravo !
O seu direito summo deve o vate,
Direito de homem da natura havido,
Por tua causa violar ousado?
Por que meios commove os peitos todos?
Por que meios domina os elementos?
Não é pela harmonia que lhe mana
Do fundo d'alma, e o coração lhe liga
Ao immenso Universo? Quando solta
Descuidosa do fuso a natureza
O fio eterno e longo, quando a turba
Discorde sôa dos confusos seres,
Quem em partes harmonicas divide
Essa torrente e a compasso a move,
Infundindo-lhe vida? Quem consagra
Aos olhos do Universo o individuo,
E em grandiosos cantos o celebra?
A furia das paixões quem desenfrêa ?
Quem accende na mente austera e grave
O fulgor do poente, quem desparge,
Da primavera as dadivas mimosas
Sobre as pégadas da adorada amante,

E d'umas folhas verdes sem valia
A c'roa tece ao merito subido?
Quem nos torna immortaes, 'nos une aos Deuses?
É a força do homem que sublime
Se revela no Vate.

 
GRACIOSO

Emprega ella
Esses subidos dotes, e dirige
Os assumptos poeticos qual corre
Aventura d'amor. Topam-se acaso,
Sentem, speram, e pouco e pouco involvem-se
Nos laços da paixão; cresce a delicia,
Tropeços surgem; eil-os abrazados
D'amor, mas sobrevem-lhes dor, pezares,
E sem por isso darem, compozeram
Um perfeito romance. Similhante
O vosso drama seja. Eia!l talhai-o
Em plena vida humana! Os homens todos
A vivem, mas bem poucos a conhecem,
E se bem a pilhaes sois int'ressante.
Em variados quadros luz pequena,
De verdade um vislumbre entre .mil erros,
Assim se faz o liquido que o mundo
Edifica e alegra. Então se apinha
Ante vossa comedia, dos mancebos
A mais brilhante flor, ouvindo attenta
Vossas revelações, e della sugam

Melancolico pasto as almas ternas.
Agora este se move, agora aquelle
E todos veem o que no peito escondem.
Inda podem mover-se a pranto ou riso,
Os arrojos do genio inda respeitam
E brilhante apparencia lhes agrada.
Já não ha contentar um homem feito,
Mas sempre vos é grato o adolescente.

 
POETA

Pois esse tempo restitue-me em que era
Adolescente eu mesmo, e caudalosa
Fonte perenne de canções manava
Sem cessar de meu peito; densa nevoa
O mundo m'involvia e maravilhas
Promettia o botão desabrochando,
Quando as flores innumeras colhia
Que nos valles frondosos vecejavam.
Opulento me cria; nada tendo
Mais que amor da verdade, e doce apego
Ás illusões da vida. Esses impulsos
Ardentes, livres, restitue-me agora;
Dá-me os deleites fundos e pungentes,
A força de odiar, de amar a força,
Oh torna-me de novo á mocidade!

 
GRACIOSO

A mocidade has tu mister, amigo,

S'inimigos na p'leja te acossarem,
Se donzellas gentis com doce força
Pendurar-se vierem do teu collo;
Se da carreira o premio que se ganha
A custo, acena da longiqua meta;
Quando depois de valsas doudejantes
Em orgia ruidosa as noites passam;
Mas com graça e vigor, vibrar da lyra
As sonorosas cordas, e um alvo,
Em que o fito pozestes, ir buscando
Por intrincadas, deleitosas sendas,
Eis vossa missão, velhos, que por isso
Menos não respeitamos. Não nos torna
Como é ditado, infantes a velhice;
Inda meras creanças vem achar-nos.

 
DIRECTOR

Já palavras de mais tendes trocado,
E ver emfim acções tambem desejo.
O tempo que gastaes em cumprimentos
Pode em cousa mais util empregar-se.
Fallar d'inspiração pouco approveita,
Nunca ao homem que teme ella apparece,
Se vos -daes por poetas, que a poesia
A vosso mando ceda. O que é preciso
Já de mais o sabeis, licor bem forte
Desejamos beber; pois sem demora
Nol-o dae preparado. Não se cumpre

Amanhã o que hoje não for feito,
E nem um dia só perder se deve.
Um homem resoluto, do possivel
Lança mão com ardor, fugir não o deixa,
E na empreza prosegue, até findal-a.
Sabeis que cada um nos nossos palcos
Exp'rimenta o que quer; pois neste dia
Prospectos não poupeis nem machinismos.
Da lua e sol servi-vos, e aos centos
Espalhae as estrellas. Fogo e aguas,
Rochedos, bosques, passares não faltem.
Do bastidor no acanhado espaço,
A creação inteira se desdobre,
E caminhae, com rapidez medida,
Pela terra e o ceu ao fundo inferno.