Feminismo

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Feminismo
por Humberto de Campos
Conto publicado em Grãos de Mostarda


Há muito tempo vinha o Fernando Rezende estranhando aquela amizade da sua Heloísa com a Cláudia Sobreira, viúva do Almirante Sobreira, falecido gloriosamente de gripe no combate da Ilha do Boi. Assim que amanhecia, mme. Rezende tomava do fone, pousado na mesa de cabeceira, pedia ligação para a casa da amiga, e punham-se a conversar. O marido levantava-se da cama, tomava banho, engolia o café, e saía; e as duas ficavam, ainda, atracadas ao fio, numa permuta de beijos, de carícias, de segredinhos que era, mesmo, de acordar desconfianças. Após o almoço, uma ia para a casa da outra, e, quando se separavam à tarde, era para, cada uma da sua casa, continuarem a palestra, e novo, pelo famigerado telefone.

— Mas que amizade! — matutava o jovem advogado. — Palavra de honra que nunca vi coisa assim! Enfim, são mulheres...

Uma tarde, chegou Fernando Rezende em casa um pouco mais cedo do que de costume, e perguntou pela senhora.

— Foi para a casa de Dona Claudinha, — informou a copeira. — Mas eu acho que elas se desencontraram, porque Dona Claudinha já estava em caminho para cá.

— E já chegou?

— Já, sim, senhor. Ela está lá em cima, no quarto.

Fazendo-se desentendido, Fernando Rezende subiu a escada, e simulando não saber de nada, enveredou pelo quarto de dormir, onde a viúva do almirante se achava, no momento, mudando de roupa.

— Ah! a senhora?!... fez, detendo-se no meio do aposento.

E percorrendo-lhe, com os olhos, o corpo admirável, que a moça procurava esconder, debalde, prendendo entre as duas mãos, aberta, a pequena camisa de cambraia.

— Saia, doutor! — impôs a moça, vermelha, visivelmente perturbada pela surpresa.

— A senhora esquece-se... que esta casa é minha? — fez o rapaz, sorrindo.

E em tom pilhérico, sacudindo o paletó, o colete, o colarinho para cima de uma cadeira:

— Ademais, a senhora está de tal modo ligada à minha mulher, que é como se fosse ela própria. Aos meus olhos, não há diferença nenhuma.

E enquanto falava, ia arrastando para o divã, docemente, a encantadora criatura, que se deixava levar, envergonhada, mas sem opor a mais ligeira resistência.

Ao fim de dois minutos, estavam, os dois, no mais apaixonado dos idílios, quando a porta do quarto se abriu, a apareceu, muito branca, o chapéu ainda a cabeça, o boá na mão, o vulto de Dona Heloísa.

— Que é isto?... — fez, no arranque da surpresa.

E avançando para a amiga:

— tu me traíste! Hein?... Tu!...

E os punhos cerrados, o rosto vermelho de cólera, como quem sente, de súbito, desmoronar o seu castelo:

— Adúltera!... Adúltera!... Traiu-me!... Enganou-me! Logo com quê?...

E com desprezo, indicando o marido:

— Com um homem!...